Diário de São Pedro (II)

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A chuva do dia anterior parece nunca ter estado por aqui e hoje o dia amanheceu bonito. Poucas e pequenas nuvens a lembrar que ali estava o céu, dando algum volume ao dégradé pálido das primeiras horas de São Pedro.

Aventurei-me pelo lado esquerdo da orla da lagoa. Esquerdo, se você está olhando para ela. Afastei-me do local onde ficam os pequenos barcos e comecei a ver grandes casas. Certamente nenhuma de pescador, que se contenta com o que a Natureza lhe dá e não costuma ter essas necessidades inventadas, esses sentimentos de poder e ostentação. São casas de veranistas, quase sempre com mais de um andar e com as comodidades da cidade grande que aqui só servem para tirar a tranquilidade: carros, condicionadores de ar, parabólicas denunciando os televisores. Trazem seus barulhos, suas perturbações que garantem a distância de uma vida calma. Silêncio e paz de espírito não se encontram em shoppings.

Até os cães dessas casas são diferente. Grandes, agressivos, barulhentos, neuróticos. Os cães vagabundos que dormem nos trapiches, não. São dóceis, calmos. Quando alguém se aproxima para interromper seu descanso, levantam a cabeça como a perguntar se precisam mesmo sair dali. Aproveitam o frio da madrugada e o suave calor da manhã com a mesma pressa – nenhuma – e o mesmo respeito – todo. Nem bem escrevo isso, três deles correm em minha direção e se jogam na areia bem a minha frente. Parecem saber que estou falando deles. Logo continuam suas brincadeiras pela orla. São livres. Diferentes dos monstros supernutridos que latem desesperada e histericamente do outro lado dos muros, defendendo seus donos e fazendo valer a ração de cada dia.

Você já teve a sensação do frio deixando seu corpo porque o sol começa a aquecê-lo? É uma sensação de estar vivo. Bem diferente daquela de acordar e ficar molengando na cama como se a vida o estivesse chamando para resolver os doze trabalhos de Hércules antes do meio-dia.

Acordar por já ter dado ao corpo o descanso que ele necessitava. Sair no silêncio e no friozinho da manhã. Escolher um lugar calmo e sentar para esperar o nascer do sol, um espetáculo que acontece todos os dias, mas que nunca é igual.

Aos poucos, ir sentindo o calor na pele e ter novamente a certeza de que está vivo.

Um dia que começa assim é sempre perfeito.

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4 respostas a Diário de São Pedro (II)

  1. irene disse:

    Foi muito bom ter seu artigo para ler agora pela manhã. Não estou a sentir o calor do sol pois, resolvi vir para o computador e olhar os que meus amigos estavam me mandando.
    Obrigada pelo seu artigo, cada vez lhe amo mais.

  2. Wilson Natal disse:

    Eita vidão! Gostei dessa tua foto, ao sol, espalhado nesse coxim à beira da lagoa… Só que tu tens que espalhar melhor o brozeador, para não ficar com essas manchas :).

    E o intelectual deixa-se contagiar pela vida de caiçara!

    Abs,

  3. Jr. disse:

    É, amigo… Tô precisando de pelo menos uma semaninha nessa vida de cão – do vagabundo, claro – para dar sequência ao último fim de semana. Só colocaria aí algumas cervas. Afinal, vagabundo, mas com bom gosto, he,he! Abração!

  4. ianniu disse:

    “Você já teve a sensação do frio deixando seu corpo porque o sol começa a aquecê-lo? É uma sensação de estar vivo.”

    sei demais o que é isso. com essa exata descrição.
    🙂

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