No Rio

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Cinco da manhã. O Rio dorme. Essa é uma das impressões que tenho de “minha terra”: o Rio sabe dormir, sabe relaxar. As aspas ficam por conta de eu não me sentir enraizado a lugar algum, nem mesmo a este onde nasci e cresci. Sou do mundo. Este retorno e os acontecimentos das últimas 24 horas deixaram isso bem claro, intensificando ainda mais essa sensação.

Flashback. Há 24 horas, eu estava dentro do avião deixando Natal. Vinha adiando isso desde o final do ano passado. De repente, em 48 horas, recebo um chamado para renascer – e não estou falando da igreja – como veremos adiante. O pessoal do De Lá Pra Cá, programa da TV Brasil, me convoca para falar sobre O Amigo da Onça. Chico Caruso, Jaguar, Paulo Betti, Marco Antônio Souza (autor de Prazer e Poder do Amigo da Onça) são os outros convidados. E o que tenho a ver com isso? Estou escrevendo a biografia de Carlos Estevão, que desenhou o Amigo por mais de dez anos. Despenco-me de Natal ao Rio, deixando momentaneamente de lado e atropelando alguns planos que vinham sendo pensados e calculados há meses.

Voo tranquilo até Salvador, onde, às 7 da manhã, embarcam 46 hienas – aquele espécime que anda em bando, fede, faz barulho e ri o tempo todo. Há quem chame de “adolescente”. Adeus, descanso. Adeus, leitura. Adeus, paz. São 46 jovens, de 14 e 15 anos, de um colégio particular da capital baiana, em excursão à Argentina. Nenhum negro. O dinheiro ainda corre mais fácil entre os mais claros, mesmo na capital mais negra do país. Não creio, mas gostaria de viver o suficiente para ver um mundo mais equilibrado, mais justo, menos discriminatório.

Chego ao Rio exatamente na hora prevista: 9h10. No Galeão, alguém da produção da TV Brasil me espera com uma plaquinha: Sandro Fortunado. Nunca conheci alguém com esse nome. Nem mesmo Afortunado, que é a palavra em português, mas trocam constantemente. É isso ou Furtado. Levo na boa. Do contrário, somente eu perderia. Só não perdoo quando o erro é cometido por algum conhecido. È Fortunato, cazzo!

Sigo para a TV Brasil, que fica na Lapa. Sempre achei o caminho do Galeão para o centro algo terrível. Não é o Rio que o turista vê nas fotos. É feio, sujo, poluído em todos os sentidos. Talvez isso seja bom para chocar aquele que chega pela primeira vez. Um “bem-vindo ao mundo real”. Já na redação, me entretenho com o redivivo laptop, enquanto aguardo a hora de encontrar a equipe, que está em externa com Chico Caruso. Vou tuitando, avisando aos de Natal que fui, aos do Rio que cheguei, aos outros que um dia eu dei chegar lá.

002_delapraca_p1.jpgPerto do meio-dia, tudo estranhamente acontecendo na hora (os cariocas andam britânicos!) e me deixando muito feliz por isso, sigo para a Praça Paris, uma escolha inspirada de José Araripe Jr., diretor do De Lá Pra Cá, figura muito simpática, tipo “bom carioca”, para gravarmos minha participação no programa. A Praça Paris nasceu na mesma época da revista O Cruzeiro, na segunda metade da década de 1920. A estatuária que há somente nela renderia um livro. Pelas praças vizinhas e pela Cinelândia, vamos encontrar a maior coleção estatuária a céu aberto do Rio, talvez do país. A maioria francesa. Monumentos grandiosos, busto a rodo. Conheço Sara Vinhal, responsável pela pesquisa do programa, que fez o contato inicial comigo, e Vera Barroso, ágil, prática, espirituosa e ainda mais bonita pessoalmente. A chuva parece querer atrapalhar, mas logo vai embora e gravamos de primeira. Espero que algo seja aproveitado. O programa vai ao ar na próxima segunda, dia 29, às 22h, na TV Brasil.

Em seguida, me deixam em Botafogo. Eu ainda de mala e cuia, me sentindo um retirante cibernético, cheio de quinquilharias eletrônicas na mochila e com uma bagagem de mão com roupas e livros. Fico no Edifício Argentina e me aboleto em um café para dar conta, no mundo virtual, de que a missão na Matrix está concluída. As 48 horas seguintes, em tese, seriam de férias. Ligo para André Corrêa, neto de Carlos Estevão, que mui gentilmente me instala em seu apartamento, um pouco mais adiante. Banho, roupa limpa, Internet. Mas o que quero mesmo é dormir um pouco, algo que quase não tenho feito nas últimas semanas. O cansaço, a temperatura perto de 20 graus (e caindo), a chuva e a sensação de dever cumprido acabam me derrubando. Fico sabendo da morte da pantera Farrah Fawcett, a primeira lembrança que tenho de uma loira, mas deixo para digerir mais tarde. Capoto ao lado do computador e acordo duas horas depois com a Internet fervendo e o Twitter bombando com o morreu-não-morreu do Michael Jackson. O mundo parou. Você sempre lembrará onde estava e o que estava fazendo quando Michael Jackson morreu. Eu estava no escritório do apartamento de André, em Botafogo, no Rio, acompanhando pela Internet as pessoas ao redor do mundo alucinando com a notícia.

Michael morria e eu renascia. Foram nove meses em Natal até receber o chamado para nascer outra vez no Rio. Nunca incluo a cidade em meus planos. A imensa São Paulo é minha amante mais querida e alguma pequena e pacata cidadezinha que talvez eu ainda nem conheça é a esposa amável e tranqüila com a qual sonho em passar o resto de minha vida. Mas a vida é voluntariosa, depois de mais uma gestação, quis que eu nascesse outra vez no Rio.

Seis e doze. Preguiçosamente o dia começa a nascer. Um ou outro caminhão alerta que é preciso acordar, cariocas. Está na hora daquela chuveirada matinal com água suficiente para lavar Copacabana inteira, da fúria do esfregaço, do “não tem jeito mermo, mas ainda bem que hoje é sexta”.

Agora pela manhã, vou fazer umas fotos com a ceguinha (minha pobre câmera) pelos arredores. No início da tarde, me desloco para o Grande Méier e me encontro com amigos de infância. À noite, parte da turma do ginásio se encontra.

Vou contando tudo. Acompanhe pelo Twitter.

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2 respostas a No Rio

  1. Laura disse:

    Que legal saber que você tá no Rio, e ainda por cima na casa do meu maninho!! Fica até quando, fujão?? Também tô por aqui, de férias. Eu e Glória chegamos ontem de Gramado, e se você der sorte até sobra um chocolate pra você! hahaha Beijos!

  2. Laura disse:

    E Glória mandou dizer que você perdeu, tá?!

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