O primeiro mármore

Independente de sua idade, leitor, os “cemitérios clássicos” – com túmulos, lápides, etc – já não eram novidade quando você nasceu. No entanto, em termos históricos, eles são bem novos, principalmente aqui no Brasil. Eles começaram a surgir na metade do século XIX, portanto, há pouco mais de 150 anos. Na década de 1970, esse modelo começou a ser deixado de lado (estou falando sempre do Brasil). Surgiram fornos crematórios e cemitérios-parques. Portanto, os grandes “cemitérios clássicos” nasceram por volta de 1850 e se desenvolveram por aproximadamente 120 anos. Como sempre costumo lembrar, são museus a céu aberto.

Temos cemitérios mais antigos, criados no início do século XIX. São cemitérios ingleses. Por que ingleses? Por que vieram antes? Com predominância católica, antes de termos cemitérios públicos, o costume era enterrar os corpos nas igrejas – dentro ou ao redor delas. Os ingleses, anglicanos ou de outra corrente protestante, construíram seus próprios cemitérios. Na década de 1830, havia também cemitérios de escravos. Somente no início da segunda metade do século XIX começamos a ter cemitérios públicos. Em 1856, o ano da cólera, foi definitivo para a criação de vários para que o monte de cadáveres tivesse lugar de descanso. O Cemitério do Alecrim, em Natal (RN), é deste ano.

Em Acta Diurna de 17 de outubro de 1942, Câmara Cascudo fala da primeira lápide e do primeiro mármore do Cemitério do Alecrim. A respeito do último, diz o seguinte:

O mais antigo, o primeiro túmulo de mármore que se erigiu no Cemitério do Alecrim, é o terceiro, à esquerda de quem entra.
Representa uma mulher grega, em atitude de meditação e de cisma, olhando uma urna, a urna bem clássica que devia conter as cinzas.
É o túmulo de Manuel Gabriel de Carvalho, falecido em Natal no ano de 1872.
Veio de Portugal já pronto. A construção do sepulcro foi feita pelo arquiteto Frederico Skinner (…)
Seu túmulo é um dos mais bonitos pela simplicidade, nitidez e perfeição.
No meio de tanta vaidade em pedra e mármore, em cimento e tijolo, ressalta a linha pura d’aquela figura grega, pensativa e concentrada.
Se não estivesse pensando, desde 1872, na morte de Manuel Gabriel de Carvalho, diria eu que ela, sendo grega e sábia, lamentaria, silenciosamente, a existência de tanta inutilidade com que o orgulho dos Vivos enfeita a modéstia dos Mortos…

Sessenta e sete anos depois da crônica de Cascudo, 137 após a construção do túmulo, onde está a mulher grega? Creio que tenha sido roubada. Pela descrição de Cascudo, a figura devia ficar na parte superior da construção. Essa parte de cima, pesadíssima, foi arrancada e, até poucos dias, quando estive lá, estava no chão por detrás do túmulo. Bem no meio, percebe-se que uma parte foi quebrada. O mármore resiste ao sol, ao vento, às chuvas, mas não ao homem.

No mesmo dia em que vi isso, andei um pouco pelo cemitério e vi vários outros túmulos, mais simples, se desmanchando devido às recentes chuvas. Esse é o destino de muitos cemitérios públicos: o abandono, o desmoronamento, o roubo. Totalmente desprovidos de administração, estão fadados a desaparecer. Com túmulos perpétuos, pertencentes a famílias que os compraram há décadas, sem qualquer espaço há muitos anos, não dão qualquer lucro. Só uma administração compromissada com a História e com alguma consideração às pessoas que ali foram enterradas e a seus familiares se mexeria para fazer alguma coisa. Administrações inteligentes, em outros lugares – alguns aqui no Brasil –, já despertaram para o potencial turístico que esses centros históricos e culturais possuem.

Se isso não acontecer, o destino do Cemitério do Alecrim e de outros museus desse tipo é a pior das mortes: a da nossa própria memória.

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3 respostas a O primeiro mármore

  1. Wilson Natal disse:

    Sandro: Aqui vai um pouco de cada coisa.
    O primeiro cemitério oficial de S. Paulo foi o Cemitério dos Aflitos, sagrado em 1779, cujo primeitivo nome era Cemitério da rua do Arcipreste. Ficava próximo ao Morro ou Largo da Forca, hoje Praça da Liberdade. O nome Aflítos deve-se a sua capela cujo orago era N.S. dos Aflitos. Servia ao sepultamento dos pobres, da indigência,soldados, escravos e supliciados na forca.
    No começo da atual Av. Tiradentes, inaugura-se, em 1851, o Cemitério dos Protestantes. Mais tarde, removido para a Consolação.
    Em 1858 é inaugurado o Cemitério Municipal (da Consolação). Com a proibição dos enterramentos fora do cemitério, as Ordens Religiosas e os protestantes requerem uma área do mesmo, para fazerem as suas necrópoles. Sendo o mais famoso o Cemitério da Ordem Terceira do Carmo, inaugurado em 1868 (onde, entre tantas personalidades está sepultada Anita Malfatti).
    Excessões: Além do Altar da Pátria, o Monumento do Ipiranga é um mausoléu onde estão os restos mortais de D. Pedro I, das duas Imperatrizes e da Duquesa de Goiás, existe o Obelisco-mausoléu, no Ibirapuera, onde estão sepultados os soldados constitucionalistas da Revolução de 1932 e personalidades do movimento.
    Un caso bissexto: O túmulo de Júlio Frank, no pátio interno da Faculdade de Direito de S. Francisco.Professor da faculdade, Protestante, quando morreu, foi-lhe negado o enterro em cemitério católico. Está lá, no pátio, desde 1841.

  2. Wilson Natal disse:

    Uma curiosidade daqui, para você ver se acontecia ai, no Alecrim, ou outros.
    O Cemitério da Consolação,antes de se transformar em necrópole da elite, enquanto Municipal, estava dividido em vala dos comuns, túmulos perpétuos. Tanto em um como o outro, estavam divididos em ala dos adultos, ala dos anjos grandes (crianças entre 10 e 16 anos), ala dos anjos pequenos (crianças até 9 anos)e ala dos anjinhos (natimortos , recém nascidos e bebês até um ano).Tinha, além do ossário dos comuns, um necrotério, capela e cruzeiro da almas.
    Esta curiosidade faz parte da evolução dos cemitérios daqui, até o meio dos anos 30 do século XX.

  3. Wilson Natal disse:

    Comentando o texto:
    Veja se acontece ai.
    Aqui, grande parte dos problemas dos cemitérios foram resolvidos pelas sub prefeituras que fiscalizam a administração das necrópoles. Mesmo sob essa vigilância, barbaridades acontecem (imagine sem ela…).
    E as posturas municipais são claras: Manutençao, conservação das necrópoles é da competência da da Adminstração Municipal, através dos administradores da necrópole.
    Manutenção, limpeza, conservação dos túmulos é da competência dos proprietários.
    E volta e meia, em editais em joranis, a municipalidade “convida” os proprietários, ou parentes diretos, a recuperar, reformar túmulos que estão em péssimas condições. E, caso não se apresentem à administração do cemitério em x tempo, a concessão do túmulo será retirada por abandono, passando o terreno a pertencer à necrópole que, por sua vez, o colocará à venda e, os restos mortais retirados, irão para o ossário ou ossuário geral.
    Aqui, o que teve de gente correndo para “acertar as contas” com a administração foi uma loucura. Isso resultou em túmulos consertados, restaurados, recuperados, etc.
    No caso de famílias extintas, o túmulo será vendido, mantendo o nome da família antiga juntamente com a atual e os restos serão removidos para o ossuário do próprio túmulo.
    Com tudo isso ainda é difícil a conservação. Imagina sem isso…
    Abração.

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