Hasta la victoria…

No meu tempo de universitário, participei de passeatas e manifestações. Isso foi nos anos 80, quando ainda sentíamos o cheiro da ditadura e nossos professores haviam sofrido diretamente com ela. Lutávamos pelo direto de nos expressarmos, não para nos tornarmos outra ditadura, não para que fôssemos os ditadores da vez. Mesmo que às vezes acreditássemos ser necessário gritar, buscávamos o diálogo. Éramos idealistas (ainda sou) e abestalhados (idem) como grande parte dos jovens, mas não lembro de nenhum, dentre nós, afrontando e humilhando uma autoridade ou um servidor público que estivesse cumprindo sua função. Muito menos um que tivesse uma turma grande, mais forte e armada. Isso você só faz por dois motivos: se tem total convicção do que está defendendo ou se é burro. Muitas vezes por ambos. Sou completamente contra a violência e se discordo de algo que está dentro da Lei, o que tenho a fazer é procurar mudá-la, elegendo representantes e legisladores comprometidos com minhas ideias, cobrá-los para que lutem por elas, etc. Isso demora e pode não dar certo. Caso não dê, o jeito é adequar-me à regra ou procurar um lugar que tenha regras com as quais eu concorde.

No caso da USP, não vi universitários intelectualmente privilegiados e incontestavelmente cheios de razão lutarem por seus ideais. Vi um monte de babuínos gritando e seguindo outros que gritaram antes. Como estavam em maior número, se acharam muito corajosos para mexer com uns gorilas que estavam por lá. Quando a turma dos gorilas chegou, os babuínos se transformaram em saguis saltando para todos os lados. No dia seguinte, a tropa de choque talibã entrou em ação. A minha ainda querida Caros Amigos tascou em seu site uma matéria intitulada PM transforma USP em praça de guerra. Pelo meu entendimento, para haver guerra é necessário que haja, pelo menos, dois grupos se agredindo. Se um só agride, é massacre. Acho que seria mais honesto e menos parcial dizer Estudantes e PM transformaram USP em praça de guerra. No Twitter, a garotada, defendendo “seus iguais”, não sustentava argumento em 140 caracteres. Não raro se lia algo do tipo “sem entrar no mérito de quem começou (…)”. Como assim? Só tem culpa quem bateu? O que mexeu com a onça é santo?

Parece que a garotada de hoje, extremamente alienada, não entendeu que revolução é coisa para gente grande. Se você está convicto daquilo que está defendendo, se é senhor de sua razão, se chamou alguém “para cair dentro”, vá até o final. Apanhe da polícia, sangre, se quebre, seja preso, morra, tenha seu corpo levantado pelos colegas, seja velado em praça pública. Estúpida, violenta, grosseira e até errada, a polícia está cumprindo o papel dela. E os manifestantes estão cumprindo o seu? Eu vi um monte de filhinho de papai com suas câmeras afrontando covardemente quatro pessoas e depois, também covardemente, correndo para a barra da saia da mamãe e se fiando que a imprensa – também cada vez mais alienada e parcial – fosse sair em sua defesa.

Chamou para dentro, encara. Não se começa uma guerra contando com que seu inimigo não vá lhe bater forte. Você tem que ir com a certeza de que vai morrer. Essa é a única maneira de talvez sobreviver. Se você não tem esse instinto nem consciência do perigo, procure os meios legais, civilizados, diplomáticos. Ou estão pensando que a vida é filme americano onde o mocinho enfrenta e vence um exército inteiro? Com celular e camerazinha digital não dá para encarar bomba e revólver. Resolvam: querem ser bobos ou revolucionários? Revolução de verdade tem sangue e morte. O resto é filme e clichê. Estão a fim de pagar o preço? Hasta la victoria siempre ou hasta la Victoria Secret?
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Cliche Guevara é estampa exclusiva da antiga Desacato, depois Verdurão, grife brasiliense de moda jovem.

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6 respostas a Hasta la victoria…

  1. Pingback: “Corpos tristes” « Umas & Outras

  2. Wilson Natal disse:

    Sandro: gostaria de escrever um mundo de coisas sobre os “universitários”. Mas não sei mais o que é um universitário. No meu tempo, universitários conspiravam, saiam em passeatas, contestavam, abominavam o sistema e a ditadura; gritavam palavras de ordem contra um governo que lhes tirou praticamente os direitos mais básicos. Maria Antonia com seu outubro sangrento,Praças da Sé e República, Largo de São Francisco, tudo transformado em praças de guerra. Estudantes sitiados no Campus de suas Universidades; Universidades ocupadas. Tudo pelo direito de ter um um país livre. E tantas eram as ações visando a Liberdade… Esses são os universitários do meu tempo. E os de hoje? Não sei. Nunca os ví… Não nas ruas, protestando contra todos esses escândalos da política de de políticos; não os vi, em praças, denunciando as tantas irregularidade que estão por aí… Vejo muitos desses, ditos universitários, nos Shoppings da vida, nos barzinhos e baladas. Não tinha diversão no meu tempo? Tinha. E muita. E se conspirava. Saia-se de festas, boates, bailes e ia-se ao Campus. Ocupava-se a faculdade, saia-se em passeatas, discursava-se nas praças. Apanhávamos, levávamos tiros de “dum-dum”, “banhos de beleza”, gentilmente oferecidos pela prefeitura, através dos seus caminhões que lavavam as ruas. Jatos de água que lavavam até nossa alma. Tirava até os pecados mortais. E porrada! Muita, muita porrada… Onde estão os universitários pró Brasil, hoje em dia? Seriam por acaso aqueles, como os da USP, que param suas vidinhas para lutar uma lutinha de merda e doméstica? Aqueles que destroem a própria casa que os abriga?
    Se for, TÔ FORA!!! Sei que existem verdadeiros universitários ainda. Muitos! Mesmo assim, eles serão a minoria do Brasil de amanhã. E lá no futuro, Quie os deuses permitam que eles façam a grande diferença…
    Abração.

  3. Buca Dantas disse:

    velho Lobo..muita calma nesta hora..não é? Policiais não são inimigos e nem universitários são amigos incondicionais.

  4. Pois é, a situação que o nosso Brasil vivencia, principalmente com a falta de compromisso de todos, tende a ficar cada dia pior. Nao existe esperanças. Talvez se no voto soubessemos escolher as pessoas certas existiria uma luz no fim do tunel. Mas quem seria a pessoa certa? Ta dificil e quem discordar atire a primeira pedra. Como escolher uma pessoa honesta e correta no meio de uma populaçao que no final do espediente do seu local de trabalho coloca dentro de sua bolsa, canetas, papeis oficios e tudo mais que achar necessario se apropiando indevidamente, como que fosse a coisa mais normal do mundo. O cara chega ao poder e tem acesso a valores muito mais interessantes que papel oficio, e ai, o que vc faria? Iria lutar contra tudo e todos pela mudança e cura de um “cancer” incuravel. Bom, essa é uma questao. Acho que o papel do estudante do passado, suas atitudes foi importante e indispensavel pelas mudanças do pais. Se existesse nos estudantes de hoje um compromisso e a garra dos de ontem com certeza existiria esperança de dias melhores. Mas o problema maior hoje é a falta de compromisso e o pensamento individual, a busca constante pelo bem estar pessoal, ninguem mais pensa no coletivo.

  5. joão disse:

    Sandro.
    Não sei se entendi direito, mas vou lá eu dar meus palpites. Onde estão os universitários. Ora, estão onde deveriam estar, estudando. Acho que não e só eles que devem ser manifestar, são todos. Os tempos são outros, as coisas não são tão simples, nem sabemos direito onde estão os inimigos. Vou lutar contra o governo? Mas se o governo é socialista(pelo menos se propoe), como é que faço então? Talvez seja o caso de esperarmos que o centro volte ao poder, com este ditador de araque que é o Serra. Aí sim vamos ter motivos de fato para os estudantes sairem às ruas. Quando este centro voltar o poder(tomara que não volte nunca), aí sim veremos o quanto o Brasil esteve à esquerda. Mas não é intenção minha politizar este espaço nem tampouco defenter qualquer governo. No fundo no fundo eu não acredito nem em escola, como é que vou acreditar em estudantes. Vou na contramão, se pudesse nunca teria frequentado escola. Ela foi boa apenas pelas relações pessoas que fiz, não pelo que aprendi. Confesso que pouco aproveitei até hoje. O que foi relevante aprendi mesmo foi nas ruas. Aos estudantes o ócio.Termino dizendo que eu até me confundi, nem sei se entrei de fato no assunto.
    abraço
    joão

  6. Henderson disse:

    Ei Lobão, essa manifestação da USP tem cheiro de naftalina. Você observou que a liderança parecia aqueles velhos defensores de Lenin…e que não admitem que houve mensalão, e que o PT é purinho….quase virgem!

    Sandro responde: Parecia? 😉

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