Tiros em Barreiros

Parece haver um roteiro prévio para certo tipo de chacina. Fazem pouco do sujeito até que um dia ele enlouquece e sai matando gente conhecida, que ele culpa pelo desprezo ou pelos insultos que recebe. O final também não varia: ele se mata ou é morto pela polícia.

Foi assim em Columbine, em 1999. Dois jovens estudantes entraram na escola que frequentavam, mataram colegas e professores, 15 ao todo, e depois se mataram. Foi assim também com Genildo Ferreira de França, em 1997, no distrito de Santo Antônio do Potengi (antes Santo Antônio dos Barreiros), em São Gonçalo do Amarante, município vizinho a Natal (RN). Em doze horas, matou 14 pessoas, aterrorizou a pequena localidade, mobilizou cerca de 120 soldados e terminou morto. Sem direito a velório, enterro normal, nem plaquinha identificando o túmulo.

Doze anos depois, a história ganha um documentário de 52 minutos. Sangue do Barro estreou terça passada em uma sala do Cinemark, em Natal. Imprensa, convidados, sessão fechada e eu sem o mínimo interesse em ir. Não pelo filme, mas pela sessão. Para mim, a estreia verdadeira aconteceria na noite de quinta, no Teatro Municipal de São Gonçalo do Amarante, sendo assistido por pessoas que vivenciaram o massacre, que perderam parentes, amigos e vizinhos, gente que nunca viu um filme em tela grande, nunca entrou em um cinema.

A fila descia pela rua do teatro. Policiais com roupa de camuflagem – como a que Genildo usava durante o massacre – circulavam pelas imediações. Cada um que passava pelas portas do teatro assinava pacientemente um livro, registrando sua presença naquele momento tão importante, até que o acesso para o auditório foi liberado e alguém, ainda na rua, gritou: “Ei, por que eles já estão entrando e a gente ainda tá aqui? A gente vai ficar do lado de fora?!”. O livro foi esquecido e todo mundo correu. A porta já ia fechando quando eu e Canindé Soares conseguimos chegar a ela com nossa melhor cara de “sou jornalista e posso tudo”. Entramos. Muita gente ficou de fora, mas haveria uma segunda sessão.

O pequeno auditório com menos de 300 lugares estava lotado. Gente em pé, escorada nas paredes, sentada pelos corredores, no palco. Outro tanto lá fora aguardando a exibição seguinte. Começa o filme. O estranhamento da primeira sessão de cinema é um fenômeno que merece ser assistido. Eu não sabia se assistia ao filme ou prestava atenção ao público. Risos nervosos, “Olha Fulano! Olha Zé de Beltrana!”, os conhecidos virando estrela, aparecendo gigantescos no pano branco ao fundo. A excitação logo deu lugar ao silêncio, aqui e ali quebrado pelo choro, por soluços. Aquelas pessoas estavam experimentando o cinema em sua forma mais plena, se emocionando, vendo suas próprias vidas – algumas literalmente – na tela grande.

Genildo, o Neguinho de Zé Ferreira, decidiu dar um fim aos boatos de que era homossexual matando todos que o julgavam assim, a começar pela esposa que teria inventado a história para forçar uma separação. No filme, depoimentos de parentes, colegas de infância, conhecidos, vítimas que escaparam e gritadores de noticiosos policiais. Aliás, a meu ver, o documentário exibe demasiadamente cenas do maldito Aqui, Agora com a caçada ao atirador.

Homossexual. Traficante. Psicopata. O filme parece querer mostrar que não era nada disso e tenta explicar os motivos que levaram o rapaz de 27 anos a cometer a chacina. A construção do personagem vai sendo feita através dos relatos dos entrevistados que também vão revelando onde se encaixam na história. A história é iniciada em ritmo de série policial moderna, se acalma durante a apresentação do Genildo anterior ao dia do massacre, chega à histeria com as cenas dos telejornais e parece se perder quando tenta recolocar os pés no chão e mostrar os efeitos do ocorrido na vida dos filhos do atirador e dos parentes das vítimas. Dois ou três instantes “artísticos”, pendentes para o docudrama, parecem ter sido esquecidos ali na hora da edição. Não fariam qualquer falta. A imagem do protagonista é pouco utilizada e acaba sendo construída no imaginário do espectador.

No geral, o filme funciona bem. Não ousa. Tem início, meio e fim. Cumpre o papel de registrar. Não será exibido em Cannes, não ganhará a Palma de Ouro. Mas ganhou as palmas do público de São Gonçalo que, lembrando seu dia mais triste, viveu uma noite mágica. No lugar de qualquer um da equipe, eu teria ficado orgulhoso com isso. Cheguei como jornalista e fui me transformando em ser humano durante a exibição, contagiado por toda aquela gente de verdade que estava ali, por suas histórias, pelo sangue dado, todos os dias, na luta pela sobrevivência.

Fui ver um filme e voltei com uma lição sobre falta de respeito, intolerância e suas consequências. O povo de Santo Antônio deve ter aprendido isso há doze anos. Se não, Sangue do Barro deve ter servido para reforçar a lição.

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2 respostas a Tiros em Barreiros

  1. Renata Silveira disse:

    Sandro,
    vivi muito de perto este dia fatídico cujo guião parecia ter sido copiado de algum filme de ação americano. Eram 7h40 da manhã quando saímos (Verailton, Adriano – motorista e parceiro de tantas reportagens – e eu) da Tribuna do Norte para verificar a realidade de uma chamada telefônica à redação que alegava que “um maluco estava armado e matando todo mundo quer via pela frente”. O facto era verdade, havia cadáveres espalhados num trajeto de vingança e sangue por diversas ruas/casas do lugarejo.

    Também comecei a minha jornada naquele dia como reporter de imagem mas terminei como ser humano, com questionamentos profundos sobre a condição de quem faz a notícia numa hora destas.

    Não sei se este documentário refletirá na realidade tudo o que aconteceu, pois cada história é composta de dezenas de outras pequenas histórias que se cruzam.

    Se dizes que há muitas imagens “aqui agora”, e eu confio nas tuas análises, então já nem sei o que pensar…

    Um pequeno “pormenor”, é que no calor dos acontecimentos, ouvi o relato de um reporter em directo para a rádio cabugi que me deixou indignada. Num momento de relativa trégua, ainda no centro do pequeno povoado e ainda a muitas horas do fatídico final no meio da mata, quando polícias,r eporteres e pessoas tentavam manter a calma, o repórter gritava numa histeria descontrolada: “tiros, tiros! ele está em qualquer lado…”. Neste exacto momento, olhei para a repórter que estava ao meu lado, acho que era da tv cabugi, e disse: “quem ouve isto, ao vivo, pensa que estamos no meio de um tiroteio. que sensacionalista!”.

    O tiroteio numa única direção ocorreria horas mais tarde e este “bravo reporter” estaria a quilómetros do “perigoso genildo”.

    Estive, com washington rodrigues, a 50 metros de onde o genildo foi abatido, disparando com a minha rebel, porque esta era a arma que eu tinha na mão, enquanto os policiais a minha volta atiravam em todas as direcções).

    Hoje passados anos desta tragédia, a história parece ser o cruzamento de depoimentos emocionados e parciais com o que se apura nos jornais, nos programas de radio e tv arquivados. Só que nem todas as fontes são isentas.

    Resta-nos a versão autêntica, que é a da emoção de cada um, parentes, amigos, vizinhos, que dentro deles, enquanto personagens, carregam e revelam suas dolorosas memórias.
    Quero muito ver este documentário…
    Beijo,
    Renata

  2. Renata Silveira disse:

    PS: Um ano após a chacina, organizei, juntamente com a equipa de reporteres fotográficos da TN uma exposição ” A Chacina de São Gonçalo”, com o objetivo de levantar um debate sério sobre imagens de choque versus imagens sensacionalistas.
    Enquanto fotojornalista sempre defendi a ética e a linguagem inteligente para as imagens de informação.
    Fui, já falei demais 🙂

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