Outro atentado ao cinema

Um anúncio para a estreia mundial da série Mental, da Fox, que acontece nesta quarta, 3 de junho, me chamou atenção. Simplesmente pelo fato de ser dublada. Na mesma hora, me deparei com o seguinte texto:

Diante do fracasso das dublagens, que em toda parte tem sido repudiada pelo público, parece que ficou definitivamente afastado este perigo que pesava sobre o cinema. É que devido ao fracasso de seus filmes, filmes destituídos de qualquer valor, como ao tempo em que estavam sozinhos no mercado, e com o término da guerra, alguns produtores americanos procuraram um meio de poder oferecer qualquer coisa diferente aos frequentadores de cinema, e, ao mesmo tempo, conseguir um meio de fazer frente à produção nacional de cada país, apresentando seus filmes como concorrentes, pelo menos na fala. Mas o público que vai ao cinema não gostou de ver e ouvir seu artista predileto falando por uma voz estranha e diferente, e, por mais que fosse perfeito o sistema, o movimento dos lábios nunca seria sincrônico.

Entretanto, a Metro-Goldwyn-Mayer, cujos filmes não são mais capazes de manter a exclusividade nos seus cinemas lançadores, obrigando-os até a procurar produtores mais pobres, para os quais o Leão olhava com desdém, resolveu apelar para um sistema que sem uso de máquinas falantes, era adotado em países atrasados como a China, onde um comentador ficava junto ao pano da tela explicando a ação do filme. Está claro que aqui não aceitaríamos mais este processo que faz lembrar os nossos filmes falados de 1905, com os artistas cantando e falando por trás da tela, mas pensam os diretores da M.G.M., mesmo porque seria mais barato e pouparia o trabalho de manter um elenco de comentadores, que os seus filmes poderiam voltar a ser mudos, sendo apenas gravada a música e a voz “nacional” de um speaker contando toda a ação.

Este novo atentado que está sendo perpetrado aqui no Rio, já teve uma apresentação nos bairros, e possivelmente os homens estão tomando fôlego para uma experiência maior em plena Cinelândia. Em que pese os elogios de interessados na gravação, não acreditamos que a coisa vá longe; primeiro, porque o público repudiará mais este logro que se procura fazer-lhe; segundo, porque os aparelhos de gravação custam dinheiro, e não acreditamos que a Metro faça qualquer despesa, se não encontrar quem lhe empreste os gravadores ou quem os troque por publicidade nos programas ou um cantinho no salão de espera…

O texto, assinado por Pedro Lima, foi publicado na seção Cinelândia da edição de 13 de setembro de 1947 da revista O Cruzeiro. A partir do pequeno exercício de futurologia do autor, poderíamos contar várias histórias, abordar vários temas e subtemas a respeito dos caminhos tomados pelo cinema, principalmente o americano, ou do avanço tecnológico que experimentamos durante as seis décadas seguintes.

Se à época o cinema já era cinquentão, vale lembrar que ele havia evoluído muito pouco em termos de tecnologia. Nesse primeiro meio século de existência, a maior mudança talvez tenha sido mesmo a captação das vozes dos atores, o que há muito não era novidade no final dos anos 40. O idioma falado era um fator extremamente importante para o sucesso de um filme. Não é à toa que vários países tinham fortes núcleos de produção. Todos tinham seu próprio público e não era diferente por aqui. Também não é de se admirar que filmes falados em espanhol ou italiano fizessem sucesso no Brasil. Era mais fácil entendê-los.

Em 1947, os brasileiros não sonhava com a televisão nem com a discussão de que ela mataria ou não o cinema. Todo mais era pura ficção: videotape, cores, dublagens, legendas, controle remoto, VHS, DVD, SAP, closed caption, TV a cabo, pay per view, TV digital, interatividade do telespectador (que fica cada vez menos tele e menos espectador) que passa a dialogar com a própria tevê de várias formas, etc.

Mas o “problema” das dublagens nunca deixou de existir. Um filme para a hoje chamada tevê aberta, em geral, é exibido em versão dublada. A tecla SAP é ainda quase inútil. Para um público mais exigente e de maior poder aquisitivo, há os canais que apresentam som original e legendas, o que cria outro desespero para quem entende os dois idiomas, pois tende a ficar “corrigindo” a tradução. Isso pode acontecer por simples (muitas vezes má) adaptação ou mesmo por ignorância do tradutor que geralmente conhece melhor o inglês (para falarmos do idioma mais utilizado) que o português, chegando a inventar palavras. E isso não é exclusividade da garotada que capta filmes, traduz e legenda para colocá-los à disposição na Internet. As traduções e legendas dos canais pagos também não são das melhores.

Voltemos às dublagens. A revolta de Pedro lá no final da década de 40 pode parecer engraçada frente a todas as mudanças que aconteceriam, mas, pelo menos nas salas de cinema, aqui prevaleceu a utilização do idioma original. Somente filmes para crianças são dublados (e o temor maior será quando não houver necessidade disso!), além de alguns arrasa-quarteirões que também ganham cópias dubladas para atingir um público maior. Mas isto é Brasil. Em outros países, há leis que fazem da dublagem algo obrigatório.

O que realmente não consigo entender é que, pelo menos nos canais pagos, não tenhamos ainda atingido um nível em que, normalmente, todas as opções estariam disponíveis: som original sem legendas, com legendas, dublado ou ainda com legendas no idioma original. Só temos isso em DVD e, mesmo assim, se a produtora for muito boa e cuidadosa. Provavelmente isso mudará com a tevê digital, mas… quando ela será uma realidade para a maioria? Tenho a impressão que, no Brasil, em se tratando de tecnologia, evoluímos aos solavancos. Quando já existe uma solução para vários problemas, uma resposta para certa demanda, temos o acesso à aparelhagem, mas ela não funciona na prática nem para a maioria. Então nos acomodamos até que damos outro pulo sem termos aproveitado verdadeiramente a vantagem oferecida por vários sistemas. Foi assim desde sempre. Desde quando a televisão chegou, mas ninguém tinha televisor para assistir o que produzia.

Interessante também é que a dublagem feita no Brasil é uma das melhores do mundo. Se hoje preferimos o som original e as legendas, ninguém com mais de 30 abriria mão das dublagens das séries exibidas até os anos 80. Até porque nem conhecemos as vozes originais! Quem não lembra e não reconhece até hoje a voz do detetive Magnum? Como imaginar Tom Selleck sem a voz de Francisco Millani? Ou Bruce Willis sem a voz de Newton da Matta? Quem não reconhece imediatamente “a voz de da Fran”, da Família Dinossauro, quando aparece Anjelica Houston ou qualquer outra atriz dublada por Maria Helena Pader? Temos aqui uma dublagem profissionalíssima, feita por excelentes atores que, não raro, dão mais peso às interpretações do que os atores originais.

A conclusão que chegamos é que, se bem feita, a dublagem não chega a ser o atentado imaginado por Pedro Lima há mais de sessenta anos. Ela pode até mesmo enriquecer e melhorar algo que originalmente não é tão bom. A arapuca se arma quando é mal feita.

Quanto a Mental, vou esperar para ver, melhor, escutar se o som será o das vozes originais ou teremos uma versão brasileira. Se o caso for este último, mesmo bem feita, a estratégia de exibir a série ao mesmo tempo em todo o mundo para evitar a cópia e distribuição via Internet não deverá ter muito êxito. O futuro dirá.

Logo abaixo em  COMMENTS
Esta entrada foi publicada em Cinema, Memória, Televisão. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

6 respostas a Outro atentado ao cinema

  1. Buca Dantas disse:

    Velho Lobo…creio que na relação audiovisual o áudio seja a alma da coisa…é quem preenche o espaço mesmo [e falo de espaço físico]. O objetivo é ser apreendido [compreendido é outra conversinha] e pra mim, também, nada de errado com a dublagem…eu não gosto…e prefiro sofrer com as traduções…a tecnologia não é tão democrática ainda para oferecer opções, mas muita coisa está mudando com a interatividade…Hasta la Victoria Secret! [rerere…gostei demais dessa]

  2. Wilson Natal disse:

    Começo dizendo que Bette Davies morreu duas vezes: Quando ela morreu mesmo e quando morreu Ida Gomes. Coisas do tempo em que procurava-se uma voz adequada para a dublagem de um ator.
    Aproveito para dizer que há mais de 80 anos, os filmes são dublados na Itália e, também em muitos países.
    E que, na América, filmes estrangeiros não fazem muito sucesso por que o americano não gosta de legendas e poucos filmes são dublados.
    Eu tive a sorte de, por descendência, aprender Italiano e, as escolas deram-me o Francês e o Inglês. Por isso, em um cinema posso transitar pelo audiovisual, com legendas ou não, assimilado diálogos.
    Mas, eo povão? E aqueles que são analfabetos? E aqueles que por falta de interesse dos metres têm uma enorme dificuldade de ler? Os analfabetos são muitos ainda…
    Concordo que não há nada que substitua a voz original o idioma original de um filme. Mas concordo que deva haver, pelas razões citadas acima, filmes dublados. Cópia original e Cópia dublada. E cinemas deveriam intercalar sessões originais e dubladas.A escolha seria de quem fosse assisti-lo. Parece loucura, mas não é. Pelo menos fora dos grandes centros.
    E concordo que as empresas dubladoras devem voltar às origens buscando dubladores adequados aos artistas a que dublarão e técnicos de som que saibam o que estão fazendo. Para que não aconteça coisas do tipo: O casal abraçadinho conversando cara a cara; ele fala alto, como se estivesse no meio da sala; ela, fala baixo como se estivesse no quarto, ou no banheiro… Ou então, a enervante trilha sonora acima das vozes dubladas. Isto quando não mudam a trilha…
    E outra coisa que eu gostaria muito: Que filmes estrangeiros tivessem o título original traduzido. Que não inventassem títulos.
    Putz! Escrevi um monte.
    Abração,
    Wilson

  3. La Mondo disse:

    Ai, ai… esse tema dá pano pra manga, meu caro Sandro!

    Moro em um país onde a dublagem é o corriqueiro. Quem quiser ver filmes com idioma original e legendas, tem que procurar sessões extras (quando existem) ou cinemas mais fora do ‘mainstream’.

    Vi ‘Batman – The Dark Knight’, ‘Once’, ‘Slumdog Millionaire’ todos (bem) dublados. Mas para mim, nada substitui a língua original, com as intenções dos atores e a melodia de cada idioma.

    Já escutei algumas pessoas daqui reclamarem de legendas, porque não podem se concentrar nas imagens. Trata-se de uma questão de costumes.

    Eu, particularmente, adoro ir ao cinema, correr os olhos nas legendas e ainda absorver as imagens e as emoções da tela. 🙂

  4. Renata Silveira disse:

    Gente, vamos combinar que qualquer coisa dublada é um pesadelo! Eu não tolero dublagens. E não sabia disso até ter saído do Brasil e ter vindo para Portugal, onde no inicio até precisava de legendas para perceber o que os tugas diziam. Aqui legenda-se tudo. Até as reportagens com os nativos dos Açores, que têm um sotaque ininteligível!
    Estive de férias no Brasil e não consegui ver TV. Sério! Simpsons dublado?! E Family Guy? Quéaquilo?? Pelamordedeus!! Até a Zoé que só tem 3 anos já assiste os Simpsons legendados. E as donas de casas desesperadas? Um desespero só! Estou a falar de séries, pois dublagem de cinema é uma coisa abominável que não deveria acontecer.
    Mas curiosamente, na Espanha, Alemanha e França também se dubla tudo. É um horror… Mas cada povo com sua mania…
    Aqui livro-me das dublagens mas tenho que viver com os terríveis intervalos no cinema…
    Hugz, Renata

  5. Didi Iashin disse:

    Realmente, os dubladores de Magnum são perfeitos!
    Por outro lado, gostaria de encontrar o sujeito que dubla Woody Allen. Não que eu goste do baixinho; ao contrário, não consigo ver nada da lavra dele. Mas a voz que colocaram nele em Annie Hall (TCM), é de irritar estátua!

  6. Thomaz disse:

    Já que você falaram em Woody Allen: os filmes dele começaram a fracassar na Itália, foram ver o motivo e descobriram que o ‘problema’ era que o dublador antigo dele havia morrido, e ninguém havia curtido o novo… sobre dublagens, nunca tive problemas com elas até começar a ter a possibilidade de ver os filmes sempre em seu idioma original, ou seja, quando o videocassete (e depois a TV a cabo) se popularizaram, antes disso já tinha me acostumado com a noção que ‘cinema é com legendas, TV é dublado’. O resultado final é que hoje, sempre que posso, evito dublagens. Só vejo filmes dublado no (canal) TCM, em parte porque são as mesmas dublagens que eu via quando era criança, daí a nostalgia toma conta e eu relevo…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *