Estátuas que andam

Parado como uma estátua não é uma expressão sempre aplicável. A lebre foi levantada pelo professor Edgard Ramalho Dantas, neto de Manoel Dantas, aquele do busto desfigurado sobre o qual falei no texto anterior. “Natal é um dos poucos lugares do mundo em que monumento passeia e estátua anda”, sentenciou ele em mensagem enviada por correio eletrônico. E não é que é verdade?

O exemplo mais conhecido é o da Coluna Capitolina, presente dado por Mussolini e que já passeou por vários pontos da cidade. Eu a conheci nos anos 80, sob o viaduto do Baldo, mas ela já havia estado em outros lugares. Pensaram até em devolvê-la à Itália. Pura pilhéria. Acho. Hoje está em uma praça em frente ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, na Cidade Alta, incrustada de um jeito a inibir futuras remoções, lícitas ou não.

A quase centenária escultura de Pedro Velho, primeiro governador do Rio Grande do Norte, mesmo desprovida de pernas (é um busto), já passeou pela cidade, acompanhada e provavelmente ajudada pela figura feminina (esta com pernas) que faz parte do monumento. Originalmente colocada na Square Pedro Velho (há cem anos, Natal já se rendia a tudo que é de fora), atual Praças das Mães. Era previsto que ficasse li só enquanto a Praça Pedro Velho (a Praça Cívica) era terminada. Mas foi ficando, ficando e só removida muitas décadas depois. Na já velha nova praça, também ficou em mais de um lugar. Agora está de frente para a Avenida Prudente de Morais e, durante os desfiles militares da Semana da Pátria, fica escondida por um enorme palanque.
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Outros dois casos interessantes são de casais. Explico. No primeiro, as estátuas representando dois estudantes ficavam no Grupo Escolar Augusto Severo, no bairro da Ribeira. Tendo sido o prédio ocupado pela Secretaria de Segurança, ficou sem sentido a permanência dos pequenos estudiosos, que em nada se assemelham a delinquentes. Acabaram no Colégio Estadual Winston Churchil, na Cidade de Alta. Vale lembrar que os meninos e também Pedro Velho foram fundidos na França, portanto, as andanças começaram antes mesmo de terem um primeiro local para se aquietarem e desempenharem o papel de monumento.

O segundo casal é de namorados. Estão enroscadinhos em um abraço e colados por um beijo que já dura mais de três décadas. Estes nasceram em Natal mesmo, pelas mãos de Etewaldo. Mas assim como os casais de carne e osso que procuravam o bosque para momentos românticos, os namorados foram importunados e tiveram que mudar de lugar. Ficaram ali mesmo no Bosque dos Namorados, mas em lugar de menor destaque. No ano passado, outra mudança. Agora estão logo na entrada, ao lado de uma salinha para informações construída em 2006 e responsável por desalojar o casal. Lá, como era de se esperar, não sabem informar nada sobre a história do casal.

Um caso curioso é o da estátua de Câmara Cascudo, que fica em frente ao Memorial que leva seu nome, na Cidade Alta. Instalada em 1987 sobre uma acolhedora e gigantesca mão, ficou em paz até novembro de 2003, quando foi laçada e derrubada. Não conseguiram concretizar o sequestro. Livrou-se de ser derretida. Subiu as escadarias do Memorial e passou uns dias lá, esperando ser chumbada de volta. Fui o único a registrar esses poucos dias em que passou abrigada. Da janela do sobrado, a estátua olhava, saudosa de seu lugarzinho ao sol. Essa não foi muito longe. Já a de Dinarte Mariz, no início da Via Costeira, corre um risco danado, até porque parece estar pedindo carona.

Conheço ainda outro caso, fora de Natal, de uma estátua andante. É a de John Lennon que, da última vez que vi, estava em algum lugar da Universidade de Brasília (UnB). E aí na sua cidade? Você conhece alguma estátua que anda?

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2 respostas a Estátuas que andam

  1. Wilson Natal disse:

    Felizmente as estátuas da paulicéia “pararam de andar”. tornaram-se sedentárias. A excessão da GUANABARA que, depois de décadas, escondida num ajardinamento atrás da Prefeitura, foi restaurada e colocada em frente ao prédio da edilidade.
    Mas, muitas, através das décadas, perambularam pela cidade: O SEMEADOR, OS LEÕES DE MÁMORE e as FONTES, migraram do arrazado Parque Dom Pedro II, para a Praça Buenos Aires e Ibirapuera; a estátua de VERDI mudou-se da Praça do Correio para um canto do Vale do Anhangabaú.
    O monumento RAMOS DE AZEVEDO, com o alargamento da Av. Tiradentes, foi desmontado e passou anos no depósito da Prefeitura. Hoje está no Campus da USP.
    E o maior caso de amor de São Paulo por uma estátua: Falo de CONTANDO A FÉRIA, mais conhecida como O JORNALEIRO E O ENGRAXATE que durante uma tempestade caiu de seu pedestal e lá ficou por um tempo, até que um catador de papel resolveu levá-la para vender. Os comerciantes da praça, evitaram e recolheram a estátua. e a Foi manchete de escândalo na mídia e a Prefeitura a recolheu. Ficou “escondida” por muitos anos e por anos persisitia a cobrança da população e da mídia. Deu até processo exigindo a devolução. No ano passado, restaurada, O JORNALEIRO E O ENGRAXATE,voltaram do seu longo exílio e estão no mesno lugar em que estavam, para a alegria da população, lá na Praça João Mendes.
    Não me importo se estátuas andem. Importa-me que partam, que não voltem mais…
    Éstátuas devem ser memória, lembranças, nunca saudade.
    Abração,
    Wilson

  2. Aqui em João Pessoa tem dois casos semelhantes. O primeiro é uma estátua de ferro de Jackson Ribeiro, apelidada pelo povo de “Porteiro do Inferno”, que vive andando por aí, pois toda vez que se coloca ela num lugar alguém reclama; o segundo é um cenotáfio (monumento fúnebre) a Antenor Navarro, que por ter desaparecido no mar num acidente de avião não deixou corpo para ser enterrado. O Estado então mandou fazer essse cenotáfio, muito bonito por sinal, e colocou no cemitério Senhor da Boa Sentença. Pois a Prefeitura queria tirar o monumento do cemitério – onde é o lugar dele – e colocá-lo numa praça no bairro de Mangabeira, pode? Se não fosse o IPHAEP, a maluquice teria acontecido com a concordância dos arquitetos da prefeitura.

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