Em verdade, vos digo…

A edição deste domingo, 24 de maio, da Tribuna do Norte traz duas páginas com matéria sobre o abandono sofrido pelos monumentos em Natal (RN). Texto e fotos fazem um rápido passeio por marcos nos bairros mais centrais e, ao final, dá voz à Semsur – Secretaria de Serviços Urbanos, órgão da Prefeitura do Natal responsável pela conservação dos monumentos.

A matéria termina da seguinte forma:

Segundo ele [o secretário adjunto da Semsur], um historiador e um fotógrafo já estão preparando o inventário sobre os problemas, as necessidades e a história de cada monumento. Ainda não há prazo para o início do trabalho.

O historiador e o fotógrafo em questão são, respectivamente, eu, Sandro Fortunato, jornalista (ou ex, como prefiro), memorialista, historiador por amor e capricho pessoal, e Canindé Soares, não “um”, mas “O” fotógrafo, senhor de vasta obra da qual será impossível escapar ao se pesquisar sobre a História da cidade do Natal das últimas três décadas e das próximas. That’s my man! Ele é O Cara! Prazer, somos nós. Ainda nem viramos estátuas para sermos esquecidos.

Para que fique bem claro que bronze não é gesso, o tal trabalho, que desenvolvemos desde fevereiro, é pessoal, autofinanciado e tem como finalidade mostrar, em livro, quem são as quase sempre esquecidas figuras homenageadas com estátuas, busto e efígies na cidade do Natal. Estamos em fase de conclusão de pesquisa, isto é, já chegando ao final do levantamento do que existe e, em breve, partindo para a edição dos textos (minha área) e escolha de fotos (feitas pel’O Cara).

Por meio de nota na coluna de Cassiano Arruda, na edição de 1º de março do jornal O Poti, portanto há quase três meses, a Semsur soube de nosso trabalho e nos chamou para uma conversa. Na ocasião, o órgão demonstrou interesse em estender a pesquisa aos demais monumentos da cidade (nosso foco são apenas estátuas, bustos e efígies que representem alguma personalidade real). Para isso, seríamos patrocinados, contratados ou qualquer coisa legal que incentivasse a realização desse novo projeto que, em parte, coincide com o trabalho que já vínhamos desenvolvendo. Até o presente momento, isso não foi fechado. Na última reunião, há poucos dias, na qual só Canindé participou, isso parece ter tomado rumos de ser viabilizado.

Resumindo e deixando bem claro: meu projeto em parceria com Canindé foi iniciado em fevereiro de 2009, está indo muito bem, obrigado, e já partindo para a fase de edição. O objetivo é publicar um livro mostrando quem são as personalidades representadas por estátuas, bustos e efígies em Natal. Ponto.

Quem visita nossos blogs sabe disso há meses e tem acompanhado a evolução do trabalho.

Mais um adendo. A pressa em “fechar matéria” geralmente impossibilita o aprofundamento da pesquisa. Na matéria da Tribuna, são mostrados o busto de Pedro Velho e a estátua de Augusto Severo, duas belíssimas obras francesas, quase centenárias, criadas para resistir a todas as intempéries, incluindo a mais cruel delas: o desprezo humano. Já passaram por dezenas de administradores, prefeitos, secretários; passarão por outros tantos e continuarão lá quando os bisnestos dos atuais já não andarem sobre a terra. O abandono tem outra cara. Muito mais feia. Ou se poderia dizer que nem tem cara, pois desfigura até as obras que foram feitas com o objetivo de perpetuar a memória de alguém. Que o digam o Padre João Maria e o jornalista e advogado Manoel Dantas, figuras sem rostos, esquecidas por quase todos. São deles os bustos deformados que abrem este texto.

Para ver todos os posts relacionados a nosso trabalho de pesquisa:

No Sempre Algo a Dizer

No Blog de Canindé Soares

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5 respostas a Em verdade, vos digo…

  1. vicente vitoriano disse:

    @ve! Sandro!
    Estou começando um trabalho em recém criado Grupo de Pesquisa em Cultura Visual, no DEART/UFRN. Meu projeto, em particular, diz respeito à uma construível história da arte do Rio Grande do Norte. Não precisa dizer que seu trabalho é uma fonte permanente de informações para muitos dos possíveis tópicos que eu venha focalizar ou fazer outros focalizarem. Você é convidado para participar de nosso Grupo.
    Um grande abraço.
    Vicente Vitoriano

    Sandro responde: Ave, ViVi! Você sabe que para almas boas, trabalhadores sérios e artistas de valor (e você é tudo isso), eu sou uma vadia das mais fáceis. É só chegar sorrindo que eu já vou me abrindo. Pode contar comigo.

  2. Paulo Marques (Nova Lima - MG) disse:

    É engraçado que quando existe vontade política para manter alguns monumentos que representam a história de um povo, cidade, etc, sempre tem um “espirito de porco” para destruir um patrimônio público.
    A população cobra, mas tem sempre alguns indivíduos para nos tornar incoerentes.
    Aqui em BH-MG, a prefeitura gastou aproximadamente R$ 20 mil para revitalizar o Obelisco da Praça 7, mais conhecido como Pirulito, e ainda teve um camarada para pichar o monumento com menos de uma semana de reforma.
    è complicado.

    Sandro responde: PAULO, sei que seu “é engraçado” é força de expressão e que você também sabe que, na maioria das vezes, o que se vê por aí, em qualquer lugar do Brasil, dá mesmo é vontade de chorar. Como diria WILSON NATAL, historiador paulistano, que sempre comenta aqui no blog, “os lembrados de hoje são os esquecidos de amanhã”. Seria muito bom que políticos e cidadãos tivessem isso em mente, não? Fotografei o obelisco da 7 há uns 20 anos. Ainda este ano devo passar por BH. Grande abraço.

  3. Wilson Natal disse:

    MEMÓRIA hoje é um artigo descartável. Antes, um busto, uma herma, um conjunto de estátuas serviam como lições de História e de conduta. Estavam em um parque, uma praça, um jardim público a lembrar-nos que, como a figura homenageada, também somos capazes de fazer grandes coisas pela cidade, pelo estado,pelo país. Hoje, parece-me que servem como um antiquado elemento decorativo a ser pichado, arrancado de seu pedestal e vendido ao ferros-velhos por uns poucos trocados. Ou então, servir de poleiros aos pombos.
    E é irritante ouvir os políticos falando de determinada figura histórica, sem saber, ou ligar a mínima se o busto, o monumento da referida figura está intácto, ou se desfaz pela ação das intempéries e falta de cuidados. Não ligam, mas deveriam. Pois quando se deseduca um povo, esta será a memória que o povo terá deles.
    A luta por preservação da memória é árdua. Não basta apenas restauro qualificado, restauração. É preciso um trabalho de esclarecimento e educação de um povo.
    Aqui, em São Paulo a luta não para. Além dos órgãos públicos, existem associações de bairros, de perímetro (imediações de praças e jardins) que se empenham na conservação de um bem restaurado. Existem uma infinidade de sites de denúncias na Internet que, mais que denunciar, são elementos ativos que saem a protestar pelas ruas da cidade. É uma luta infinita, eu sei. Mas é uma luta que tem trazido recompensas. Muito do que estava a se perder por aqui, renasceu em toda a sua glória antiga. E isso tem atraído turistas e visitantes. O que vem a provar que: Uma cidade sem seu passado morre. Com ele ela renasce, se revitaliza.
    Vendo as fotos postadas desses dois bustos. Eu fiquei irritado. Mais que isso, fiquei escandalizado! É imoral deixar que isso aconteça. Dadas as condições da cidade e do ar marinho, deveria haver uma preservação mais atuante. Figuras históricas e importantes desaparecendo a olhos vistos… Isso não deve e nem pode acontecer. Esses bustos há muito tempo deveriam ter sido tirado dos seus pedestais e levados para restauro. Pena. Sinto muita pena que isso estja acontecendo ai e em outros estados. E pena que ai, como aqui, a Prefeitura não lance uma campanha de “Adote um Monumento”.
    Para alguns, parece, que vão-se os anéis e ficam os dedos. Mas ai, parece-me que foram-se anéis e dedos.
    E aos políticos e grandes personalidades omissas de Natal fica a dura realidade de bater de frente com “o zelo, o respeito, a deferência” com que serão tratados, num futuro não muito distante, pelo povo desta cidade.
    Colhe-se o que se planta…
    Educar o povo é abrir-lhe a mente para a consciência Cívica.
    Abração,
    Wilson

  4. Pingback: » Blog Archive » Estátuas que andam

  5. Edgard Ramalho Dantas disse:

    Sou neto de Manoel Dantas.

    O busto aí apresentado acredito ser o que se encontra na Escola Manoel Dantas, esquina da Prudente de Morais com a Alberto Maranhão, aqui em Natal.

    É uma cópia em gesso do busto em bronze, escultura feita por Hostílio Dantas, o mesmo escultor do Padre João Maria.

    Na ocasião em que foi esculpido, Manoel Dantas já de há muito havia falecido, sendo necessário a consulta de fotografias disponíveis então.

    Hostílio Dantas, artista de valor, se ermpenhou em fazer o melhor e, pediu que posasse o tio Elias Dantas (pai de Francisco Seráfico e José Vinício Dantas e, em segundo casamento com Elisa, viva, mãe de Carlos, Pedro e Lenira, artistas e meus primos), para melhor captar os traços fisionomicos da família.

    O resultado foi o busto de Manoel Dantas e um medalhão, em bronze.

    Do busto em bronze tenho conhecimento de duas reproduções:

    A primeira, encontra-se na residencia de meus pais, em perfeito estado de conservação.

    A segunda, muito bem cuidada, no Instituto Histórico e Geográfico.

    O medalhão esta afixado no tumulo de Manoel Dantas, no cemitário do Alecrim.

    Cascudo dedicou uma de suas Actas Diurnas a memória de Manoel Dantas referindo-se ao busto do Instituto Histórico.
    Manoel Dantas foi reproduzido sem bigode, que manteve até os anos vinte, acho.

    Canindé Soares e Sandro Fortunato, historiadores e fotografos, estão fazendo neste instante o trabalho mais importante de recuperação da memória do nosso estado.

    Lauro Pinto em Natal que eu ví é pioneiro nessa denuncia.

    Natal é um dos poucos lugares do mundo em que monumento passeia e estátua anda.

    Me coloco ao inteiro dispor para ampliar e começar uma colaboração efetiva.

    O agradecimento dos familiares de Manoel Dantas, que aqui represento.

    Edgard Ramalho Dantas.

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