A vida dos outros

Dentre minhas leituras, há sempre um tijolão, uma biografia. Está em algum lugar em meu mapa natal: Gosta de ler romances, bem como histórias que falem sobre como as pessoas alcançaram a grandeza, mas lhe é difícil colocar seu conhecimento em prática. Soube disso há alguns muitos anos, bem no meio da leitura de Chatô – O Rei do Brasil. Nada auspicioso, diriam os indianos da novela. Maldito Mercúrio retrógrado, digo eu.

Nem por isso abandonei a leitura das biografias e até passei a escrevê-las. O pior é quando, na leitura, chega um momento em que não quero prosseguir. Bate a sensação de que a vida do biografado cruzou com a minha e, chegando ao final do livro, nosso vínculo será cortado. Foram tantos encontros e desencontros, tantos amores e despedidas. Não acostumo nunca. Pior será colocar o ponto final em alguma que escrevo. E logo terei que passar por isso. Restam como consolo a revisão, a negociação com a editora, a produção do volume, a chegada às livrarias… Haverá uma sobrevida e, quando o romance finalmente parecer ter chegado ao fim, já estarei envolvido em outra história.

Em se tratando de biografias, sou aquele homem fraco que tem esposa e amante para, no caso de terminar com uma, ter sempre outra que o acolha.

Nos últimos dias, fiz uma passagem um tanto grotesca. Terminei O Mago, biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais, e pulei sem escalas para Nietzsche – Biografia de uma Tragédia, de Rüdiger Safranski. Cada uma com seu peso, sua importância, suas peculiaridades.

Fatalmente eu leria O Mago. É escrita pelo mestre e costumo render-lhe graças. Mas dessa o faria sem pressa. Não fosse cair de paraquedas (à época com agudo e hífen) em um encontro literário no qual ele estava, talvez ainda nem tivesse comprado meu exemplar. Se o tivesse feito, ficaria ali na fila da leitura, brasileiramente sempre furada por um mais esperto. Abri-o em dezembro do ano passado, mas ainda não era o tempo. Os mais chegados aos livros já entenderam. O leitor não escolhe o livro. O livro é que escolhe o leitor e só se permite ser lido quando bem entende. Dormi (literalmente) com O Mago durante quatro meses. Ficou na cama todo esse tempo. Chegou abril e ele decidiu que eu poderia finalmente lê-lo.

Li os primeiros cinco livros de Paulo Coelho na época em que foram lançados. Isso significa dizer que comecei com O Diário de um Mago em 1987, quando tinha 15 anos de idade, e parei em As Valkírias, em 1992, aos 20 (na verdade, quatro dele e uma adaptação/tradução). Já naquela época, pensava o mesmo que hoje: é uma leitura fácil, até agradável e, no caso de um viciado em leitura como eu, boa para descansar a cabeça.

Paulo Coelho pode não satisfazer as exigências, os padrões, a arrogância e os delírios intelectualoides dos críticos de plantão, mas, ninguém se engane, ele não é um idiota. Enfrentando os eternos ataques dos donos da língua e da verdade, se tornou o escritor mais vendido, traduzido e lido do mundo. E escritor quer isso: ser lido. Intelectual quer ser reconhecido pelos coleguinhas e ganhar resenha que alimente sua vaidade. Paulo Coelho é escritor. Ponto. Se você é fã dele, pode ainda colocar um enfático “Foda-se” depois do “Ponto”.

E a não ser que por um fenômeno metafísico que escape totalmente à minha compreensão e uma outra alma tenha possuído seu corpo ali em meados dos anos 80, pelo menos para mim ele é o mesmo cara que fazia altas músicas com Raul Seixas. E viva a Sociedade Alternativa!

Já me estendo. E já resolvo isso. A biografia só reforçou o que eu pensava: doa a quem doer, o cara é de uma competência monstruosa. “Só se for para ganhar dinheiro”, dirão alguns a esta altura. “Só se for para transformar merda em ouro”, dirão os mais radicais. E eu digo: Que seja. Você consegue fazer melhor? Igual? Metade?! Como ia dizendo, o cara é de uma competência monstruosa. Fernando Morais, que é outro demônio (no bom sentido, viu, mestre?), mostra com sua costumeira perícia o porquê de o cara ser o que é.

Sim, me empolguei. Menos por Paulo, mais por Fernando, que tem grande parcela nesse meu amor por biografias. Vou culpá-lo por isso até o fim dos meus dias.

Encerro o caso com o mago e pulo para o Anticristo. Este, sim, caso de amor perdido, irremediável, sem medidas, de enlouquecer. Nos últimos oito anos, li tudo de Nietzsche que tenha sido publicado em português. Mais umas duas dezenas de livros sobre sua vida e obra e, provavelmente, o triplo disso em artigos, ensaios, teses e afins. Porém, há pelo menos seis anos Nietzsche – Biografia de uma tragédia me olha da estante sem me conceder a devida permissão para leitura. Já mudou de cidade e estado por três vezes. Finalmente resolveu se abrir.

Não acredito em acaso e, consequentemente, não creio que uma pessoa atravesse a vida de outra sem motivo. Para o bem ou para o mal, há algo a ser dito, alguma lição a ser aprendida. Essa mesma força, esse poder, essa “missão” se estende às biografias.

Rüdiger Safranski não é um repórter brasileiro, como Fernando Morais, cheio de manhas para contar uma história, prender o leitor, fazer com que se apaixone pelo biografado. Também não é um psiquiatra romancista americano como Irvin D. Yalom (autor de Quando Nietzsche chorou). É um filósofo e historiador alemão. E falando em Nietzsche, a coisa só poderia mesmo sair a marteladas.

O biografado é dissecado – friamente – por sua obra e não por sua vida. É uma biografia do pensamento e não dos atos de Nietzsche como ser humano. O título original já deixa claro: Nietzsche, Biographie Seinens Denkes (numa tradução mais literal, algo como Biografia de seus Pensamentos). Em português, ficou Biografia de uma Tragédia, o que também faz total sentido, já que a vida do personagem é um eterno conflito com tudo aquilo que, em tese, deveria estar acima do indivíduo.

A escolha pela “tragédia” também faz alusão a seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo (Die Geburt der Tragödie oder Griechentum und Pessimismus), onde exalta a música de Wagner como força renovadora do espírito alemão. Ë também por aí que Safranski inicia sua dissecação e deixa claro, já nas primeiras páginas, o espírito do pensamento de Nietzsche:

“O animal consciente homem, com horizonte de passado e futuro, raramente se satisfaz de todo com o seu presente, e por isso sente algo que certamente nenhum animal conhece, isto é, o tédio. Fugindo do tédio, essa singular criatura procura uma excitação que, se não for encontrada, tem de ser inventada. O homem se torna um animal que brinca. (…)

 “No tédio vivemos o instante como passagem vazia do tempo. O que acontece externamente não tem importância, e também sentimos a nós mesmo como desimportantes. As realizações da vida perdem sua tensão intencional, desmoronam em si mesmas (…) A arte ajuda a viver porque senão a vida não sabe o que fazer quando assaltada por sentimentos de ausência de sentido”.

Assim, esse início de tragédia me faz entender o porquê de ter demorado tanto tempo na estante. A lição só poderia ser devidamente entendida agora. Antes, seria mera seqüência de palavras. E lá vou eu, de novo, envolvido pela vida de outro, procurar razão para a minha.

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2 respostas a A vida dos outros

  1. Pois, o bicho-homem e o (possível) sentido desta merda toda… Depois de Nietzsche o que: o Neoplatonismo?
    Não é à toa que foram os pensadores alemães que melhor dissecaram os gregos antigos.

  2. tião disse:

    Confere, perfeitamente, essa história de os livros determinarem, por suas próprias e secretas leis, o dia e o momento em que enfim serão lidos. e também aprecio a escrita de paulo coelho, os livros que se disfarçam com aquela leveza mas na verdade vão mais fundo do que supõe o niilismo militantes dos nossos amigos. na superfície, paulo coelho se recusa a ser profundo – e isso ninguém perdoa, o senhor sabe.

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