Pour la France

Nos 80 e 90, a curiosidade de jovem cinéfilo me levava aos clássicos europeus. Fui conhecendo alguns caminhos, dentre os quais alguns que levam ao novo, ao que se está fazendo hoje. Perdi il cammino quando Fellini morreu e só tenho notícias dos italianos por Benigni, o que equivale a dizer que nem sei se ainda se faz cinema na Itália. En el camino, perdi-me com Buñuel (pudera!). On the road, permaneço com as comédias inglesas. Sim, tenho um humor estranho e se há comédias que me atraem são aquelas feitas pelos ingleses. Basta que existam para me fazerem rir. Já le chemin

Fujo dos franceses. Por temor ao apego. Reconheço. Nem os clássicos costumo revisitar. Alain Resnais, Robert Bresson, Jean Renoir… Deixo-os em paz na esperança de que me deem o mesmo tratamento. Mas não tem jeito. Une route maudite insiste em atravessar minha história e lá estou, de novo, entregue a eles.

Vou tentar dividir essa bendita maldição com quem quer que leia isto. Sobretudo aos não iniciados, recomendo oito filmes, todos desta década, para que possam comparar com o que se anda fazendo no resto do mundo.

Foi em 2002, em um Cine Brasília gigantesco e, como de costume, com uma assistência que se podia contar nos dedos das mãos (talvez na de uma) que iniciamos le nouveau rencontre. La pianiste (A professora de piano, 2001), de Michael Haneke, me deixava sem fala, boquiaberto, queixicaído e com muita vergonha pelo cinema-pipoca. O relacionamento doentio entre mãe e filha é mostrado logo na primeira cena. O espectador é apresentado ao ambiente neurótico da personagem principal – a filha pianista, interpretada por Isabelle Huppert que, depois eu saberia, levou pelo menos meia dúzia de prêmios de melhor atriz por esse filme, incluindo Cannes – e vai se aprofundando em sua psicopatia sem ter tempo para entender aonde aquilo vai dar. Aliás, isso é tipico do cinema francês. Não se esforce por profetizar o fim: ele vai ser diferente de tudo que você pensar.

E o fim quase nunca é muito feliz. Talvez por isso mesmo os filmes franceses não sejam assim tão populares por aqui. Naquele mesmo ano, não só pelo final feliz, mas sobretudo por ser um filme perfeito em todos os quesitos, outro francês fazia sucesso por aqui e em vários lugares do mundo. Le fabuleux destin d’Amélie Poulain (O fabuloso destino de Amélie Poulain), de Jean-Pierre Jeunet, é brilhante em todos os sentidos. É tão covardemente perfeito que consegue agradar qualquer pessoa. Concorreu a quase cem prêmios por todo o mundo, em várias categorias, e levou mais da metade deles. Quem assistiu (e duvido que alguém não o tenha feito), responda: dá para não se envolver e não se identificar imediatamente com a personagem-título ainda quando, sem palavras, ela apresenta todo seu universo de criança com ações que todo mundo já teve um dia? E como não ficar íntimo de todos os personagens quando seus gostos são tão escancaradamente apresentados? E aquela música impossível de esquecer? E cada cena que parece pintada à mão? E os olhos de Audrey Tautou olhando diretamente para o espectador e dividindo seus segredos? E tudo isso e muito mais perfeitamente sincronizado?

A terceira indicação fica por conta do filme seguinte de Jean-Pierre Jeunet, Um long dimanche de fiançailles (2004), que aqui recebeu o infeliz título de Eterno Amor. Com parte do elenco de Amélie, incluindo Audrey Tautou, Jeunet repete a fórmula, mas com uma diferença básica. Enquanto Amélie é uma comédia romântica que não deixa passar os dramas, Um long dimanche… é um drama com momentos de comédia. Há também aqui dois outros elementos comuns – e admiráveis – do cinema francês: a forma de contar a história a partir das visões de vários personagens até que a soma delas revele a verdade e o fim que, mesmo feliz, não precisa ser meloso nem festivo, mas redentor e com todo o peso do caminho para que ele seja merecido.

É também de 2004 a quarta indicação, Lila dit ça (Lila diz), que assisti durante o VII Festival Internacional de Cinema de Brasília, em julho de 2005. O que falta de pudor na história da loirinha de 16 anos com o colega muçulmano de 19, sobra em mim para não falar muito a respeito desse filme. Foi a partir dele que comecei a “fugir” dos franceses. O motivo? Porque fico com vontade de ver mais e mais. E não há tanta oferta assim. Filme francês no Brasil é quase exclusividade de mostras em pequenos circuitos. Aproveitemos este ano da França no Brasil, pois elas aparecerão em maior quantidade, inclusive nos famigerados cinemas de shopping. Ou faça como só recentemente aprendi: tenha vários em casa e, quando a crise de abstinência bater, tome uma overdose sem medo e sem culpa.

No circuitão, depois de Amélie Poulain, só teríamos outro francês de peso em 2007: La môme (Piaf – Um hino ao amor). E que filme! De longe, a melhor cinebiografia que já vi. Assisti no Belas Artes, em São Paulo. Saí da sala pensando: se Marion Cotillard não ganhar o Oscar de melhor de atriz, nunca mais assisto um filme americano. Ganhou, mas eu bem poderia fingir que não e cumprir a promessa. A não linearidade da história também impressiona e pode até incomodar alguns, mas o objetivo é mesmo esse: fazer o espectador sentir-se em uma vida sem fronteiras, sem rumo, sem qualquer amarra, sem noção do que seja real ou imaginário. Assim era a vida de Piaf. Confesso minha paixão por esse filme. Entra fácil na lista dos meus mais um monte de coisas. Já falei a respeito dele em outras ocasiões (aqui e aqui) e já desisti de falar algumas dezenas de vezes. Acho que nunca vi o suficiente, que sempre há algo mais, que é tão perfeito que vou precisar da vida inteira para apreciá-lo devidamente. Exagero? Se você pensou isso é porque nunca assistiu.

Ainda sobre Marion Cotillard. Ela tem uma participação importantíssima em Um long dimanche de fiançailles. Prefiro não falar mais. É quase um desafio reconhecê-la.

Do mesmo ano e também indicado ao Oscar (Melhor Animação), temos Persepolis, que passou nos cinemas em 2008. Não se engane com a comicidade da garota iraniana que começa o filme ainda criança. A história é trágica. Tendo com pano de fundo o regime ditatorial do Xá e, depois, a República Islâmica, Marji e sua família mostram as desventuras, temores e dificuldades dos iranianos. É uma animação para adultos.

Entre les murs (Entre os muros da escola, 2008) ainda está sendo exibido em algumas praças. Ganhador da Palma de Ouro (Cannes 2008) e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (2009), chegou por aqui com ares de cult. Pode se dizer que é um filme “essencialmente francês”, pois aborda conflitos relacionados com os jovens estrangeiros (ou filhos de estrangeiros) residentes no país. No entanto, é impossível não perceber que o desgaste da relação professor-aluno, a destruição de valores, a revolta muita vezes sem sentido e a falta de respeito pelas instituições e pela figura do educador (seja professor ou pai) são problemas comuns a todo o mundo ocidental. Sem trilha sonora, com movimentação de câmera que lembra um documentário, Entre les murs utiliza um recurso que lhe dá ainda mais veracidade e já foi empregado em filmes brasileiros: os personagens têm os nomes dos atores que os interpretam. E o professor François é, na verdade, François Bégaudeau, autor do livro no qual o filme é baseado.

Deixei por último o filme Ne le dis à personne. Ele é de 2006 e creio que não tenha passado nos cinemas no Brasil. Vi há alguns dias e foi ele o culpado por este post, já que me fez rever todos os sete filmes anteriores. Acho que passei duas horas sem respirar enquanto o assistia. Ao final, estava congelado, com a forte impressão de que algumas pessoas se reuniram e alguém disse: Vamos mostrar aos americanos como se faz um suspense policial? Rolam até uns clichês hollywoodianos, porém, como em todo bom filme francês, você é surpreendido a cada instante e, até o final, você pensa que sabe o que está acontecendo, mas na verdade não sabe. Concorreu ao César 2007 em nove categorias. Levou quatro, incluindo Melhor Diretor e Melhor Edição. Cheguei a ele quase por acaso e assisti sem saber do que se tratava. A única pista era sua chamada: Há 8 anos, a esposa de Alex foi assassinada. Hoje… ela lhe enviou um e-mail.

E o próximo? Provavelmente será Coco avant Chanel, com Audrey Tautou no papel título, que acaba de estrear na França e deve chegar às telas brasileiras no final de outubro. Cinebiografia francesa com Audrey Tautou não corre o mínimo risco de eu não assistir. A propósito, em breve, um post só sobre cinebiografias. Até.

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9 respostas a Pour la France

  1. Renata Silveira disse:

    Bom, se quiseres saber o que é cinema com intervalo e também quiseres comer uma “francesinha”, venha ao Porto 😉
    Beijo

  2. Sábias palavras Sandro. Também sou um apaixonado pelo cinema europeu. Os roteiristas, diretores, atores europeus deveriam ministrar Workshops nos EUA para ensinar como se faz cinema de verdade.
    O único problema é o acesso a essas produções. Dos oito filmes que você indicou só consegui (a muito custo) ver quatro deles.
    Espero que sua profetia sobre o ano do Brasil na França nos aproxime mais destas obras.

    Abração.

    George

    Sandro responde: Beatle (não resisiti!), pode ficar ligado que isso já está rolando. Há um festival de curtas franceses se revezando em várias praças pelo Cinemark e as Alianças também têm exibido bons filmes franceses. Fique de olho e aproveite.

  3. LuLu disse:

    Sandro,
    Fiquei particularmente inspirada em escrever um post sobre a produçao cinematografica italiana depois da sua frase:”Perdi ‘il cammino’ quando Fellini morreu e só tenho notícias dos italianos por Benigni, o que equivale a dizer que nem sei se ainda se faz cinema na Itália.”… Pra falar a verdade, fiquei bem tentada, quase como se a sua mençao fosse uma provocaçao, afinal moro no Bel Paese e também sou cinéfila, como voce. Meu grande receio é que meu humilde post, somado à minha parca experiencia como critica de cinema, nao venha a fazer juz ao primor que é o seu post. Mas, nem que seja pelo amor à setima arte eu vou tentar. 😉

    Parabéns também pelo texto da blogagem coletiva. Dificil saber qual é o mais interessante dos dois.
    Te espero là no meu Mundo Novo.
    Um abraço..
    Ciao.
    LuLu

    Sandro responde: Pois aproveite a inspiração e escreva já! Aproveitando para deixar bem claro: Fellini é deus! Acima de todos está Fellini e, muito, muito depois, vem o melhor de diretor de todos os tempos, que pode ser qualquer um. Dê uma busca por Fellini aqui no blog e você vai ver que sempre falo a respeito dele. Bengini… há quantos ele não faz um filme? Pelo menos uns quatro, não? O Tigre e a Neve (2005), sobre o qual também escrevi, foi a última produção italiana que assisti. O último de Bertolucci foi em 2003. Posso até ter visto um curta italiano em algum festival, mas não me marcou o suficiente para que lembre dele. E então? Conta pra gente o que está se fazendo na Itália porque não está chegando por aqui. Mas tirando a América, isso acontece com o cinema de qualquer país. (Sub)Existe, mas não há distribuição. É possível que boa parte do mundo ache que o último filme produzido no Brasil tenha sido Cidade de Deus (2002). Ou Blindness (2008), mas é capaz de acharem que já fomos totalmente colonizados e falamos inglês. Escreva! Conte o que está se fazendo na Itália. Fale sobre os novos diretores. Você fará isso muito bem. Estou aguardando.

  4. Henderson disse:

    Só faltou ” O Escafandro e a Borboleta”. Um filminho de 2007 que vale assistir!!!

  5. Henderson disse:

    Também faltou dizer sobre a melhor coisa que o cinema francês já produziu: Isabelle Adjani, nos seus bons tempos de Rainha Margot!!!!

  6. Wilson Natal disse:

    “Tout au Cinéma!”
    Quando se fala em cinema francês vêm à minha mente os filmes que assisti – se vêm, é porque marcaram muito – e os astros que brilharam nas telas dos cinemas e das TVs de S. Paulo.
    E, como “assistidor” de cinema, vou nomeando: A Bela e a Fera; Meu Tio, O Sol Por Testemunha; E Deus Criou a Mulher; Salário do Medo; As Diabólicas – com Signoret e Véra Clouzot – (o original do Diabolic); O Sol Por Testemunha; A Bela da Tarde; O Selvagem, etc. (ainda lembro mais de uma dezena.)
    Das grandes estrelas francesas ainda lembro de Jean Marais, Jean Gabin, Jacques Tati, Michel Serrault, Fernandel, Alain Delon, Jean Claude Briali, Ives Montand; Michelle Morgan, Jeanne Moreau, Brigitte Bardot, Danielle Darieux, a deliciosa Capucine,a excitante e lindíssima Marie Laforêt e a grande dama do cinema francês, Simone Signoret.

    Abração, Wilson.

  7. Buca Dantas disse:

    Rapaz…eu te amo, disso você já sabe…mas amo mais agora depois de ler esse texto….espera só eu terminar de ver alguns desses filmes que vc falou que comento direitin.
    abração, velho lobo

    Sandro responde: Rapaz, eu te conheci mais macho! Mas eu também te amo, porra! O que se pode fazer? Abração, meu caro. Nós nos veremos este ano?

  8. mayhara disse:

    vi persepolis.. vi entre os muros da escola.. piaf..ameliee.. eu tb tenho uma queda pelo cinema francês..
    estou empolgada p ver o filme de cco chanel!!!!!!
    namorei durante meses o trailer.. a audrey é é linda!!!

    fiquei louca p ver Ne le dis à personne
    está na lista
    beijos me liga

  9. Buca Dantas disse:

    aaaaaaaaaaaaaaarararara…cara…acabei de ver a pervertida da Lila..caramba, essa é chave de cadeia! quem me dera ter sido, no final de minha adolescencia, tão abençoado quando o cidadão que ela torrou o juizo…mas Deus não tem sido tão ruim comigo não…rerere.
    rapaz…nós somos dois sem-vergonhas!!!

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