Os primeiros grandes filmes da minha vida

Aproveitando a blogagem coletiva (estou ficando perito nisso) O filme da minha vida, proposto pelo Fio de Ariadne, aqui vai o primeiro de uma série de textos sobre cinema que eu vinha matutando e adiando.

Toda vez que me deparo com listas de melhores filmes, procuro identificar o autor ou autores. Melhor para quem? Melhor na opinião de quem? E me imagino fazendo o impossível: uma lista dessas.

Não imagino quantos filmes vi na vida. Mas posso fizer que entre longas, curtas e episódios de séries, foram mais de 5 mil nos últimos dez anos. Lamento profundamente não ter feito uma lista com todos eles. Essa paixão começou ainda criança, quando minha mãe me levava para ver Os Trapalhões e os filmes da Disney nos cinemas do Méier, no Rio. Opa! Temos um começo. Filmes infantis nos cinemas do Méier, depois os primeiros filmes “adultos” ali e em Copacabana, os filmes em VHS, os cineclubes, os festivais de cinema, os festivais particulares em casa, a era do DVD e, finalmente, a era da facilitação, na qual aquilo que se imaginava difícil de ser visto está a alguns megabytes de distância.

Não tenho um filme da minha vida. Teria imensa dificuldade em fazer uma lista com apenas os cem filmes mais marcantes da minha vida. Talvez seja mais fácil se me reportar a fases. É o que pretendo fazer agora, falando da primeira de que tenho lembranças: a de quando passei a escolher os filmes que iria assistir.

Foi no início da década de 80 (sempre ela), ali entre 9 e 11 anos de idade, que comecei a ir ao cinema “sozinho”. Pelo menos entrava sozinho ou com alguns colegas, mas já não estava indo “com a mamãe”. Ela ou outra mãe ia até a porta, comprava as entradas, mas ficava do lado de fora. Isso era um avanço e tanto. Começava a me sentir gente.

Dessa época, lembro bem de cinco filmes: Flash Gordon (1980), Superman II (1981), Num Lago Dourado (1981), Fúria de Titãs (1981) e E.T. (1982). Os anos entre parênteses são os de produção. Provavelmente assisti a cada um no ano seguinte. Hoje percebo como essas escolhas foram importantes para o desenvolvimento de minhas preferências durante as quase três décadas seguintes. Dentre os cinco, nenhuma comédia, gênero que menos me atrai. É sempre minha última opção. Quatro deles traziam o fantástico, a possibilidade de outros mundos, superação sobre-humana, a busca por algo maior que somente aquilo que podemos ver ou comprovar. E um drama. Certamente haveria outros nessa primeira listagem se eu tivesse idade para assisti-los. Num Lago Dourado (On Golden Pond), um filme quase real, último de Henry Fonda, com câncer, fazendo papel de um pai à beira da morte que tenta se reconciliar com a filha, vivida por sua filha verdadeira, Jane Fonda, foi o primeiro que me fez chorar no cinema.

Flash Gordon denunciava outra paixão: as HQs. Lembro do herói na página de quadrinhos de O Globo. Também colecionei o álbum de figurinhas do filme, mais uma de minhas manias de infância. Duas décadas depois, como um pequeno tributo, Flash Gordon foi o primeiro filme que comprei em DVD.

Superman II. Se contarmos com o primeiro e com Flash Gordon, já são três filmes adaptados de quadrinhos. E há quem pense que isso seja uma novidade!

Fúria de Titãs também previa um gosto que me acompanharia sempre: o misticismo das religiões. Heróis, semideuses, deuses, criaturas fantásticas, mitos. Está para ganhar uma refilmagem. Algo me diz que será uma heresia. E contra vários deuses!

E finalmente E.T. – O Extraterreste. Que filme! E que sorte a minha em assisti-lo no cinema aos 10 anos de idade, de me identificar com as crianças do filme, de me sentir voando numa bicicleta. E.T. certamente está em várias listas que eu faria: entre os melhores de todos os tempos, entre os mais importantes da história do cinema, o mais fantásticos, os melhores de ficção, os melhores com seres de outros planetas, os mais mais, os mais tudo, os mais qualquer coisa,… Ele tem uma grande parcela de culpa pelos outros milhares de filmes que eu veria daí por diante. E por minha exigência de que um filme não deve ser apenas mero entretenimento. Um filme deve ser uma experiência única. Deve marcar sua vida de alguma forma e não fazer com que você perca uma ou duas horas dela.

Ainda hoje, quando estou zapeando a tevê e esbarro com E.T., paro e vejo até o final. Sempre como se fosse a primeira vez. Como se mais ninguém o tivesse visto. Como se fosse um segredo de infância muito bem guardado. Acho mesmo que ele não deveria ser exibido indiscriminadamente na tevê. Suas cópias deveriam ser guardadas como um tesouro e mostradas às crianças uma única vez, na idade e na hora certa. Se fossem tocadas, se o Amor incondicional e desinteressado fizesse seus olhos brilharem, estaríamos seguros de que seria um bom adulto, até porque só cresceria em tamanho. A partir daquele momento, o coração de criança jamais morreria. Nunca iria ver um filme para dizer “que mentira!” ou “isso não existe”.

A criança tocada por E.T. saberia que tudo que se imagina é possível. Que cinema não é lugar de se fazer baderna. É um templo onde nos encontramos com todos os deuses, com criaturas de qualquer planeta, com nossos heróis. Um lugar mágico que se transforma toda vez que a luz apaga, que nos ensina a enfrentar monstros, vilões, todos os nossos medos. Aprenderia que ver um filme é como fazer uma oração: você se sente melhor, mais puro e mais humano ao terminar.

Nunca poderei dizer que tenho um filme da minha vida, mas acho que sei qual foi o primeiro grande filme da minha vida.

E os seus? Quais são?

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8 respostas a Os primeiros grandes filmes da minha vida

  1. Ivay Pacini disse:

    realmente é dificil escolher um só!! são tantos em nossa vida, não é mesmo???
    mas adorei sua postagem, parabéns!!

    bjocas

    PS: tbm estou participando, dá uma olhadinha lá.

  2. Mirian Mondon disse:

    Bela postagem e todos nos compreedemos seu dilema, como escolher um filme?
    Voce citou Lago Dourado e me fez recordar de um belissimo filme, que injustamente não citei na minha lista!

    Parabens gostei muito da sua postagem!

  3. Vanessa disse:

    Sandro, a gente deve ter mais ou menos a mesma idade porque acabo de fazer uma viagem lendo seu post. Flash Gordon: lembro até do dia em que fui ao cinema com meu primo para assistir. Num lago dourado: foi a primeira fita de vhs que eu assisti na vida , ainda sem legendas – o que eu não entendia, meu tio traduzia. Minha irmã caçula chorou tanto em E.T. que teve que sair da sala para se acalmar.
    O problema é que essas memórias são todas de um belo cinema em Petrópolis onde hoje funciona uma dessas igrejas evangélicas.

    Abraço e obrigada pela participação

  4. Daiane disse:

    olá, também estou participando da blogagem, é vim conferir o filme e conhecer seu cantinho!
    é realmente difícil escolher entre vários apenas um… passei pelo mesmo probleminha!

    um grande abraço! aguardarei sua visita, fica com Deus!!

  5. Glayce Santos disse:

    Olá. Vim aqui atraves da blogagem coletiva.
    ADOREI.
    Cinema é um templo!
    Concordo, filme da vida é pequeno demais…rs
    parabens pelo texto… me fez viajar na decada de 70/80…

    beijos

  6. Karen disse:

    Assino embaixo da sua escolha. Estou apaixonada com a seleção do pessoal. Vontade de assistir a todos novamente ou pela primeira vez.
    Se quiser dar uma espiada na minha seleção, está no ‘Façamos um Brinde’.
    Beijo e um otimo fds.

  7. Nanda Botelho disse:

    Acho que ninguém tem um filme só!

    Gostei das suas escolhas, não assisti Flash Gordon, mas adoro a trilha sonora!

    Et eu assisti muitas vezes!

    Fúria de Titãs! Toda vez que passava na sessão da tarde tava eu lá! Não sabia que iam refilmar…

    Gostei de tudo!
    Parabéns!

    Também estou participando, abraço!

  8. tião disse:

    É bem isso mesmo: mesmo um filme menor, sem grandes ambições estéticas, consegue provocar na gente que o assiste essa espécie de estado de suspensão especial. Se estivermos nos referindo aos filmes fundamentais da infância, aí então já não se trata de suspensão, mas de um tipo de transe maior que projeta o futuro homem ou mulher por meio da maneira como ele ou ela se relaciona com aquelas imagens naquela sala escura. Belas memórias, sublime levantamento.

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