Lembranças do País das Fábulas

Sou daquela geração de extrema sorte que foi criança nos anos 1970. E, sortudo entre os sortudos, fui daqueles que aprenderam a ler com a coleção do Sítio do Picapau Amarelo ilustrada por Manoel Victor Filho. Já alfabetizado, lembro também dos primeiros anos da primorosa e incomparável versão televisiva para a série criada por Monteiro Lobato.

É bem provável que hoje, dia do seu aniversário e, por conta disso, Dia Nacional do Livro Infantil (desde 2002), os trintões que participarem da Blogagem Coletiva Quem foi seu Monteiro Lobato?, sugerida pela Jorge Zahar Editor ao Fio de Ariadne, respondam da mesma maneira: Meu Monteiro Lobato foi Monteiro Lobato.

Mas ele não apenas me ensinou a ler. Ensinou também que é fácil aprender e que estudar é uma deliciosa brincadeira. Li todos os livros da turma do Sítio pelo menos duas vezes quando ainda criança. Mas, dentre eles, há alguns que li muitas outras vezes como História do Mundo para Crianças, Geografia de Dona Benta e Emília no País da Gramática. Estes, que trazem conteúdo tradicionalmente apresentados nas escolas, me pareciam ainda mais interessantes que as fantasias vividas pelos personagens do Sítio. Na verdade, eles transportavam aqueles personagens fantásticos para o mundo real, o meu mundo. Isso fez com que eu aprendesse que voar para um lugar maravilhoso é tão fácil quanto somar dois e dois. Lobato me ensinou que tudo é possível. Basta imaginar e nosso mundo perfeito está pronto.

Já adulto, mas com o eterno espírito de criança de quem cresceu com o Sítio, ainda não obtive êxito em repassar aos meus filhos as lições do mestre. Talvez eu não seja um bom professor. Talvez as tentações dos novos tempos sejam uma concorrência desleal. Talvez eu ainda não tenha crescido o suficiente para ensinar alguma coisa. Mas ainda há tempo. A viagem pode começar a qualquer momento.

Em 2003, já passado um quarto de século de meu primeiro contato com Lobato, tive um encontro surpresa com ele. Tive o prazer de ler cartas que ele escreveu a Câmara Cascudo. As originais. Li todas as escritas à máquina. As manuscritas são verdadeiros hieróglifos. Não é fácil entender tudo. Nelas, descobri um Monteiro Lobato diferente, pai, que sempre fazia menção aos seus filhos e aos do amigo. Em uma delas, de outubro de 1931, dizia:

Sciente que casaste e entraste no rol dos proliferadores da especie com um gentil cascudinho. Eu de ha muito parei em quatro.

Em outra, de 1944:

Bem, sei que tens uma Any, e quero que Any receba um dos ultimos livros meus, que vai.

Uma primeira edição de Lobato presenteada pelo próprio! Que inveja, hein? Mas eu também tive meu momento mágico. Contarei mais adiante.

Acredito que a vida nos apresenta alguns sinais. Em 2005, quando já começava a perder as esperanças de muitas coisas, dentre as quais a de que minhas filhas também passassem parte de sua infância no Sítio do Picapau Amarelo (Ah! eu estive MESMO no Sítio da tevê), acompanhadas de Emília, Visconde, Pedrinho e Narizinho, duas coisas me aconteceram: ganhei o iBest de Melhor Site de Arte & Cultura (com o Memória Viva, que tem desde seu início uma homenagem a Lobato) e, menos de uma semana depois, vi meu único filho homem nascer (renovaram-se as esperanças!). Três anos depois, ele já dormia cantarolando as músicas do Sítio. Boneca de pano é gente/ Sabugo de milho é gente/ O sol nascente é tão belo…

Além do grande mestre Monteiro Lobato, tive outros professores: os Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen e um outro brasileiro. Alguém arrisca um palpite de quem seria? Acertaram os trintões que responderam Daniel Azulay. Pita, Damiana, Piparote, Ritinha, Xicória, Professor Pirajá e toda a Turma do Lambe-Lambe também me fizeram companhia nos dias de menino. E sabe o que foi mais legal? É que em 2003, por conta da versão digital que criei para O Cruzeiro, recebi um e-mail de Daniel Azulay dizendo que a revista fez parte de sua infância e que, muitos anos depois, ele trabalharia nela. A história, contada por ele, está no site (clique em Mais edições e veja a Edição Especial Comemorativa aos 75 anos). Mas ainda não foi este o momento mágico que falei. Ele vem agora. Um mês depois de publicar seu depoimento, eu estava em uma banca de revistas, em Ipanema, no Rio, e quem entra? Ele! Com a mesmíssima cara , o mesmo jeito e só faltando os suspensórios. Pude agradecê-lo, pessoalmente, por ter me dado uma infância mais divertida e cheia de fantasia.

A Daniel Azulay e a todos os Lobatos que nos ensinaram a ler e enriqueceram nossas vidas, meus agradecimentos e meus parabéns. Hoje e sempre.

E algodão doce para vocês, leitores.

* * * * *

Leia também:
M. Lobato
No Sítio é sempre assim: vão-se os anéis…

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14 respostas a Lembranças do País das Fábulas

  1. Sandroviski!

    rs
    Compartilho da mesma opinião.
    Bom, afinal sou da sua geração!
    No meu caso a versão televisiva do sítio é que me puxou para os livros, para o mundo da fantasia. Ou talvez, isso tenha alimentado a sementinha que existia em mim. Enfim o que importa é que fomos realmente privilegiados.
    Para transportar meus filhotes para o mundo de Lobato apelei para a versão mais recente do sítio, e não é que eles gostaram? mas depois apresentei as antigas, tirando algumas criticas quanto à imagem, eles amaram também!
    Bom, virei mãe da Emilia e do Pedrinho rsrs
    Lamento que as gerações mais recentes não tenham o contato que tivemos com Lobato…
    Lobato, Andersen e James Barry foram os autores os quais mais me identifiquei, que mais me fizeram sonhar.
    Quanto ao Daniel Azulay, nossa até hoje sinto saudade dos seus programas, ele desenhando ela o máximo, estávamos sempre com papel nas mãos prontos para acompanhá-lo. Por que não se fazem mais programas assim?
    Abração!

  2. Olá Sandro,

    li muito pouco de Lobato, mas o que li me fascinou. Me lembro bem de A Chave do Tamanho, com o qual passei tardes e mais tardes me deliciando, foi um tempo bom.

    Excelente post, abraços.

  3. Octavio disse:

    Daniel Azulay,
    que cara incrivel!
    Abracos,

  4. Marcos disse:

    É muito bom ter contato direto com ídolos de verdade. Sou um pouquinho mais velho e só conheci Lobato na adolescência. Azulay era divertidíssimo e, assim como Lobato, ainda não conta com a devida importância que merecem pelo trabalho magnifíco que fizeram. ajudaram a criar adultos mais saudáveis e Lobato ainda escreveu para esses adultos também, além de ter dado o exemplo de brasileiro preocupado com os rumos do Brasil.

  5. Gostei da alegria do texto. Sua geração teve o sítio na Tv. Bacana! Mas, acredite, eu li toda a obra dele , sem telinha, e depois qdo meus filhos eram pequenos – da sua geração – eu via com eles o sítio e, apesar da qualidade da edição e dos atores, eu pensava que a produção do Spitio não chegava perto doque eu tinha podido imaginar ao , simplesmente, ler.
    Não se preocupe com sua filha. Meu casal de filhos só agora expressa desejo por saber. minha filha, então, a mais alheia aos livros- bailarina desde muito pequena- hoje faz mestrado em artes do corpo e se tornou uma grande elitora de textos que eu até nem gosto – Delleuzes da vida rsrs.
    Bem, ficando por aqui, como não dar os parabéns pelo prêmio?
    Não conhecia seu site premiado. Virei conferir. Sorte com filhos, livros e a vida.

  6. Wilson Natal disse:

    Oras! Lobato é Lobato! Aquele que escrevia com a força de uma mijada feliz…
    Meu sítio televisivo foi em branco e preto. E eu o coloria com a imaginação. Meu sítio foi para as telas de cinema, com “O Sací” – o velho Cine Marabá, de sessão em sessão, ficava cheio “até a tampa”.
    Já “grandinho”, com a desculpa de ver o quanto andava o lado pedagógico da programação infantil, deliciei-me com a programação infantil! Era o Bamba-la-ão, da Cultura, o Lambe-Lambe do Azulay e tantos outros que me ensinaram que inventar, criar, sonhar é tão importante como viver. Sem isso a vida pode ser um tédio, vazia de cabo a rabo.
    E o Lobato? Lobato é sempre Lobato. É sonho, não morre nunca! E é por culpa dele que eu ainda sonho…
    Abração.

  7. Ana disse:

    Tenho a edição completa da obra infantil do Lobato publicada em 1959, ano em que eu nasci. Meu pai comprou pra mim e foi ali que, a partir dos 5 anos, mergulhei para ler tudo. Cheguei aos 7 com todos os livros lidos e um gosto de quero mais que nunca foi satisfeito!!!

  8. Cris Marino disse:

    Olá!

    Quanta honra conhecê-lo através dessa blogagem tão linda como está sendo, não poderia haver melhor forma de comemorar esse dia!

    Parabéns pela sua história, sua forma de escrever tão criativa e cativante!

    Beijos

  9. Mari Amorim disse:

    Simplesmente,parabéns!!!
    Gostei muito,tb estou participando dessa fantastica
    iniciativa.
    Beijos
    Mari

  10. Ana Paula disse:

    O mais encantador é isso de aprender sem se dar conta, e levar isso – Monteiro e o aprendizado – pelo resto da vida!

  11. luma disse:

    Aff! Fiz tudo errado nesta postagem. Pensei que era pra falar do seu Lobato, isto é, o Sr. Lobato. Agora, foi! Sua convivência foi bem viva, ler as cartas originais não é pra qualquer um! Parabéns pelo prêmio, muito chique!! Beijus

  12. Vanessa disse:

    Caramba, que barato de texto. Esta coletiva está maravilhosa.Daniel Azulay marcou minha infância tb. Outro dia o vi esperando um taxo ao meu lado e quase – ah, quase- pedi um autógrafo. Mas eu sou muito tímida 🙂 . Muito obrigada por participar tão ativamente da coletiva, pelo help com as ferramentas e tudo o mais.

    Abraço

  13. Vanessa disse:

    Oi, já está no Fio a lista com os textos selecionados para a votação que premiará três blogueiros com um livro da Zahar. Conto com você para ajudar nesta tarefa. O link é http://tinyurl.com/dnlozq

    Abraço

  14. O Daniel Azulay mostrou 2 desenhos meus na TV!!! Ele é o verdadeiro responsável por eu não ser um engenheiro informático rico!

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