Dona Militana

A visita foi no dia do meu aniversário, mas quem estava de parabéns era Dona Militana. Acabara de driblar, mais uma vez, a morte. Deu um susto na família. Passou dias internada, baixou UTI, mas já voltou para casa. Mandou a desdita passear e disse que “se Deus quiser alcanço a idade do meu pai: 89 anos”. Está com 84 e eu aposto que ainda vai muito mais longe. Principalmente se deixar de lado o fumo. “Deram fim no meu cachimbo. Mas eu compro outro. Disseram que eu quebrei, joguei no mato, mas não fiz nada disso”. Besta é quem tenta enganar Dona Militana.

Se depender de sua memória, não há mesmo quem a engane. Lembra de tudo. Fala, espicha o olho, dá conta do que se passa ao redor, dá bronca em um neto, encara Canindé e diz que saia para lá, negócio é esse de ficar apontando máquina para ela… É tudo charme. Faz parte do seu show. Ou talvez seja cansaço. Uma descrença ensinada por quem vai atrás da romanceira para apresentá-la como sua descoberta e exibi-la em palcos Brasil afora, mas esquece de fazer uma visita quando ela está doente.

Começa a lembrar das viagens. Fala da que fez ao Rio de Janeiro e da visita ao Cristo Redentor, que ela chama de “o Divino espírito Santo com os braços abertos assim”. E conta de “uma dona medonha mangando de mim” durante a visita. Ela responde, a dona revida, Militana diz que é “nêga, mas não é sujeita à cozinha de ninguém”, chega a polícia, leva a dona medonha, deixa a outra, Militana, braba que só o diabo, rindo da batalha vencida aos pés do Redentor.

Nunca levou desaforo pra casa. Não teve jeito do pai lhe acalmar o juízo. Quando era mandada à venda, recebia a ordem: “Cuspa no chão. Se quando chegar em casa o cuspe estiver seco, é uma pisa que leva”. A promessa da surra era para ver se a menina voltava logo e sem arranjar encrenca na rua. Não dava muito certo. O temperamento difícil não deixava. Ela conta de uma menina que “veio me chamar de nêga do cabelo de currupinho. Currupinho tem embaixo da saia da mãe dela!”. E dá-lhe briga. Chegando em casa, cuspe seco, subia em um cajueiro para fugir da surra do pai. Vez ou outra um padrinho aparecia em sua defesa e ela escapava. Hoje, mãe, avó e bisavó, reflete: “A pessoa quando é moça não pensa”.

E a quantas anda a descendência de Dona Militana? A matemática é difícil. Cada um que pergunta pode ouvir uma resposta. A única conta que bate é a dos 7 filhos que vingaram. A partir da geração seguinte a coisa complica. Disseram que são 65 netos e 50 bisnetos. A pequena Ellen, de apenas 4 dias, há apenas um morando em casa, nos foi apresentada como a bisneta de número 50. Subindo ou descendo o outeiro em São Gonçalo do Amarante, pode perguntar a quem encontrar se é parente da romanceira que a resposta vai ser sempre a mesma: “Sou”. Só uma pessoa respondeu que não. Era casada com um filho dela. Então também é, ora!

Sim, Sandro, mas você encerou, encerou e nem apresentou devidamente a personagem. Afinal, quem é Dona Militana? É figurinha carimbada, especialíssima, importantíssima e outros íssimas. Dê uma googlada e descubra por si mesmo. Ou siga alguma das ligações ao final deste texto. Para mim, Dona Militana é uma enciclopédia viva, dona de uma memória assustadora e que, quando abre a boca, não deve ser interrompida. “Quando tem homem falando, menino fica calado”, diria ela. Eu, menino, só perguntei uma coisa: Como a senhora está se sentindo? “De vez em quando dá uma pontada aqui dentro”, respondeu, colocando a mão sobre o peito. Isso passa, isso passa. Mas é melhor deixar o cachimbo de lado. “Que culpa eu tenho se eu acendo e ele pega fogo?”, diz ela, em tom de pilhéria, tentando esconder aquele sorriso de quem sabe tudo. Ainda vai contar e fazer muita história, essa menina danada.

Ligações externas sugeridas:
Dona Militana no Dicionário Cravo Albin
O canto triste da romanceira, por Michelle Ferret

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2 respostas a Dona Militana

  1. Wilson Natal disse:

    É mania do povo brasileiro, essa de homenagear os mortos. Mas honrar os vivos, isso nunca lhe passou pela cabeça. É o que acontece com D. Militana. Vivinha está ai, contando com os parentes e uns poucos amigos. Quando morrer, uma multidão vai se arvorar em amigos íntimos…
    E o tempo vai passando e D. Militana voltará ao pó e sua memória ficará em artigos, textos, livros e na memória do Tempo. Enquanto uma multidão voltará ao pó e, ao pó voltará sua vida vivida e sua presença sobre a terra. Essa mesma multidão que renega em vida uma musa imortal. D. Militana viveu, vive e viverá para sempre.
    Abração.

  2. Carol Kyze disse:

    Belo texto, Sandro.
    Bjs,té.

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