Senhor Morto e Malhação de Judas

Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, a véspera do sábado,
José de Arimatéia (…) foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe
o corpo de Jesus. Pilatos admirou-se de Ele já estar morto e,
mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se já tinha morrido.
Informado pelo centurião, ordenou que o corpo fosse entregue a José.
Este, depois de comprar um lençol, desceu o corpo da cruz e envolveu-o nele.

Marcos 15: 42-46

Durante as andanças de uma Sexta Santa insólita, logo após sermos tocados do Cemitério do Alecrim por um funcionário louco para fechá-lo e voltar logo para casa, eu e Canindé Soares nos deparamos com a chegada da procissão do Senhor Morto à Igreja de São Pedro. Não sei exatamente como esse evento acontece atualmente em Natal, mas houve um tempo em que de uma igreja saía uma imagem de Nossa Senhora e de outra a do Senhor Morto. Em determinado ponto havia o encontro das procissões. Então, seguiam para a missa em uma das igrejas. Parece-me que hoje cada paróquia (ou pelo menos as maiores) faz sua procissão.

Diferente dos cemitérios vazios, o cortejo com o qual nos deparamos era de bom tamanho. Ainda assim, é notório o esvaziamento em relação a anos anteriores. Os costumes vêm sendo deixados de lado e feriado santo não é mais que um motivo para correr para a praia. Há também a concorrência das chamadas igrejas neopentecostais, que provocaram uma grande debandada de católicos nas últimas décadas.

Os tempos mudam, os pensamentos mudam, os costumes também. Quando existe fé sincera e os costumes religiosos são verdadeiramente valorizados por uma família e passados a seus membros mais novos, a tendência é de que estes mantenham a tradição. Por outro lado, surgem novos questionamentos, novas necessidades, e as instituições religiosas têm que se adaptar caso queiram sobreviver. Isto é, para manter a religiosidade das pessoas atreladas a uma determinada instituição, estas têm que dar as respostas que as pessoas procuram.

Vendo a procissão do Senhor Morto é fácil perceber que, mesmo sendo o maior país católico e tendo em nossas raízes esse ensinamento, certas peculiaridades do Catolicismo não “combinam”, por assim dizer, com o temperamento do brasileiro. E essa diferença só vem aumentando. Os aspectos soturnos do Cristianismo que envolvem dor, sofrimento, punição e perdão passam longe das características comuns ao brasileiro mediano. O povo aqui gosta de festa, gritaria, pensar pouco e conseguir resultados rápidos. Percebendo isso, surgiram as neopicaretais com o discurso de “Jesus já pagou pelos pecados de todos; você não precisa sofrer, você só tem que colher o que Ele plantou”. É a instituição da vagabundagem espiritual. Viva! Era tudo que o povo queria.

Eu acredito na boa fé das pessoas. Mas acredito ainda mais na ignorância delas. Quem já viu esses programas televisivos em que fiéis dão depoimentos dentro de carros? “O carro que Jesus me deu”. Esse Jesus do qual eles falam deve ser algum milionário que vive distribuindo automóveis por aí. Talvez para lavar dinheiro. Certamente não é aquele que veneravam na procissão da sexta-feira. Fico chocado com os depoimentos do tipo “Deus me deu um carro zero, depois outro, depois um importado que eu queria muito”. Como costuma lembrar meu amigo Edmar Gurjão, que deus escroto esse que fica distribuindo carros zeros para uns enquanto um monte de gente morre de fome. Se partimos para a interpretação de que Deus está em todas as coisas, inclusive em cada um de nós, fica fácil entender porque alguns se preocupam em acumular e o outros em doar.

Há outro costume da Semana Santa que também sempre me chamou muito a atenção: a malhação do Judas. Se Jesus ensinou a perdoar como é que seus seguidores podem enforcar, bater, chutar, despedaçar e queimar, séculos após séculos, uma mesma criatura? Pior: atribuir a ela nomes de figuras atuais: políticos, técnicos de futebol, ladrões, assassinos. Malhem, meus caros, façam o que quiserem, “há de ser tudo da lei”. Mas não digam que são católicos, nem religiosos, nem nada além de selvagens.

Uma característica, que eu desconhecia, da execução desse costume terrível em Natal me foi mostrada ontem. Aqui, os judas são malhados à meia-noite, de sexta para sábado e não ao meio-dia do Sábado de Aleluia como no Rio, São Paulo e outros lugares. Calibrados pela santa aguardente, muitos populares nem esperam a meia-noite e lincham os pobres bonecos bem antes. Mas há outra característica que é mantida aqui: a colocação dos bonecos próximos a igrejas e cemitérios. Em uma das laterais do Cemitério de Igapó, havia ontem um judas com cabeça de urso de pelúcia (pelo menos era um judas fofo). Próximo a ele, um grupo fazia o aquecimento para a festa com churrasquinho, birita e algum som (desses que insistem em chamar de música) nas alturas. Quando a bebida queria sair, nada mais normal que pular o muro do cemitério para se aliviar. Tudo seguindo os mais rígidos costumes cristãos.

Amanhã, tudo acaba em chocolate. Na segunda, volta-se a sonhar com o próximo feriadão. Tanto faz se é religioso ou não. O importante é festejar. Quem quiser que pague a conta.

Logo abaixo em  COMMENTS
Esta entrada foi publicada em Atualidade, Comportamento. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

3 respostas a Senhor Morto e Malhação de Judas

  1. Wilson Natal disse:

    Volto a perguntar: É tu sentado naquela cadeira?

  2. Caro Sandro, parabéns pela excelente matéria e pela ótima página. Já guardei nos meus favoritos e sempre vou estar por aqui e dar uma olhada. Um grande abraço.

  3. Meire disse:

    Sandro, concordo plenamente. A Malhação do Judas nada mais é do que uma reprodução do que foi a inquisição: matar e queimar ‘o pecador’, o herege. No imaginário popular o Judas representa o povo judeu, aquele que teria sentenciado Jesus e portanto merecedor da humilhação e da morte pelo fogo.É um festejo muito, mas muito cruel e que não entendo como ainda é fomentado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *