Passeios por cemitérios V – Outras curiosidades

O dia nem era para isso, mas eu e Canindé Soares acabamos visitando alguns cemitérios de Natal nesta Sexta Santa. Sabíamos que não encontraríamos bustos ou efígies para dar continuidade a nosso trabalho, mas fomos assim mesmo. O passeio rendeu algumas observações.

Vou a cemitérios, com se percebe pela presente série, por curiosidade artística e histórica. Essa curiosidade não seria alimentada pelos que passamos hoje. Eram cemitérios populares, todos muito simples. Não pude deixar de fazer, de imediato, uma triste constatação: os mortos andam cada vez mais esquecidos. No primeiro em que paramos, um pequeno cemitério em São Gonçalo do Amarante, município que faz parte da Grande Natal, nem pudemos entrar. Estava fechado. No segundo, o Cemitério do Bom Pastor I, havia apenas um administrador e zeladores particulares. No terceiro, o de Nova Descoberta, um casal visitando um túmulo. No último, o do Alecrim, chegamos a tempo de flagrar algumas pessoas saindo, já no fim da tarde.

Em outros tempos, era comum ver muita gente visitando cemitérios nos feriados religiosos. Parece que o culto aos mortos, pelo menos entre católicos, anda bem esquecido. Teve um feriado? Praia. Mesmo em um dia chuvoso como o de hoje.

Fiquei impressionado com o Cemitério do Bom Pastor I. Para quem não é morador da cidade, explico: quando o Cemitério Bom Pastor lotou, foi construído outro ao lado, com a mesma denominação e o algarismo “II” para diferenciar. Daí o Bom Pastor II, a missão, e o I, acompanhando essa mania estranha que temos de fazer virar I quando surge um segundo seja o que for (vide D. Pedro I e II). Os dois cemitérios não são contíguos. Há uma rua entre eles. O II estava fechado. Horário de almoço (sim, na cidade onde já foi piada se dizer que até os restaurantes fechavam para almoço, alguns mantém esse hábito sagrado). No II, as peculiaridades já começam a ser observadas logo na entrada. Algumas ruas foram tomadas por covas. Isso é um problema que acontece em muitos lugares. Em Natal, o último cemitério público foi construído há quase 40 anos e todos estão lotados há décadas.

Outro ponto que me chamou atenção: vários túmulos cercados por grades. É uma tentativa, inocente e praticamente sem efeito, de evitar a depredação dos jazigos. Como lembrou um funcionário que estava por lá, “no Bom Pastor os mortos têm que ficar presos”. E como eu já disse nessa série, os cemitérios repetem os padrões da sociedade onde são construídos. O bairro do Bom Pastor é um dos mais violentos de Natal. Quando perguntei sobre a segurança e se havia algum busto ou medalhão nos túmulos, o funcionário riu. “É botar e roubar”. Não há crucifixos, argolas, nada de valor. O cemitério é sombrio e frequentado por marginais. Geralmente viciados que fumam maconha e roubam visitantes ou ladrões que praticam assalto nas proximidades e correm para lá. Segurança? Durante o dia, nenhuma; à noite, só se você for amigo dos marginais.

Os túmulos mais visitados são os do cantor Carlos Alexandre (“Feiticeeeeeeira/ Feiticeira é essa mulher/ que por ela gamei” e “Você é a ciganinha/ Dona do meu coração”) e o do bandido Baracho (foto). Este, morto pela polícia em 1962, segundo contam, morreu pedindo água. Morte bruta seguida, como muitas outras, de pena e devoção. Seus devotos costumam agradecer as graças alcançadas levando galões de água para matar sua sede.

Um último detalhe, que já havia percebido no simplíssimo cemitério em São Gonçalo do Amarante, é da ornamentação com flores coloridas. Coroas de flores de plástico. Flores de verdade são caras e duram pouco. As de plástico, todos sabem, não morrem.

O Cemitério de Nova Descoberta também me impressionou. Nunca havia visto nada parecido. Inaugurado em 2 de novembro de 1970 e tendo seu primeiro sepultamento dois dias depois, foi o último cemitério público construído em Natal. Sua pecularidade é o padrão dos túmulos. Todos medem 1,10m por 2,30m e são baixos. A maior parte deles é feito de mármore, tem um crucifixo do mesmo material, um Cristo crucificado (em metal) e quatro argolas. Há poucas variações em torno disso. Ainda anteriores aos cemitérios-parques no Brasil, talvez tenha sido uma tentativa de igualar a todos com a morte. Mas sempre há uma placa, uma foto a mais, um detalhe de orgulho maçônico, mais vasos, mais flores, mais alguma coisa para fazer continuar no pós-morte a diferença exaltada em vida. Pelo menos para os bestas que ficam.

Já quase no fim da tarde, voltamos a campo e estivemos no Cemitério do Alecrim. Mesmo não tendo a grandiosidade dos cemitérios das grandes cidades, sempre que vou a ele, percebo que ainda não vi nada. Obras são reveladas, surgem túmulos centenários, detalhes que haviam escapado. Nele encontramos visitantes e até recentes homenagens como uma carta a um pai falecido há três anos. Um sinal de que os sentimentos ainda existem e de que nem todos os mortos foram esquecidos.

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3 respostas a Passeios por cemitérios V – Outras curiosidades

  1. Sandro,

    Como disse outra admiradora do seu trabalho em um comentário anterior, seus textos estão cada vez melhores.
    Lendo seus posts também passei a olhar os cemitérios com “outros olhos”. Já visualizava as histórias por traz dos jazigos,mas não tinha reparado tanto na arte, e em outros tantos pontos.
    Obrigada por compartilhar conosco! também acho que isso valia um curta, um documentário.
    Um abração!

  2. Valeu viu Sandro, ganhamos o dia ontem somente nas visitas aos cemitérios e ainda tivemos de quebra uma prosa com Dona Militana,ainda mais em saber que ela esta firme e forte. Muito bom a gente ter oportunidade de ver as coisas pelo lado bom ou digamos pelo lado que podemos usufruir. E melhor ainda compartilhar isso com as pessoas. Esse teu texto esta perfeito, quem ler vai vivenciar o que estamos tendo o prazer de fazer.

  3. Henderson disse:

    E aí, não vai circular pelo Morada da Paz não??
    E o cemitério de Igapó e o de Ponta Negra??

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