Passeios por cemitérios IV – Curiosidades

Chegamos finalmente às histórias de cemitérios. Nada macabro, prometo. Falarei apenas de minhas observações.

Todo cemitério tem suas histórias, seus anjos, seus santos. No Cemitério São Pedro, em Londrina (PR), fui em busca do túmulo da Bela Adormecida (a história está contada aqui) e descobri muitas outras. Conheci o túmulo de um homem sem nome, responsável pela inauguração do cemitério. Seu corpo foi encontrado por uma freira. Uma placa, já quase apagada pelo tempo, lembra o caso. Morto estendido no chão com os braços abertos em forma de cruz. Jaz neste humilde túmulo o Nº 1 deste cemitério. E pede: Os que passarem por aqui rezem por sua alma. Além do túmulo de Lecy Suzana Garcia, a Bela, falecida aos 22 anos, encontrei outros que viraram pequenos santuários. Todos de jovens que, em geral, sofreram alguma morte brutal. Há o de Neila Ribeiro, morta aos 11 anos (completaria 50 anos no próximo domingo); o de José Oswaldo Schietti, morto em 1950, aos 8 anos, sempre repleto de belas flores e placas de agradecimento; e o de Lícia, uma jovem descendente de japoneses, seviciada “por um bando de lobos e chacais”. Logo abaixo, detalhe dos túmulos de Lecy e de Lícia. Se tiver coragem, repare bem neste último.

Viu um rosto entre as flores? Tudo bem, é apenas o reflexo, no vidro, de um senhor que trabalha no cemitério e me contou as histórias das crianças.

Assustadora é a foto ao lado. Ela mostra um mausoléu no Cemitério da Consolação (SP). A figura no frontispício tem cerca de dois metros de altura e está bem acima da entrada, olhando para quem se aproxima (colocarei maior e com detalhes no Flickr Arte Tumular). Uma obra indiscutivelmente bem executada, mas também tenebrosa.

O Cemitério da Consolação é campeão absoluto em figuras representando a dor da perda. Saudade, Melancolia, Tristeza, Nostalgia. Elas ganham variados nomes. Isso está muito relacionado com a ideia de morte, carregada de sofrimento, que nos foi legada pelo Cristianismo. Em se tratando da necrópole paulistana, pode ser que a influência da colônia italiana seja responsável por deixar isso ainda mais evidente. Digo isso por experiência própria. Minha avó materna, filha de italianos, tratava o cemitério como casa para a qual os parentes falecidos haviam se mudado. Nos velórios, choros altos, lamentações, abraços no caixão, promessas ao defunto, manifestações do desejo de ser enterrada também. Durante anos, levou empadas e outros salgados ao túmulo da irmã. Os coveiros do Cemitério do Caju, no Rio, agradeciam.

Voltando ao da Consolação, lembro de algo que aconteceu quase ao final do passeio, que já durava quase quatro horas. Cansado, já sem espaço para fazer mais fotos e tendo visto os principais túmulos em uma visita guiada por Wilson Natal, me senti subitamente com vontade de mudar de caminho. Deixei que “me levassem” e logo me deparei com o túmulo de Achille Fortunato. Não é ninguém conhecido. Mas eu já havia encontrado com ele algum tempo antes, pesquisando sobre a chegada de meus bisavós ao Brasil. Achille Fortunato, o da Consolação, chegou ao país mais ou menos na mesma época em que meu bisavô, Fortunato Achille. Um pelo Porto de Santos (SP), outro pelo Rio de Janeiro. Senti como se Achille estivesse me dizendo que eu ainda encontraria informações sobre a chegada de meus parentes. Sobre seu túmulo, uma figura feminina triste, chorosa, como querendo ser enterrada junto ao ser amado. Mais italiano impossível.

Ainda em São Paulo, sempre acompanhado de meu fiel guia-escudeiro para empreitadas culturais e funerárias, fui até o Cemitério do Horto Florestal, um cemitério-parque que fica no alto da Cantareira. Nada de arte tumular, nada de monumentos artísticos, nada de nada além de uma visita a um túmulo: o da escritora Adelaide Carraro. Mas já que estávamos por lá (e esse é bem longe de tudo que você imaginar), exercitamos um pouco nossa curiosidade mórbida e procuramos outros túmulos, dentre eles, o da jornalista Sandra Gomide, assassinada pelo ex-namorado e também jornalista Pimenta Neves, em 2000; e o do Coronel Ubiratan, que comandou o massacre do Carandiru em 1992 e foi assassinado em casa em 2006. Este, nem placa tinha.

Nos do Rio Grande Norte, além do que já falei no primeiro texto desta série, vale lembrar dos túmulos dos três pilotos ingleses, abatidos, durante a Segunda Guerra, próximo à costa do estado, no Cemitério do Alecrim, em Natal; e o túmulo, extremamente simples e sempre muito visitado, do cangaceiro Jararaca, ferido e capturado em Mossoró durante ataque do bando de Lampião. Preso por quatro dias, conta-se, acabou enterrado vivo pelos policiais. Indignada com a covardia, a população da cidade o transformou em santo.

Termino aqui os textos programados para esta série. Mas haverá um extra, sobre arte tumular em vários cemitérios do mundo. Ana Oliveira já enviou fotos de suas visitas aos cemitérios da Recoleta (Argentina), Montparnasse e Père-Lachaise (França). Ariane ficou de enviar algo da Alemanha. Marcelo e Renata, que tal algo aí de Portugal? E você, Diego? Aproveito para comentar algo que vem sendo discutido há um bom tempo e há poucos dias voltou a ser noticiado: o túmulo de Nietzsche, em Rocken, está ameaçado por conta de um projeto de mineração. Terrivelmente triste isso. Nem morto, o filósofo encontra paz.

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Visite o Flickr Arte Tumular

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5 respostas a Passeios por cemitérios IV – Curiosidades

  1. Amanda B. Massaro disse:

    Farei um comentário um pouco generalizado, de tudo que você escreve, porque acho que, até hoje, tudo o que eu li aqui e em outros blogs e sites seus me chamaram atenção:
    Primeiramente, nunca tinha pensado em cemitérios, estátuas, bustos, prédios, monumentos etc. da forma como você coloca aqui. Sempre tive a curiosidade, mas uma curiosidade um pouco mais alienada, diria até distraída. Ler tudo isso e ver a realidade da maneira que você propõem tem me mostrado muito e a sensação é muito boa. Obrigada por isso.
    Depois, adorei o texto Sympátheia. Acho muito sábio ser assim, como você descreveu. Se todos tivessem um pouco disso, talvez viveríamos num lugar um pouco melhor.
    E, por último, seus textos estão ficando cada vez melhores, de verdade. Parabéns.

    Encontrei seu blog por acaso e o leio regularmente desde então. Sei que não faz ideia de quem sou, mas pode me considerar uma grande admiradora do seu trabalho.

  2. Dinor Guinzani disse:

    Sandro, muito legal essa matéria , pois traz como reflexão o fato da Arte sempre está associada a morte, ao pensamento e sentimento funerário. Poderiamos pensar nessas “obras funerárias” como continuidade do que antes foram as pirâmides.
    De certa forma, a Arte sempre esteve voltada a morte, principalmente no sentido de tributo ou reconhecimento, seja em textos, pinturas, óperas, obras cinematográficas e estas bélissimas esculturas em cemitérios, que nos remetem diretamente a idéia da “Arte funerária” dos egípcios.

    Já pensou em fazerum documentário sobre esse tema. Acho que daria um ótimo curta!!!!

    Grande abraço!!

    Dinor Guinzani

  3. Wilson Natal disse:

    Conheci aquela figura tétrica,no alto daquele túmulo, quando tinha ums 7/8 anos. “Borrei-me todo”! Impressiona nas fotos; ao vivo e a cores e, até, em preto& branco.
    E o Sr. ACHILLE pode ser muito bem parente e homônimo do seu “nonno”. Ou apenas um homônimo… Só a pesquisa da árvore genealógica poderá confirmar. O seu avó é Achille Fortunato, como o daqui. Na Itália, em chamadas ou documentos, consta primeiro o nome de família, depois o nome ou apelido. Lá, nos meus documentos constaria que sou Natale Wilson.

  4. kleber disse:

    olá gostei muito da materia tenho um site sobre cemiterios conto um poco de tudo la sobre esses lugares belos. de uma olhada parabens

  5. ADOREI SEU TEXTO, A SUA FORMA DE EXPLICAR AS HISTÓRIAS QUE OS CEMITÉRIOS GUARDA E A SUA FORMADE ADMIRAR E EXPLICAR A ARTES TUMULARES.VALEUUUU!!!!!!

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