Passeios por cemitérios III – Consolação

Se foi difícil fazer uma seleção entre as quase duas centenas de fotos do São João Batista (RJ), imagine do Cemitério da Consolação (SP), do qual tenho quase trezentas imagens. A tarefa se tornou mais fácil quando resolvi criar um Flickr sobre arte tumular e disponibilizar mais fotos não só desses dois, mas também de outros cemitérios.

Antes de falar sobre e mostrar o da Consolação, comento as colaborações de dois assíduos leitores do Sempre Algo a Dizer. Ana Oliveira perguntou sobre um túmulo específico do São João Batista e, na área de comentários, listei vários outros que ficaram de fora. O Flickr foi a solução mais imediata para minimizar essas faltas e oferecer mais informação visual. Ana também começou a me enviar fotos de vários cemitérios que já visitou, no Brasil e no exterior. Incentivo todos a fazerem o mesmo. Não só de cemitérios, mas também de igrejas, prédios históricos, estátuas e outros monumentos. Há anos, venho fazendo uma catalogação, somente com fotos feitas por mim, e pretendo finalmente disponibilizar esse material no Memória Viva. Creio que a primeira fase estará no ar até setembro.

No primeiro texto desta série, em determinado instante falo sobre os túmulos “importados de São Paulo” no Cemitério do Alecrim, em Natal (RN). Wilson Natal comentou que em “meados dos anos 70 existia na Rua da Consolação muitos ateliês de arte funerária, ou arte tumular. Eram artistas italianos, espanhóis na sua maioria. Eles exportavam suas obras para todos os estados e para a o Uruguai e Argentina”. Na imagem, duas placas dessas empresas: uma do túmulo da família Cicco, outra do jazigo de Francisquinha e Ernesto Fonseca (ambos no Cemitério do Alecrim).

Durante a escolha e identificação das fotos contei com a ajuda, via MSN, de Wilson. E foi também com ele que fiz um passeio, de aproximadamente quatro horas, pelo Cemitério da Consolação, em maio de 2006. À época, falei a respeito em um texto aqui no blog (Uma semana e dois pastel). A partir da capela, começando o passeio tomando à direita (estando de frente para a capela), chama a atenção uma escultura, em tamanho natural, de uma mulher desolada. Ela não está em nenhum túmulo. Um pouco mais adiante está o túmulo de Domitila de Castro Canto e Mello, a Marquesa de Santos, doadora das terras do cemitério. A marquesa faleceu em novembro de 1867, nove anos após a inauguração da primeira necrópole de São Paulo. Em seu túmulo, impecavelmente limpo e bem cuidado, um aviso: Proibido acender velas e depositar objetos. Logo acima, duas plaquinhas com agradecimentos por graças alcançadas.

A limpeza e a conservação do Cemitério da Consolação são dois pontos impressionantes. A organização também. Há visitas monitoradas durantes as quais são mostrados os túmulos de personalidades famosas e as muitas obras de arte espalhadas pelo local. Dentre os escultores mais conhecidos, há obras de Bruno Giorgi, Enrico Bianchi, Celso Antônio de Menezes, Luigi Brizzolara e Nicolina Vaz de Assis. Veremos algumas aqui, começando pelo mais famoso de todos, Victor Brecheret, responsável por um dos cartões-postais mais conhecidos de São Paulo: o Monumento às Bandeiras. No túmulo da família Botti, há O Grande Anjo, escultura em bronze sobre base de granito. No túmulo de Olívia Guedes Penteado, amiga de vários modernistas, está a escultura O sepultamento. Além de Maria e Jesus, há ainda quatro mulheres. Três representam figuras bíblicas; a quarta, dizem, seria uma referência a Olívia, que foi esposa de Inácio Leite Penteado, tio de Yolanda Penteado, outra grande incentivadora das artes. Yolanda foi casada com Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo. Os dois foram responsáveis pela primeira Bienal de São Paulo, em 1951. Quem assistiu a minissérie Um só Coração (2004), na Globo, deve lembrar do casal, que foi interpretado por Ana Paula Arósio e Edson Celulari.

Na sequência abaixo: 1) Escultura de Antelo del Debbio no túmulo da família João Saad. Essa figura me chamou atenção por vários motivos. Foi a primeira com a qual me deparei que carrega algum erotismo. A mulher seminua se lamenta e traz na mão esquerda, na altura do sexo, uma coroa. É um ponto muito interessante. A coroa representa vitória e está na altura do ventre, onde se gera a vida. Lembra muito o arcano A Força do Tarot. Minha leitura foi de que a morte seria vencida por um novo nascimento. 2) Ao centro, no túmulo da família Miguel Chedid Jafet, escultura de uma figura feminina com um manto sugerindo asas. 3) No túmulo da família Lucio, figura feminina diante de uma pira.

Se uma escultura bem feita representando um personagem já impressiona, imagine um conjunto com várias como o que está no túmulo do empresário Demetrio Calfat. De um lado, a família; do outro, o trabalho; ao centro, a figura de um operário; por trás e acima de todos, um anjo. A obra é de Antelo del Debbio. Mais abaixo (não aparece nessa foto), há também uma efígie de Calfat. Na foto seguinte (a do meio), uma gigantesca e extremamente expressiva escultura do italiano Nicolla Rollo, no túmulo de seu compatriota, o maestro Luigi Chiafarelli. Perceba que a figura está em uma posição que faz lembrar uma interrogação. Trata-se de uma figura feminina, nua. Ao lado das mãos, pendiam tranças, que foram quebradas e roubadas. No túmulo, bem em frente à escultura, uma lira (confira o álbum do cemitério da Consolação, no Flickr Arte Tumular). Encerrando essa seqüência, Caminhando sobre o túmulo, também conhecida como Nostalgia, escultura de 1927, do maranhense Celso Antônio de Menezes. Aproveito para alertar sobre informações perdidas, não só na Internet mas também em outras fontes aparentemente confiáveis, que podem conter erros. Em uma matéria na Veja SP, foi dito que essa escultura estava no túmulo da Marquesa de Santos, o que não é verdade.

Como já deu para perceber, algumas esculturas encontradas no Cemitério da Consolação apresentam teor erótico. Em minha opinião, duas delas, ambas do escultor Francisco Leopoldo e Silva, são os principais e mais impressionantes exemplos dessa vertente de arte tumular. Solitudo (abaixo, à esquerda) é de 1922. Trata-se de uma figura feminina em aparente êxtase sensual. Esculpida em granito, tem detalhes que só podem ser devidamente apreciados in loco. O que na foto parecem ranhuras são detalhes de um véu translúcido. É algo de extrema delicadeza. Creio que também já se percebeu que estou me limitando a apresentar algumas esculturas, informando os nomes dos autores e os túmulos onde se encontram. Porém, não é difícil imaginar as muitas histórias por trás de cada uma dessas obras, dos artistas responsáveis por elas, dos homenageados, etc. E isso porque, à exceção da Marquesa de Santos, nem mostrei o túmulo de ninguém conhecido. Mas a próxima obra reúne tudo isso: riqueza artística, histórias fascinantes e personagens famosos. A interrogação, como é conhecida, está no túmulo de Moacyr Piza. Para quem não sabe, Moacyr Piza foi um jovem advogado e escritor que viveu um intenso e trágico romance com Nenê Romano, uma linda cortesã de luxo. Isso aconteceu no início da década de 1920. A história, que até já virou filme (Desatino, curta de Dimas Oliveira Junior, lançado em 2008), termina com Piza matando Nenê com quatro tiros e se suicidando em seguida. A interrogação, encomendada sabe-se lá por quem, está ali, há muitas décadas, se perguntando como o amor a uma mulher pode transformar um homem em assassino.

Na próxima sequência, túmulos de algumas personalidades famosas: Afonso Arinos, Líbero Badaró, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e o presidente Campos Sales, este último com esculturas de Rodolfo Bernadelli.

Para finalizar, dois mausoléus que são verdadeiros palacetes: o da família Sinisclachi, réplica miniaturizada de uma catedral gótica, em mármore de Carrara, datado de 1913, com 12,5 metros de altura, construído pela Marmoraria J. Savoia; e o da família Matarazzo, que dispensa qualquer comentário.

No Flickr Arte Tumular, tudo isso e muito mais, em tamanho maior e com detalhes.

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11 respostas a Passeios por cemitérios III – Consolação

  1. Ana disse:

    Tô adorando!!! Amanhã ou depois te mando as fotos escaneadas de Paris.

  2. Wilson Natal disse:

    Fui dormir cedo com a impressão de que algo não estava certo. Acordei as 4 da matina e descobri. Eu havia dito que “O Sepultamento” estava no túmulo da tia Yolanda, quando realemnte está no da tia Olívia. Tratei de abrir o teu blog para falar do meu ato falho. Coisa de um maluco “for ever” que sou!:)
    E que bom que focê percebeu o engano!
    Abração.

  3. Wilson Natal disse:

    Está excelente! Voce devia fazer o Consolação III – Parte II. 🙂
    O túmulo de AFONSO ARINOS é obra de JEAN MARIE JOSEPH MAGROU, autor da estátua de São Pedro de Alcântara, no altar-mor e das imagens dos altares laterais da Catedral Imperial de Petrópolis. Na mesma catedral estão as suas duas estátuas jacentes de D. Pedro II e D. Teresa Cristina. E tem obras nos Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
    E, realmente, há muito o que se ver lá na Consolação: O túmulo do fundador da TFP, o túmulo de “Santo” ANTONINHO DA ROCHA MARMO; tumulos de certas senhoras de “fino trato” que foram as maiores cortezãs-empresárias da Paulicéia; o túmulo da família de OSWALD DE ANDRADE (onde ele também está sepultado ao lado de seu filho Nonê), onde ele casou-se simbólicamente com a PAGÚ (Patricia Galvão) e o túmulo da grande dama do teatro brasileiro ITÁLIA FAUSTA, Mãe adotiva de Sandro Polônio e sogra de Maria Della Costa. Itália foi a grande responsável pela organização da Classe Teatral.E o túmulo do Presidente WASHINGTON LUÍS – Paulista de Macaé, tão amado e respeitado pelos paulistas e paulistanos…
    São 151 anos de história. La estão os Barões do Café, os governantes republicanos, os magnatas da industria e comércio e gente simples, anônimos.
    La está, também, em sepultura singela, RAMOS DE AZEVEDO, o maior arquiteto público de São Paulo, e responsável pelo grande pórtico e pela capela do Cemitério da Consolação.

    Abração. A série de posts sobre arte tumular está ótima!!! Wilson.

  4. Oi Sandro! Estou adorando os posts!
    Eu achava que era maluca,pois sempre admirei a arte nos cemitérios, vejo que não estou sozinha rsrs
    Várias vezes visitei o cemitério da consolação, e o do Araçá, só por visitar, para apreciar o belo no meio do cemitério.
    Mesmo nos túmulos das pessoas não conhecidas,mesmo sem monumentos, sem grandes enfeites, sempre podemos captar um pouco de história.
    Um abraço!

  5. Vale lembrar que o Cemitério da Consolação foi o primeiro da cidade de São Paulo,e é também o que tem os mausoléus mais ricos incluindo alguns deles com esculturas de Victor Brecheret, como o Sandro citou.
    Até esfinge tem em túmulos no cemitério da concolação.

  6. Ariane Mondo disse:

    Puxa, muito bacana a “viagem” que podemos fazer através dos teus textos e fotos, Sandro!
    Nessas minhas andanças pelo mundão de meu Deus, sempre visitei cemitérios. Por curiosidade mesmo ou para desligar um pouco do cotidiano.
    Certa vez, por essas bandas de cá, entrei e sentei no banquinho de um cemitério que era bastante sóbrio no quesito esculturas e lápides, mas bastante colorido por causa das flores ao redor dos diversos túmulos. E daí pude perceber que até mesmo nos lugares onde as pessoas têm seu “descanso eterno”, pode-se perceber a identidade de um país.
    Acaba logo de escrever a 4a parte dessa série que eu já estou curiosíssima! 🙂

  7. Alice disse:

    Sandro,

    Neste feriado visitei São Paulo e com meu marido (que adora fotos de esculturas em túmulos), fomos conhecer o cemitério da Consolação. Ficamos maravilhados com as obras que lá estão. Ele tirou fotos de quase todas as obras acima, mas tem uma em especial que vou te mandar. Adorei seu trabalho. Quero te enviar também algumas fotos que tiramos do Cemitério da Saudade, aqui em Campinas.
    Abçs,
    Alice

  8. KELLY disse:

    NOSSA CARA ADOREI A CITAÇÃO SOBRE O CEMITERIO DA CONSOLAÇÃO,MUITO LINDAS AS ESCULTURAS MESMO HEIN.E OS DETALHES DE CADA OBRA É SIM MUITO INTERESSANTE PARABÉNS PELO TEXTO VIU.
    ABRAÇOS.

  9. ANA disse:

    Oi, no dia 6 de junho participei de uma visita monitorada no cemiterio da Consolação e pude apreciar ao vivo e a cores todas estas obras de arte. São lindas, maravilhosas. As pessoas tem muito preconceito a respeito dos cemiterios, é uma pena, pois estão perdendo o melhor em termos de obras de arte.

  10. Daisy disse:

    Dia 13 de outubro de 2008 era meu penúltimo dia morando em São Paulo e decidi fazer algo para lembrar desta data infeliz, antes de voltar a morar no interior. Resolvi conhecer o Cemitério da Consolação pois achei que tinha tudo a ver. Não sabia muito o que me aguardava e fui acometida de uma overdose de sentimentos, desde completo deslumbramento por tanta beleza plástica, personalidades que conhecemos de ouvir falar ao longo da vida, até grande comoção ao ler as frases e poemas em vários túmulos com estórias tocantes e profundas, o que me fez desabar no choro, não aguentei. Também tirei dezenas de fotos maravilhosas que vez ou outra dou uma olhada para matar a saudade daquele dia especial e triste ao mesmo tempo, e desta cidade tão querida que trago no meu coração. Adorei ter encontrado esta página e relembrado desta experiência. Ah, eu também sou da turma dos “esquisitos” que adoram visitar cemitérios. Sim, há muitos como nós !!! 😀 😀 Abraços

  11. Paula Bernhardt disse:

    Achei esta pagina procurando placas para tumulos, fiquei surpresa….pois conheço o Cemitério da consolação, a familia do meu marido o tem a quase 100 anos, mas eu sou contra os cemitérios com tumulos, vou ser cremada,eu passei pela 2ª guerra mundial em campo de concentração durante 3 anos e meio, e vi tanta gente morrendo e serem despejadas em buracos enormes para caberem muitos, e nem se podia chorar ou acompanhar,…. meu coração ficou fazio quanto aos sentimentos da morte, é um fato inevitável, e os que ficam precisam hoje em dia sempre ir a cemitérios postar flores e relembra, eu não gosto disso, por minha causa não quero ver os familiares serem obrigados a olhar a placa ou postar flores, o sentimento fica guardado no coração e vai se esvaindo conforme seguem as gerações…..portanto achei ótimo a chegada da cremação aqui no Brsil, é limpo, sem sofrimentos postumas, e todos ficam felizes.

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