Passeios por cemitérios II – São João Batista

Ao selecionar as fotos que usaria para ilustrar este texto, fiquei em dúvida sobre qual utilizar para abri-lo. Por vários motivos, acabei escolhendo esta que mostra, em primeiro plano, o túmulo de Ary Barroso. Mais que meramente ilustrativa, ela nos leva a muitas considerações que podem não ser percebidas de imediato.

Vemos nela uma pequena área do Cemitério São João Batista, que fica no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Vê as construções no meio da mata do Morro São João ao fundo? Elas foram faladas em uma matéria veiculada na semana passada pelo RJ TV e também pelo Jornal Nacional. A reportagem falava do crescimento e unificação de favelas, dentre elas a da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, e a do Morro São João, em Botafogo.

Para quem não conhece o Rio, uma rápida explicação. A Zona Sul é onde ficam os bairros ricos da cidade: Copacabana, Leblon, Ipanema, Botafogo, etc. No entanto, a geografia extremamente acidentada, que faz a cidade ser tão linda quando vista de cima, não separa ricos e pobres. Criadas nos morros, as favelas cercam os bairros da Zona Sul.  O pequeno e mundialmente conhecido bairro de Copacabana, por exemplo, é ladeado por quatro grandes favelas. São apenas cinco quarteirões do Copacabana Palace a uma delas. O bairro faz fronteira com Botafogo. Favelas de um e de outro estão se encontrando e se transformando em uma só.

Pois bem, a matéria na TV Globo dizia que “para a prefeitura, a favela na parte de cima do cemitério nem existe oficialmente” e que “só teria sido descoberta há um ano”. A foto que abre este texto foi feita em dezembro de 2003. Mas já existiam casas ali desde meados dos anos 1980. Hoje, a mata que se vê na foto quase não existe.

Outro ponto interessante. O paredão que separa o morro do cemitério é onde estão as gavetas, locais que comportam apenas um caixão. “Descendo” o paredão, chegando ao “asfalto” do cemitério, os túmulos são normais, maiores e mais espaçosos, tanto mais quanto as posses de seus donos. Do centro para a porta do cemitério, fica a maior parte dos mais ricos. A necrópole repete o padrão da cidade onde está encravada. Na periferia e subindo o morro, os mais pobres; do centro para a praia, os mais abastados. Pode parecer exagero, mas assim como as da foto, boa parte das estátuas do São João Batista, independente da posição do túmulo, está voltada para a entrada do cemitério e de costas para o morro. Assim como o Cristo Redentor está de frente para a Zona Sul e de costas para a Zona Norte.

Finalmente chegando ao foco principal deste texto, aproveito a imagem desse monumento a Ary Barroso para explicar alguns pontos básicos referentes à estatuária e à arte tumular. Quando se fala em “estátua”, está se falando de uma representação de corpo inteiro. “Busto” se refere à cabeça e parte do tronco. “Efígie” é uma figura em alto relevo, aparece com freqüência, mas não necessariamente, em medalhões. No túmulo de Ary Barroso, vemos um busto seu acompanhado da estátua de uma mulher entristecida com um pandeiro mudo próximo a sua mão. No canto, aos pés da estátua, folhas em bronze com nomes de músicas do compositor. Uma bela homenagem e um lindo exemplo de arte tumular, que se completa com a construção em mármore do próprio túmulo.

E agora, eu os convido a passear comigo e apreciar um pouco desse grande museu que é o Cemitério São João Batista.

Quando estive por lá, em 2003, estava procurando o túmulo de Lima Barreto. Ninguém sabia dizer onde ficava. No São João Batista há passeios organizados com historiadores e, como em todo cemitério desse tipo, os funcionários e biscateiros que vivem dos serviços de limpeza prestados a particulares também costumam saber onde ficam as sepulturas dos famosos. Pois o pobre Lima Barreto ninguém sabia onde estava. Nem sabiam quem era ele. Precisei recorrer aos livros da administração para descobrir a localização de sua última morada e – surpresa! – lá estava ela próximo a uma saída, nos fundos do cemitério, próximo a uma das pontas do paredão dos simples. Até existe uma efígie e seu nome está sobre a tampa, mas o escritor, que sempre foi pobre, descansa em uma tumba simples, como foi tudo em sua vida.

Durante as duas horas que perambulei entre os jazigos, além de pegar o chamado “bronze de cemitério” (só no rosto e nos braços), aproveitei para registrar os túmulos de personalidades famosas como Cazuza, Vicente Celestino, Nelson Rodrigues e Carmen Miranda, além dos já citados Ary Barroso, Augusto Severo e Alberto Maranhão (este dois últimos em texto anterior).

O surgimento e desenvolvimento do Cemitério São João Batista coincide com a época áurea do Rio de Janeiro como centro cultural e político do país. Criado em 1851, portanto quase quatro décadas antes da proclamação da República, o local abriga túmulos de figuras ricas e importantes da sociedade carioca, mesmo que não tão populares como os já mostrados. Os nomes podem não ser tão conhecidos, mas o luxo na construção dos mausoléus e das homenagens não deixa dúvidas sobre a condição financeira ou da importância dos falecidos. Vejamos alguns exemplos, como os mausoléus das famílias Pinto, Zanotta, Miguel Hernandez Martin, Álvaro da Costa Martins e de Clarisse Lage Índio do Brazil.

Outras homenagens que chamam atenção no São João Batista são aquelas feitas a aviadores. Desde os pioneiros Augusto Severo (morto em Paris quando seu balão dirigível, o Pax, incendiou, em 1902) e Santos Dumont (um pedra com uma representação de Ícaro sobre ela) até os pilotos militares mortos durante a Segunda Guerra (com obras da escultora Celita Vaccani).

Mostro também dois mausoléus muito interessantes: um palacete dedicado “A minha Lilie outro em homenagem aos estudantes Guimarães e Junqueira, mortos em um desentendimento entre universitários e a força policial. O episódio, que completará 100 em setembro próximo, ficou conhecido como Primavera de Sangue.

Finalizando esse rápido passeio, deixo ainda outras imagens de belas esculturas, algumas fundidas em bronze, outras esculpidas em mármore (tenho certeza, todos saberão diferenciar).

Veja 38 fotos do Cemitério São João Batista no Flickr Arte Tumular.

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15 respostas a Passeios por cemitérios II – São João Batista

  1. Ana disse:

    Ei, cadê o túmulo da Cecília Meireles?

  2. Sandro Fortunato disse:

    E o do Chacrinha? Do Baden Powell? Do Drummond? Da Clara Nunes? Do Villa-Lobos? Do Machado de Assis e o Panteão da ABL? Não dava pra botar todos, não é, ANA? Pelo menos não em um post, mas há anos preparo uma versão brasileira do Find a Grave. Aguarde. ;)

  3. Caroll disse:

    Ótimo post.
    Você está no Rio?

  4. Estou aguardando o final dessa sua série para começar a publicar a minha no blog Umas & Outras. E estou curiosíssima para ver o que foi que você escolheu do cemitério da Consolação, do qual tenho cerca de 100 fotos. Sempre vai sobrar algo para que eu possa publicar. Meus interesses também têm a ver com a Genealogia, porque os túmulos têm datas de nascimento e morte, e muita gente sepultada num lugar só. E tenho as fotos singelas dos cemitérios do interior…

  5. Wilson Natal disse:

    Aos poucos vai-se educando o povo a ver história onde viam morte. Aqui, a idéia surgiu menos pretenciosa, em nada parecida com aquela do Père Lachaise, de Paris. Nasceu com o nome de Turismo Insólito que levava o turista a lugares ditos assombrados, malditos e a cemitérios. Daí nasceu a idéia do museu a céu aberto – os cemitérios. E o povo gostou de visitar o local onde repousam as personalidades e de ver toda uma arte funerária requintada, bisexta,vanguardista, moderna, arrojada e, muitas vezes, cafoníssimas.
    Você fala da contribuição paulista nos cemitérios e cita o de Natal. É que até meado dos anos 70 existia na rua da Consolação muitos ateliês de arte funerária, ou arte tumular. Eram artistas italianos, espanhóis na sua maioria. Eles exportavam suas obras para todos os estados e para a o Uruguai e Argentina. Com o alargamento da rua, que virou Av. Consolação, embora continue rua ( o povo não quis a mudança) muitos ateliês foram desapropriados e demolidos. E os muitos “milagres econômicos” causaram a debandada dos artistas. Dos anos 70 em diante não mais se encomendava jazigos nem em São Paulo e nem no exterior. Entrou-se em clima de Cemitério de Vila Formosa…
    No Rio, além do S.J. Batista, tem o de São Francisco com lindos exemplares de arte tumular.
    E quando vc postar as fotos da última morada dos grandes, não se esqueça de Madalena Tagliaferro, uma das grandes concertistas que o Brasil já teve.
    Natal tem grandes possibilidades de incrementar esse turismo. Basta a boa vontade da Prefeitura.
    Aqui, comentei aqui, de uma certa maneira, falei deste e do post anterior. Sobre a do Consolação comento quando voce postar.
    Quem sabe os frequentadores assíduos do Sempre algo e os acidentais parassam a ver os Cemitérios com outros olhos, sem medos ou superstições.
    Abração,

  6. Nossa, é uma viagem esse tema…Viagem no bom sentido, de muita história
    Se formos parar pra pensar nessa última homenagem aos mortos, os adornos e enfeites, a arte tumular quando simbolismos há.
    Quem já viu o túmulo de de D. Pedro I de D. Inês de Castro no Mosteiro de Alcobaça em Coimbra? São duas verdadeiras obras-primas da escultura gótica em Portugal.detalhe que D Pedro I mandou construir seu próprio túmulo.

  7. Marcus Knupp Barretto disse:

    Oi, vc sabe quem é o escultor da estátua da mulher que está no túmulo de Ary Barroso? Ou sabe como faço para conseguir essa informação?

  8. Gilvan Lins disse:

    São Tantos, conhecidos ou não, mas gostaria que colocasse todos os conhecidos desde a década de 1900, se possível, claro.

  9. Daniel Pessoa disse:

    Adorei o seu texto! Produzi um curta-metragem amador de 7 minutos sobre este cemitério que sempre me fascinou! Fiquei interessado quando você mencionou que no São João Batista há passeios organizados com historiadores. Como faço para fazer parte de um desses passeios? Muito obrigado!

  10. wanderlei disse:

    Belas imagens. é um verdadeiro museu a ceu aberto. Em novembro 2010 pretento fazer um tour pelo rio de janeiro e com certeza o sao joao batista será um dos meus pontos turisticos mais aguardados para visitação. vou pelas obras de artes e pela memoria de muitos ilustres que repousam ali como candido portinari, santos dumont, machado de assis, guimaraes rosa, cecilia meireles, maysa, chacrinha, …
    abraço a todos.

  11. GERSON LINHARES disse:

    O Cemitério São Joâo Batista do RJ é fantástico para a nossa história e para a prática do turismo cultural – comtemplativo arquitetônico. Parabéns pelas fotos e informações. Sou turismólogo de Fortaleza e gostaria de saber como poderia achar a foto do túmulo do escritor cearense José de Alencar. Já tentei vários sites e blogs mas não consigo. Poderiam me ajudar…. Agradeço a parceria…..

  12. wanderlei disse:

    ola!
    eu realizei meu grande desejo de conhecer o cemiterio sao joao batista! fiquei pasmado com tanta obra de arte tao proximas umas das outras,nunca vi coisa igual em toda vida, mas nao gostei daquela favela em volta. muito limpo o semiterio, e foi uma pena eu nao ter levado um guia comigo, pois so localizei 3 tumulos de famosos: tom jobim, carmem miranda e cazuza(muitas homenagens com fotos, dedicatorias ainda em seu tumulo 2 dias depois dos finados). a área é muito grande pra ser percorrida ao leo. eu fiquei com dor de cabeça,insolação porque me encantei tanto que fiz circulos viciosos sem achar muito do que queria. nao pude ver tumulos do chacrinha, clara nunes, santos dumont, jardeu filho, roberto marinho, dorival caimi,dirce migliacio, porque nao levei a lista de celebridades enterradas ali. perguntei a um funcionario onde fica o tumulo do machado de assis(eles teem boa vontade) e ele queria saber quem era ele. vou voltar em maio e vou terminar a obra fotografica. é show andar pela rua real grandeza. abraços.

  13. Sheila Assunção disse:

    Adorei muito este post, está sendo uma referencia a nossa 1ª visita ao Cemitério São João Batista e mais um motivo para ir conhecer o Rio de Janeiro. Meu esposo e eu não somos adoradores de cemitérios, mas da arte fúnebre neles existentes. Quando fui a São Paulo, visitei o da Consolação e também pude apreciar que belíssimas obras. Sei que estas encontram-se dentro e divisor de classe, mesmo postumas, mas ainda assim , para mim, são admiráveis. Parabéns pela escrita, analogia social e iniciativa de publicar esta matéria.

    Att.: Sheila Assunção.

  14. carlos ribeiro disse:

    Olá! Hoje faço parte da Coordenadoria de fiscalização de cemitérios do Rio de Janeiro.
    E é com satisfação que estou servindo de instrumento, junto com minha equipe para buscar melhorar ainda mais os serviços prestados à famílias que tem os seus entes queridos nestes locais. Diga-se de passagem… com o minimo de dignidade.

  15. sidney cantilena disse:

    o cemitério São João Batista é uma verdadeira obra de arte!
    As grandes personalidades que nos deixaram ,moram ali.

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