Passeios por cemitérios I

Minhas primeiras lembranças relacionadas a cemitérios são dos anos 1970, do Cemitério do Caju, no Rio. Existe ali um jazigo da família. Mesmo ainda muito pequeno, o local me fascinava. Silencioso, repleto de esculturas, tudo aparentemente muito organizado.

A partir de 1986, passando a morar em Natal, longe dos familiares – vivos ou mortos – perdi o “hábito” de visitar cemitérios. No entanto, alguns anos depois, isso se tornaria quase uma rotina. Já visitei e fotografei cemitérios em São Paulo, Rio de Janeiro, Londrina, Belo Horizonte, Natal, Mossoró e muitas outras cidades. No início, o objetivo era registrar “o ponto final” da história de alguns personagens sobre os quais estava escrevendo ou tinha algum interesse. Logo fui percebendo como os cemitérios eram não só guardiões desses últimos capítulos, mas de histórias inteiras: das pessoas ali sepultadas, mantidas na lembrança pela tradição oral; suas próprias histórias como cidades mortuárias; histórias das cidades onde estão encravados; história da arte; etc.

Arrisco-me a dizer que jamais visitei um museu – mesmo os imperiais em Rio e São Paulo – tão ricos quanto os cemitérios da Consolação (SP) ou o São João Batista (RJ).

Mas vou começar falando de um mais modesto: o do Alecrim, em Natal (RN). Fundado em meados do século XIX, é guardião dos restos mortais de destacadas personalidades da vida cultural, política e religiosa do Rio Grande do Norte. Ali foram sepultados, originalmente ou depois trasladados, Auta de Souza, Câmara Cascudo, Pedro Velho, Dinarte Mariz, Djalma Maranhão e Padre João Maria, dentre outros.

Por conta das pesquisas sobre busto e estátuas de Natal, recentemente fiz algumas visitas ao Cemitério do Alecrim. Não existe nenhum busto nele. Há apenas quatro efígies (sendo duas no mesmo túmulo) e apenas uma estátua que represente uma pessoa. Há várias representando Jesus, anjos, santos e figuras mitológicas, como Mercúrio, mas somente uma representando alguém ali sepultado. Trata-se de homenagem a Yvette Simões Cicco, falecida em 1937, aos 25 anos. Era filha de Januário Cicco, renomado médico que fundou os primeiros hospitais de grande porte em Natal. No mausoléu da família Cicco, encontram-se duas estátuas: uma, de pé, representando Yvette; outra, a seus pés, com olhar de tristeza. Dizem que esta seria a mãe da jovem e esposa de Januário Cicco, mas é quase certo que seja uma representação da Melancolia ou da Saudade, muito comum naquela época. Encontramos várias dessas nos cemitérios de Rio e São Paulo. A propósito, as estátuas e o mausoléu foram feitos em São Paulo. Outro ponto interessante nessa história é que, na área externa do mausoléu, em frente às estátuas, foram deixados os móveis e outros objetos de uso pessoal da jovem falecida. Um tempo depois, tudo foi retirado do local.

Provavelmente o túmulo mais visitado do Cemitério do Alecrim seja o do Padre João Maria. Falecido em outubro de 1905, formou-se todo um culto popular em torno de seu nome. Até hoje, mais de 100 anos depois, as visitas ao túmulo que fica próxima à entrada principal são constantes. Há um pequeno altar com imagens de santos e ex-votos, além de uma eterna e imensa mancha negra, ao lado, provocada pela queima de velas. O mais interessante é que os restos mortais do Padre João Maria foram trasladados para a Igreja de Nossa Senhora de Lourdes (no bairro de Areia Preta) há quase 30 anos. E nem de longe o “novo” local tem tanta visitação. Outra curiosidade: a praça ao lado da igreja leva o nome do padre e tinha um busto, de concreto, em sua homenagem. Depredada, os restos da homenagem foram guardados na igreja. Mais: no centro da cidade, atrás da Igreja Matriz, há outra praça com o nome de Padre João Maria. E outro busto, em bronze, colocado sobre um obelisco. É outro grande ponto de manifestações de devoção de populares.

O Cemitério do Alecrim guarda ainda muitas histórias como os túmulos gêmeos de três jovens pilotos ingleses, abatidos em abril de 1944, que foram resgatados e ali sepultados. Também mostrando que a crueldade contra crianças não é uma novidade, há o túmulo de um menino assassinado por suas babás antes de completar 3 anos de idade, em 1948. Além da foto da criança, uma placa faz lembrar o caso: Morto envenenado pelas perversas criminosas (…).

No próximo texto, um passeio pelos cemitérios da Consolação (SP) e São João Batista (RJ). Homenagens a figuras famosas, grandes obras arquitetônicas e de escultura.

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9 respostas a Passeios por cemitérios I

  1. Ana disse:

    Sandro, também adoro passear pelos cemitérios fotografando…
    E tem um site maluco que eu adoro, será que você conhece?
    http://www.findagrave.com/index.html
    Beijoca!

  2. Jararaca, descendente de escravos libertos, lugar-tenente de Virgulino Ferreira, o Lampião, tombou em combate durante o assalto à brava e invicta cidade de Mossoró.

    Seu túmulo hoje é roteiro de peregrinação católica, no Cemitério Municipal. As marcas das balas já não se encontram na torre da igreja, mas o fantasma de Jararaca deve andar por lá.

    Quando eu encontrar a minha foto, publico no flickr.

  3. ANA, conheço claro. Desde o comecinho, quando ainda não existia nenhum túmulo brasileiro e eu pensava em enviar fotos feitas por mim. Outro que conheço há mais de dez anos também é o http://www.whosaliveandwhosdead.com .

    MARCELO, nem se preocupe. O túmulo de Jararaca vai estar no próximo texto. Eu o fotografei em… bem, ali pelo final dos anos 1990.

  4. joão disse:

    Sandro.
    Você é um fotógrafo de peso. Suas fotos são lindas, mas que isso, substanciosas. A gente olha e tem vontade de continuar olhando. Mas também tem um lado estético, elas são belas mesmo.
    saudações
    joão antonio

  5. Ai!
    Pegou de jeito numa mania que também tenho.
    Tenho foto do túmulo de Jararaca. Toda vez que vou a Mossoró tenho como obrigação visitar o túmulo dele, para escândalo das pessoas que me convidam para fazer palestras, dar cursos, etc. Nunca fiz essa visita que não encontrasse flores frescas sobre o túmulo. Quem as coloca? Mistério…
    Estou preparando um post no meu blog com minhas fotos preferidas de cemitério.
    Aguardem.

  6. O foco não é esse,mas acho interessante quando visito um cemitério, aqueles túmulos em que aos que ficaram tem a necessidade de manter uma espécie de elo, levando oferendas.E aqueles em que são das pessoas consideradas santas, milagreiras em que há pedidos de graças e agradecimentos…
    Bom, o turismo nos cemitérios é muito comum fora do Brasil, quem já viu o site do cemitério Père Lachaise na França? tem tour virtual,pode?
    aqui vai o link: http://www.pere-lachaise.com/perelachaise.php?lang=en
    Quem quiser conferir tumulos d e Edith Piaf, Oscar Wilde, Maria Callas entre outros

  7. Januário Cicco Sobrinho disse:

    Bonito o teu trabalho.
    Gostaria de esclarecer e trazer a verdade, visto que existe várias estórias sobre o mausoléu e sobre o que há nele.

    Realmente, as estátuas representam a saudade. De pé, seria Yvete e sentada, Isabel (Bebé).
    Nunca foi colocado a frente do mausoléu, móveis ou qualquer outros objetos. A entrada, se dá por trás, onde se tem acesso a escadaria, onde se tem acesso as gavetas, na sala.
    Logo de frente, tem-se o altar. Havia uma estrutura para a celebração de missas, pois nossa família é católica e temos também um religioso, monsenhor Celso Cicco, sepultado lá.
    O portão, antes de bronze, foi trocado por um de grades, para melhorar a circulação de ar e principalmente, evitar os arrombamentos constantes, com violação das gavetas mortuárias.
    A planta veio de Roma e o mausoléu, foi todo feito em S. Paulo e montado em Natal.
    Como se trata de uma construção subterrânea, cavou-se bastante para a sua edificação. Contudo, antes de ser levantado o mausoléu, foi enterrado baús, usados na época, em viagens de navio, com vários pertences de uso pessoal das duas. O que deu origem a vários boatos , que vão desde a crença de que eram para uso dos mortos, na “vidas espiritual” , chegando a nos comparar aos egípcios e suas pirâmides, a também de se tratar de joias da família. Conta-se até, que há um piano enterrado por lá e há até quem fale que já o ouviu tocar durante a noite…
    As joias da família, foram vendidas em SP, para a compra do berçário da maternidade. o que nosso tio chamada de jardim, dando a cada um, nome de flores.

    Por fim, nada há por lá, que seja de valor material e sim, afetivo: Os restos mortais dos nossos antepassados e futuramente, os dos que estão vivos, como os meus…

    Agradeço a oportunidade de poder esclarecer, a bem da verdade, neste espaço.

  8. Thomaz disse:

    Parabéns pelas suas fotos e histórias, são ótimas. Algum progresso no seu projeto do Find a Grave brasileiro?

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