Turismo histórico-cultural e três velhos bigodudos

Quando se planeja viajar ao Nordeste do Brasil, geralmente os pensamentos se voltam para sol, praia, calor e alguma música estúpida. Aos amigos que passam por Natal , sempre preferi mostrar um aspecto diferente da cidade. Enquanto os guias e outros conhecidos os ajudam a saciar seus desejos mundanos de turista, costumo lhes dar uma oportunidade de realmente conhecer a cidade.

A extensão desses passeios depende do interesse e da disposição de cada um, mas invariavelmente as pessoas se surpreendem com o que teriam perdido se ficassem só lagartixando sob o sol ou matando neurônios ao som do axé.

Há poucos dias, pude fazer um desses passeios com Edvaldo, antigo amigo de família. Pernambucano de Recife (indubitavelmente uma cidade que sempre se preocupou com sua cultura), interessou-se pela proposta. A pé, percorremos os bairros das Rocas, Ribeira, Cidade Alta e Alecrim, os mais antigos e populares da cidade, dos quais os turistas normalmente nem ouvem falar.

Enquanto caminhávamos, comecei a falar do trabalho sobre bustos e estátuas que estou fazendo. Sempre que encontrávamos algum pelo caminho, eu dizia quem era, falava sobre a pessoa, dos motivos da homenagem e da localização do monumento, etc. Isso se estendia para a história do local, levava a algum prédio, praça ou outro monumento e assim sucessivamente. Em determinado instante, ele demonstrou surpresa por eu “saber aquilo tudo”. Primeiro, não sei tanta coisa assim. Segundo, eu nem sabia que sabia aquilo.

Sua observação me fez perceber como é fascinante conhecer o mundo que nos cerca. Em vez de simplesmente ir de um lugar a outro apressadamente, sem apreciar as coisas ao redor, seria interessante conhecer os nomes das ruas, quem foi a pessoa que dá nome àquela via, quem é aquele representado na estátua no meio da praça, o que ele fez, qual sua importância, porque a praça leva tal nome, etc. Quando se faz isso, você passa a conhecer toda a História de um determinado local. Não é uma decoreba como costumam fazer nas escolas. Você realmente aprende porque passa a viver e entender tudo aquilo. Você passa a fazer parte da história e, mesmo sem querer, aprende a mantê-la viva. Mais: conhecendo o local em que vive (ou que está visitando), você se sente mais íntimo dele, se sente mais à vontade, mais seguro. Da mesma forma que cada um se sente em sua própria casa.

O mais interessante é que esse processo não tem fim. Sempre haverá algo a aprender, alguma coisa a ser descoberta, muitas surpresas a serem reveladas.

Há mais ou menos um mês, escutei o seguinte de um popular, em uma pracinha no bairro das Quintas, em Natal: “Em vez de botar esse monte de velhos bigodudos, a prefeitura deveria iluminar, ajardinar, fazer áreas de lazer nas praças”. Certíssima a opinião do cidadão. A prefeitura tem mesmo que fazer tudo isso. Mas o que mais me chamou atenção foi a referência aos “velhos bigodudos”. Em geral, as pessoas não sabem quem são essas figuras homenageadas com bustos e estátuas em praça pública. Essa falta de conhecimento histórico alimenta a distância (entre o povo e as figuras ilustres) e acaba gerando antipatia.

O bigodão era comum no século XIX, início do século XX. Homenagens com bustos e estátuas também era comuns até metade do século passado, portanto nada mais natural que existam muitos bigodudos espalhados por nossas praças. Mas há em Natal alguns bigodudos que sempre chamaram minha atenção: Pedro Velho, Alberto Maranhão e Augusto Severo. Mesmo em minha paquidérmica ignorância, saberia dizer algo sobre cada um deles. Pedro Velho foi o primeiro governador do Rio Grande do Norte e também senador. Alberto Maranhão também foi governador, construiu o Teatro Carlos Gomes, que depois teria seu nome. Augusto Severo foi pioneiro da aviação e morreu em um acidente com um dirigível que pegou fogo. Muito bem. Nada mal para um carioca ignorante como eu, que até poderia dizer mais uma ou duas coisas sobre cada um deles. O que eu não sabia, até pouco tempo, é que os três eram irmãos. Bem que eu achava aqueles bigodudos muito parecidos…

Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, o primogênito (eram seis irmãos ao todo), foi abolicionista, primeiro governador do Rio Grande do Norte, e é tido como o organizador na política no estado. Isso faz parte da decoreba que, acredito, devem ensinar nas escolas potiguares. Mas quando você se interessa em saber um pouco mais sobre aquele bigodudo que tem um busto na Praça Cívica (Praça Cívica Pedro Velho, no bairro de Petrópolis), vai saber de sua importância como republicano, que ele fundou o Partido Republicano no Rio Grande do Norte, lançou um jornal chamado A República e que, ainda no sistema confuso, logo após a proclamação da República, assumiu como governador. Que nesse cargo, durante os dois anos seguintes, passariam outras 12 pessoas, até que em fevereiro de 1892, ele fosse eleito pelo Congresso Legislativo Estadual e, só então, teríamos uma organização muito próxima da que temos ainda hoje.

Alguns anos depois, veremos seu irmão, Alberto Maranhão, assumindo o governo pela primeira vez, em março de 1900. De grande importância para as artes e a cultura, pouco antes de terminar seu primeiro mandato, em 1904, inaugura o Teatro Carlos Gomes. Em 1902, bem no meio de seu primeiro mandato, acontece na França um acidente com o balão dirigível Pax, no qual morre Augusto Severo. Em 1913, durante o segundo mandato de Alberto Maranhão, é inaugurada uma estátua em homenagem a seu irmão aeronauta próximo ao Teatro Carlos Gomes. Em 1957, o teatro passaria a se chamar Alberto Maranhão. Hoje, muitos anos depois, essas e muitas outras histórias podem ser relembradas em um simples passeio pelo bairro da Ribeira, onde também ficava o antigo Palácio do Governo (hoje uma escola de balé), que teria a sede mudada por Alberto Maranhão para a Cidade Alta… onde centenas de outras histórias podem ser contadas em mais um passeio. Isso parece não ter fim.

Perceba que estamos falando de apenas três pessoas de uma mesma geração de uma única família. Suas histórias pessoais ajudam a explicar a História da cidade e também do país, quando falamos de temas como a abolição da escravatura, a proclamação da república e o pioneirismo na aviação, para citarmos somente uns poucos.

Voltando ao passeio. Da Ribeira, subimos para a Cidade Alta e depois fomos para o Alecrim, para um dos tipos de visitas mais ricos que se pode fazer a qualquer cidade: uma ida ao cemitério. Vou deixar para um próximo texto maiores detalhes sobre essa modalidade de visitação e estudo histórico. Agora vou apenas mostrar algumas curiosidades acerca dos três irmãos bigodudos. Pedro Velho foi o único enterrado em Natal. Ele faleceu em dezembro de 1907, a bordo de um navio, em Recife. No Cemitério do Alecrim, há um interessante mausoléu em sua homenagem, construído em 1939. O mausoléu não tem entrada. É como um cofre forte construído ao redor do túmulo. O nome de Pedro Velho e uma placa identificam o monumento.

Os irmãos Augusto Severo e Alberto Maranhão foram enterrados no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Severo, como dito, morreu em Paris. Seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro e sepultado no “cemitério dos ricos” da então capital federal. À época, Pedro Velho era senador. Foi feito um monumento, estilo obelisco, com sua efígie, obra do escultor Rodolfo Bernardelli. Alberto Maranhão, falecido em 1944, também foi enterrado no mesmo cemitério e tem um busto em seu túmulo.

No próximo texto, sobre bustos, estátuas e arte tumular, pretendo mostrar como aprender algo de nossa cultura e de nossa História em passeios por cemitérios. Sem falar na riqueza artística. São grandes museus a céu aberto nos quais, talvez pela pouca ação do bicho homem, se consegue preservar melhor diversos monumentos. Mais preocupados em roubar o bronze dos crucifixos e argolas dos túmulos, os ladrões deixam em paz as esculturas, a arquitetura e, consequentemente, a História. São menos nocivos que alguns responsáveis por bens públicos, “artistas” sem talento e alunos mal educados. Manoel Dantas que o diga. O busto em sua homenagem em uma escola, que também leva seu nome, no bairro do Tirol (Natal – RN) transformou-se em insulto à memória do jornalista. Já a efígie em seu túmulo, no Cemitério do Alecrim, resiste bravamente há 65 anos.

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8 respostas a Turismo histórico-cultural e três velhos bigodudos

  1. Por favor, corrija-me se eu estiver a incorrer em erro, mas foi Natal (pelas mãos do Estado ou Município?) a primeira cidade a inaugurar uma nova modalidade em estátuas públicas, quando homenageou os reis que visitaram Jesus filho de Maria, algures na altura de Pirangi, na BR-101?

    Creio que trata-se da primeira estátua em FIBRA DE VIDRO que tenho conhecimento. Admito que meu conhecimento é infinitamente mais superficial do que o seu. Eu que sempre julguei que as estátuas tinham como utilidade primordial servir de sanitários para pombas-rolas.

    Mas a questão é que a durabilidade de uma estátua em fibra de vidro (ou seja lá o que for aquilo) é risível. Trata-se de uma estátua descartável? Homenagem com prazo limitado? Os barbudos merecem menos do que os bigodudos?

    E se uma ventania mais forte derrubar os reis magos? E se um grupo de vândalos ébrios inimigos das pombas-rolas decidir lhes prejudicar as vidas? E se um camioneiro sofrer um AVC e atropelar os pobres-ricos magos?

    Ah sim, estou muito feliz em começar a ver o resultado da sua investigação com o mestre Canindé Soares. Quero ver mais bigodudos(salvo seja)!

  2. Wolf, acho maravilhosa essa idéia do turismo na própria cidade. Nas minhas antigas colunas da Tribuna do Norte sempre falei sobre isso e há várias delas onde eu conto meus passeios e registro edificações, estátuas e outros elementos que sempre me agradaram, não somente em Natal mas em outras cidades nas quais vivi e habitei.
    Outra coisa da qual também gosto muito é a arte tumular, e sou conhecida em um determinado círculo – de genealogistas e historiadores – pelo grande prazer que tenho em visitar cemitérios. Tenho fotos espetaculares do cemitério da Consolação em São Paulo, um dos mais belos que já visitei; do jazigo da igreja da Misericórdia em João pessoa e também do cemitério do Senhor da Boa Sentença, na mesma cidade, além do cemitério de Olivedos-PB, um dos mais antigos da Paraíba. Destaque ainda para o cemitério de Mossoró e o de Lucrécia-RN, onde fotografei o túmulo de “Francisca Sofredora”, cuja imagem me veio com uma história…
    Ah, meu amigo, o mundo é uma coisa muito interessante mesmo. Mas é preciso ter olhos de olhar e juízo para entender e desfrutar.

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  4. Pingback: Canindé Soares » Blog Archive

  5. Pingback: Blog Memória Viva » Blog Archive » Há 107 anos, um outro acidente aéreo ligando Brasil e França

  6. Diego Souza disse:

    Caro amigo,
    Sou historiador e estou desenvolvendo um projeto de dissertação que tomará os monumentos como objeto de estudo. Fiquei muito feliz com seu domínio sobre a história desses personagens. Gostaria de conversar contigo, se possível. Acho que meu projeto pode te interessar e acho também podes me fornecer algumas impressões tuas.
    Se puder, me manda um e-mail.
    Abraço,
    Diego.

  7. Pedro Paulo disse:

    Caro Sandro Fortunato, Parabéns pela matéria dos três velhos bigodudos. Estavamos eu e minha filha Bruna Letícia fazendo um trabalho para sua escola e descobrimos está sua pesquisa de resgate aos bustos e estátuas de nossa cidade. Trabalho com turismo e fico muito interessado em trabalho desta natureza,apesar de fazer passeios nas praias como bugueiro esta parte histórica muito me interessa. Pedro Paulo.

  8. Pedro Velho de Albuquerque Maranhão disse:

    Olá, sou da quinta geração ascendente de
    pedro Velho. Fico grato por ter a oportunidade de ler essa matéria pois me esclareceu algumas questões a respeito de meu tataravô e seus irmãos. Parabéns!!!

    Pedro Velho.

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