Sympátheia

Vamos combinar: simpatia nunca foi o meu forte. Lembro de um encontro teosófico, há mais de dez anos, durante um carnaval, em que algumas pessoas disseram que eu seria eleito o Mr. Simpatia do evento. Comecei a rir, mas logo fiquei sem graça ao perceber que falavam sério. Sempre me considerei bem antipático e só naquela oportunidade entendi o verdadeiro significado da palavra simpatia. Eu me encontrava no meio de pessoas com as mesmas afinidades, era natural que nos atraíssemos, que correspondêssemos às expectativas uns dos outros, enfim, éramos pessoas simpáticas.

Esta semana, conversando com um amigo de família que me conhece desde criança, ouvi algo muito interessante: “Você é uma pessoa que agrada a poucos”. Para alguns, poderia parecer um insulto. Para mim, foi um tremendo elogio. A maioria das coisas que gosto é apreciada por poucos. Os temas que mais me interessam passam longe de uma mesa de bar ou de uma festa (a não ser, claro, se eu estiver entre pessoas que também os apreciem). Os tipos de literatura e de música que me interessam não são dos mais comuns. Também não me parece de bom senso “ir para a balada” e ficar discutindo Fellini, filosofia da religião, barroco na literatura brasileira, arte tumular e outros temas. Haja afinidade para aguentar isso. Para a maioria, sou o que se classifica como “um chato”. E tenho muito orgulho disso.

Para mim, chato é o tipo que trata com futilidade e superficialidade o mundo que o cerca. O que vai ao cinema ou a o teatro e só consegue dizer que gostou ou não do que viu, sem saber o porquê ou mesmo sem ter entendido algo. O que prefere abundar-se por horas na frente da tevê a passar alguns minutos na companhia de um bom livro. O que lê as fofocas na Internet para ter o que papaguear. Não sou simpático a esses tipos e vice-versa.

Não vai uma gota de pedantismo ou arrogância em meu jeito “chato” de ser. Muito pelo contrário. Também não me afino com gente egocêntrica, que acredita que só elas e uns poucos conhecidos façam algo que preste e que o resto do mundo tem obrigação de orbitar ao redor deles. Na verdade, tenho profundo desprezo por isso. Sempre achei as ideias mais importantes que as pessoas. E são mesmo.

Não faço questão de ser lido por milhares de pessoas. Se buscasse isso, certamente escreveria sobre outros temas. Gosto mesmo é de saber que meia dúzia lê, gosta, se afina e debate a respeito do que escrevo. Quanto mais, melhor; mas ainda prefiro a qualidade à quantidade. Tudo isso fica patente ao se ler os comentários deixados aqui no blog. Gente muito mais gabaritada, cheia de conhecimentos, bem articulada e que escreve bem melhor que eu. Gente que me ensina o tempo todo e a quem devo agradecer. Obrigado.

Vai longe o tempo em que eu queria ser um popstar. Atualmente, estou mais para escritor maldito. Espero que chegue logo a maturidade que vá me fazer tomar o caminho do meio, fazendo com que eu “venda minha arte” sem a necessidade de me tornar uma vadia barata e sem parecer alheio a meu sustento e dos que amo. Um vagabundo iluminado e “com algum dinheiro pra dar garantia”.

Portanto, aguentem-me apenas os que assim desejarem, os que se afinarem e simpatizarem com minha chatice. E sintam-se muito à vontade e livres para opinar e enriquecer este espaço.

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10 respostas a Sympátheia

  1. Daliana disse:

    Posso me considerar uma desses POUCOS que você agrada…

    Um grande abraço

    Daliana Cascudo

  2. Carol kyze disse:

    Chatinho do meu coração!
    hauhauahau
    beijos!

  3. Ha! Eu também sou antipática! Sou chata! Tu também é chato pra caramba! Nunca mais a gente se encontrou pra ser antipáticos juntos! E dia 10 é teu aniversário, tou lembrada! Chato!

  4. Ahahahah (risada maquiavélica)… Finalmente, alguém reconhece a minha NATUREZA!

    Sim, ser-se este tipo de chato é muito ingrato. Dizer piadas que só MEIA DÚZIA de chatos compreendem.

    Ir a algum lugar com amigos e NÃO FICAR comentando sobre as pessoas (pobres outros) ao redor.

    Chatos do mundo, uni-vos! Juntos somos MUITO MAIS chatos! Nosso tipo de chatice ainda há de contagiar os simpáticos.

    Ou não… seremos sempre minoria?
    SALVE, SALVE ANTIPATIA!

    (era excusada a rima, eu sei…)

  5. Wilson Natal disse:

    Sandro Pode dizer que eu também sou un chato! Mas, que culpa tenho eu se vejo em tudo um motivo para rir. E se me divirto com a minha desgraça, por quê não com a dos outros?

    Então, vamos lá: Semelhante sempre atrai semelhante. Portanto, além de nós mesmos a encher nosso próprio saco, outros tambem virão a enchê-lo e nós retribuiremos. Falar mal de nós é coisa dos opostos, visto que os opostos não se atraem, e sim, se distraem e se traem…
    Por isso Sandro vá em frente no “tô nem ai” vivendo com os seus semelhantes para fazer os opostos ficarem indispostos.E é
    preferível ser um “chato” entre os seus semelhantes do que um mala “pentelho” entre os seus opostos ou seria opostas?… Ou bostas?
    Vai em frente e fica na sua.
    Agora você, na carne de uma vadia barata, seria uma figura SYMPATHETICA. Não haveria Pathos e nem gansos que fizesse alguém te aturar… (Eu falei que isso ia dar merda! Isso ia dar merda! Isso ia dar merda!… E DEU!…)
    Abração deste Pathos-Fu que vive fazendo fiofó doce para Sado e Masoch. Afinal quem nasceu para Calígula/Messalina, não tem saco pra dar uma de Eletra, Edipo ou Antigona. Nem saco para Sapagay ou gaypathão.Quero mais é movimento!

  6. karla disse:

    olha..então eu não sei se por simpatia, afinidade ou o que mas quando eu conheci voce sinceramente fiquei surpreendida..
    eu meio que perdida no onibus rio-são paulo e voce me ajudou e foi incrivel..
    e no fim ainda me disse..karla, viaje bastante, porque sempre vale a pena..
    eu da minha parte quero continuar lendo o sempre algo a dizer e dizendo que há muito mais nas minúcias da vida do que nas linhas grandes e mal ditas…
    porque ser maldito eh esplendoroso eheheh…sejamos todos então!
    bjao

  7. joão disse:

    Sandro.
    Deste jeito você vai acabar escrevendo um novo TRATADO GERAL DOS CHATOS, pra desespero de Gulherme de Figueiredo. Na minha opinião ser chato é muito relativo, eu por exemplo tenho consciencia de quando sou chato. Mas em muitos casos não, noutros desconfio. A impressão que tenho é que tudo depende do ponto de vista, em certas circunstancias(dependendo do observador), o sujeito é chato ou não. Simpático ou não antipático. Sem querer no relativismo, que nada explica, eu acho que é muito relativo mesmo.
    joão antonio

  8. Sandro Fortunato disse:

    Pelo jeito, conheço muita gente “chata”. E parece que todos se orgulham dessa condição. Não é para menos. Esse tipo de “chato” é algo cada vez mais raro. E o que é raro, geralmente é mais valioso.

    Aproveito para agradecer a todos que se manifestaram por e-mail e aos que correram para fazer novo cadastro e continuar recebendo as mensagens sobre as atualizações do blog. Muitos nem precisavam fazer isso. Mostram-se presentes e nem seriam cortados. 🙂 Gostei. Ganharam ainda mais pontos comigo.

  9. Por uma terrível coincidência dos chatos de plantão, eu postei hoje um textinho em que falo de (minha) chatice.
    No meu caso, a pessoa que me elegeu não leva em consideração essa minha qualidade porque se trata de minha filha. Ela é quem canta que sou e melhor mãe do mundo, que não sou chata, só mais ou menos, na verdade querendo dizer que sou chatérrima. Agora vc descobriu meu segredo, exposto com metáforas em: Pecados, descobriu quem me alegeu…
    “Eu fui eleita a melhor
    A que é não é chata, só mais ou menos
    A que ameaça, mas não bate
    A que mata e cura…).
    Vá lá em casa (blog) e leia mais. Um beijo.
    E se vc é chato ou não, que importa a quem? Vc é um cara lindo, e chato são as pessoas citadas por vc, as que adoram o Galvão Bueno por exemplo…

  10. Renata Silveira disse:

    Como sou chata a começar na ponta do meu nariz empinado… hehehe, compactuo com a sua visão das coisas. E por falar em simpatia, mexendo nos livros encontrei todos os da Blavatski (nem sei mais como se escreve) e lembreid e vc. Tenho um livro, que não sei se te interessa, pois é uma segunda edição e não primeira… Mas é de 1939 e está precisando de “carinho”… É “A Coluna Prestes”, com prefácio de Jorge Amado. Foi “herança” do meu falecido avô comunista Renato. Sei que vais voar dia 9… Eu arrasto-me neste marasmo até dia 21. Vamos combinar um café…
    Bjo
    Renata

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