Natal dos arranha-céus

Os arranha-céus começaram por fixar-se definitivamente em Natal. Primeiro vieram tímidos e em pouco número. Isto há trinta anos. E o que inaugurou a série, na esquina da Rua Juvino Barreto com a Avenida Deodoro da Fonseca, era um verdadeiro monstro de aço, para os natalenses daquela época. Os seus dois prédios, que dominavam inteiramente a cidade, puseram em alvoroço os habitantes assombrados que prediziam a queda violenta e inopinada desse precursor das alturas.

Mas o receio aos poucos foi desaparecendo. Compreendeu-se afinal que o espaço era estrito e grande a população que sempre aumentava.

Depois surgiu um colosso de mais de 15 andares. E tempo correu sem que outro empreendimento notável viesse surpreender a cidade. Parecia que o estacionamento era para sempre. E cada pessoa que transitava pela Avenida Deodoro não deixava de elevar a vista até o píncaro do cimento armado.

Entretanto, nesse ínterim, Natal crescia de maneira fantástica.

Era a vida em toda sua pujança. O progresso que caminhava assustadoramente. O dinheiro que vinhas às mãos cheias.

Deu-se então início aos arranha-céus propriamente ditos.

Algum proprietário mais ousado contava em vinte o número dos pisos superiores do seu prédio. Um outro, entusiasmado e cheio de amor próprio, erguia, sobranceiramente, as colunas de cimento armado até muito mais alto, numa bacanal imensa de notas em profusão…

E o aço das construções principiou por querer beijar as nuvens mais altas.

E lá embaixo, nos precipícios escuros e quadrados, vertiginosamente, vêm subindo os elevadores, numa carreira louca de cabos torcidos, como se demandassem o infinito…

O texto acima não é meu. É de Luis Lélio. Falava de São Paulo e foi publicado em janeiro de 1929 em uma edição da revista Cruzeiro, que não havia ainda completado dois meses de lançamento. Mudadas as referências e atualizada a ortografia, o texto serve para a Natal de hoje.

Os prédios que cito realmente existem. São o Chácara 402 (assim, com número; não se assustem os de fora) e o Riomar. Foram construídos na década de 1970, mas quando meus pais se mudaram para Natal, em 1986, eram ainda os únicos residenciais com mais de dez andares. E reinaram assim por muitos e muitos anos. Fazia frente a eles somente o antigo Hotel Ducal (já Luxor em meados dos 80), onde moramos antes de mudarmos para um “prédio” de quatro andares (um pequeno subsolo onde fica a garagem, uma loja no térreo e dois andares de apartamentos), o primeiro de uma construtora que estava nascendo naquela época.

Hoje, 23 anos depois, a mesma construtora está terminando, também em Natal, o maior prédio residencial do país. A aberração, como costumo chamá-lo carinhosamente, pode ser visto de vários pontos da cidade. Um detalhe: ele está encravado em “um buraco”, numa baixa, bem no início de uma ladeira muito íngreme. Não fosse isso, pareceria ainda maior.

São 43 andares. Quatro somente de garagens, dois com áreas de lazer, 34 andares residenciais (apenas um apartamento por andar, claro!) e, coroando tudo, um triplex com heliporto. Mas há outros detalhes bem mais assustadores. Apesar das centenas de prédios que apareceram nas duas últimas décadas, Natal ainda é uma cidade bem “aberta”. Os prédios guardam certa distância um dos outros. Como esse monstrengo é bem maior que seus vizinhos de 20 ou 30 andares e nem é tão largo quanto eles, se destaca ainda mais. De longe, parece uma imensa torre de celular.

Lembro da primeira vez, há uns 10 ou 12 anos, quando entrei no apartamento de um amigo, então novo rico, no bairro de Lagoa Nova. Tinha lá seus 30 andares e ele morava ali pelo vigésimo. A primeira coisa que percebi foram as janelas fechadas. Todas. Perguntei o porquê e ele respondeu abrindo um pouco uma delas. O barulho do vento era terrível e só os móveis não voavam. Acostumado com aqueles corredores de prédios, construídos parede a parede, em Copacabana, eu nem imaginava algo assim: um predião no meio do nada, resistindo bravamente ao vento, de onde você pode apreciar toda a cidade, desde que através do vidro. Agora imagine um de 43 andares nessa situação.

Foi-se o tempo em que, em tom de pilhéria, eu dizia que se podiam contar os prédios de Natal nos dedos de uma das mãos e ainda sobrava. Hoje, tenho saudades daquela época. Não vejo necessidade alguma de se construir algo desse tamanho. Ainda mais para se morar! E se há algum motivo para isso, certamente é o de elevar ainda mais os egos de seus moradores. No diz-que-me-diz durante a construção, comenta-se que entre os compradores de alguns apartamentos estão Pelé e Ronaldinho que, óbvio, jamais irão morar em Natal. Mas quantas pessoas podem comprar um apartamento desses? E para quê?

Natal tem o maior cajueiro do mundo (que não fica em Natal), a maior estátua (inacabada e que também não fica em Natal), o maior carnaval fora de época (o que não deveria ser motivo de orgulho), o maior shopping com área coberta (com mais garagens que lojas), o maior prédio residencial e, sem dúvida, a maior necessidade de ser maior em alguma coisa. Deve ter herdado essa mania dos americanos, assim como o falso moralismo. Poderia ter herdado o amor à própria cultura, mas se isso tivesse acontecido, provavelmente o Rio Grande do Norte seria o 51º estado americano. E tentaria tomar todo o Nordeste e mais o Tocantins para ser “o maior estado americano não contíguo”.

O que me assusta nesse crescimento de Natal é que ele chegou tarde (se comparado a outras cidades quatrocentonas), é exagerado, descontrolado, sem sentido e parece não ter aprendido as lições dos municípios que incharam há muito mais tempo.

Mas a mania de grandeza não é exclusividade da capital potiguar. Nisso de ser o maior em alguma coisa, se inventa de tudo. Coloca-se uma antena de TV em cima de um prédio menor e pronto: ele passa a ser o maior. Ou se diz que ele é o maior de frente para o mar. Ou o maior com azulejos azuis. A aberração de Natal é tida como o maior residencial do Brasil mas, neste momento, pelo menos outros dez prédios mais altos estão sendo construídos no país. Quase todos em São Paulo (que surpresa!). Quando todos estiverem prontos e somados aos já existentes, residenciais e comerciais, o de Natal não ficará entre os 30 maiores do país. E também será apenas mais um entre mais de três dezenas com mais de 40 andares. E que ninguém invente de mudar mais uma vez o plano diretor da cidade – que hoje não permite que se passe de 30 andares – para se tentar, de novo, ser o maior em alguma coisa!

Isso não para. E hoje anda em velocidade muito maior. Quando o texto de Luis Lélio foi escrito, 80 anos atrás, São Paulo se admirava com a construção de seu primeiro arranha-céu, o Martinelli. Ele é somente 8 metros menor que o prédio de Natal. E há 50 anos parece um anãozinho ao lado de seus vizinhos, o Bando do Brasil e o Banespão. Isso não para!

Que tal mudar um pouco o foco e tentar ser a cidade mais limpa do Brasil ou do mundo? A cidade mais silenciosa, a que mais respeita o meio ambiente, aquela onde mais se anda a pé ou de bicicleta, a mais segura, a mais cultural, a melhor para se viver? Juro que me mudo para cá de novo. Para morar numa casinha com quintal.

* * * * *

Panorâmicas recentes de Natal
O rio e o mar vistos de um prédio no bairro de Petrópolis
Avenida Prudente de Morais, bairro de Lagoa Seca
Natal vista da Zona Norte

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8 respostas a Natal dos arranha-céus

  1. É capaz de ser herança cultural portuguesa (sem ofensas, malta). Aqui agora tá na moda candidaturas ao Guiness. Vale até maior pastel de nata do mundo, coisas do gênero.

  2. Renata Silveira disse:

    Natal é hoje uma cidade sem caráter. Ou terá sido sempre e eu nunca havia reparado nisto? Depois que vi a “obra” da nova “casa da moeda”, conhecida como Universal do Reino de Deus, entendi que planejamento e limites são conceitos desconhecidos dos que fazem crescer a cidade.
    Lamentável constatar que não há nada histórico nem tradicional em Natal. E as belezas naturais estão sendo escondidas por pontes, prédios e hoteis…
    De que vale ter o “maior cajueiro do mundo” se em poucos anos ele vai parecer apenas o jardim dos arranha céus ao redor?

  3. Wilson Natal disse:

    Não sou contra verticalizações. Sou contra verticalização desordenadas que agridem o meio-ambiente e que tiram toda a visão do entorno da cidade.E perder a paisagem vai ser traumatizante, passado o “fogo” da dita verticalização. Acredito em construções em harmonia com o ambiente. Logo vc terão ai o lindo mar e rio como um tremendo “cagão” – esgoto, fossa. Será somente uma cidade que não respeitou a si mesma. E os turistas vão chegar e partir em direção de Mossoró, Macau e outras cidades. Por que eles, como eu, para ver espigões, fico em casa ou vou a Nova Iorque.
    Abração, Wilson.

  4. Patrício Jr disse:

    Trabalho com publicidade e pra mim é excelente que a cidade cresça. Mas o que percebo nos últimos anos é uma pressa em ser grande (desnecessária) e uma terrível tendência a passar por cima de tudo para conseguir isso. A Operação Impacto é uma das provas. Implodir Machadão e centro Administrativo tb. Tëmos nas mãos a chance de crescer planejadamente, com ordem, sem prejuízos. Mas a pressa impede de ver esse detalhe, cega os mais gananciosos. Uma pena. Temo que nossa cidade seja extremamente explorada e depois abandonada. Ninguém aqui conhece Recife não? Pois é, parece que não…

  5. marcia disse:

    verticalização é o inferno dos infernos. lembra quando em natal ainda fazia frio?
    por uma cidade horizontal!
    🙂

  6. anuska disse:

    Eu amei esse post … concordo com você em tudo!!! …

  7. mayhara disse:

    meu querido amigo de longe. vim para dizer que adorei aquele post sobre “é uma questão de ponto de vista”. disse algo semelhante, do que vc disse sobre as imagens, mas falei sobre as minhas letras, lá no blog. fechei a bagaça. outra coisa..
    gostaria muito de ler algo sobre geração beat, aqui no seu blog.. ou uma dica de home page interessante p saber mais sobre essa época.. to lendo aquele livro, “on the road” (mais 45 ao mesmo tempo, por isso da demora)… então.. eu to me deliciando super… queria sabe mais algo a respeito
    beijossssss

  8. Rafael disse:

    A cidade tem crescer, pra zona norte que só agora vai ganhar o primeiro edificio!

    Tímido, com apenas 15 andares!

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