Quando a chuva passar

Durante essa chuva que passo em Natal, venho me abrigando em salas de teatro. Em raras ocasiões, nas de cinema. Já não sei quanto tempo dura, mas tenho aproveitado para pensar e repensar a vida. “Você nunca cansa de pensar?”, me perguntaram uma vez. Há outra coisa útil a se fazer?, me pergunto sempre.

O tempo da chuva, com Henrique Fontes e Paula Vanina, faz com que as pessoas menos acostumadas a isso também o façam. E de uma forma quase traiçoeira, pois pega a platéia desarmada pela comédia. Enquanto esperam a chuva passar, os personagens começam a se analisar. Se alguém não embarca nas brincadeiras, não se identifica com as frases de efeito, muitas bem conhecidas, a coisa se torna mais enfática. Quando todos acham que estão ali apenas para se divertir e esquecer o mundo lá fora, são confrontados com uma pergunta do tipo: “Quem você quer enterrar?”. Sempre há algo ou alguém. Uma pessoa que se deseja esquecer, um segredo a esconder, uma condição difícil de aceitar.

Os mais tímidos e reservados detestam quando as luzes se acendem e se descobrem parte da peça. Mas ninguém é forçado a nada. Alguns até aproveitam a oportunidade para ver o que há no caixão que foi trazido pela chuva. Pela cara deles ao descer do palco, acho que viram aquilo que mais desejam enterrar ou algo que, sem querer e por não pensar, acabam enterrando. Entenda como quiser.

Certo mesmo é o aforismo dito por um dos personagens: “Inocente, a gente nem sonha com a perda que começa no encontro”. É assim em qualquer situação. O fato de ter começado já indica que haverá um fim. A peça para a qual nos aprontamos tem seu fim determinado na hora em que começa. A paixão também. A vida e tudo mais nela.

Parece-me que o principal convite de O tempo da chuva é para que possamos nos despir dos personagens que criamos, sair dos abrigos que construímos para vivermos a vida lá fora. Pensando um pouco mais, essa vida imaginária faz parte da vida real. E até quando se pretende viver dessa forma? Afinal, essa história também vai chegar ao fim. Assim como a chuva, na vida, tudo passa.

A decisão de quando tomar uma atitude fica por conta de cada um: se agora ou quando a chuva passar. Sem medo dos ses. E se…? E se…? Melhor acreditar no momento de coragem da personagem – que decreta: “Eu vou me arrepender, mas não posso” – e seguir em frente.

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