Queda e queda do Guaporé

Domingão, de chuva depois sol, último antes de 2009 começar de verdade. Cometo a agora incomum ação de comprar um jornal. Culpa de Carlos, o Magno, que publicou nota comentando a respeito do livro que eu e Canindé Soares estamos fazendo. Para facilitar a vida de nossos biógrafos, vou clipar o texto e me deparo com uma foto imensa do Museu Nilo Pereira – também conhecido como Guaporé, que fica no município potiguar de Ceará-Mirim – tomando a primeira página d’O Poti. Guaporé em abandono, quase ruínas era a chamada. A matéria falava sobre o estado lastimável do prédio construído em meados do século XIX.

Também estive no Guaporé. Veja algumas fotos que fiz por lá e depois continuamos a conversa.

Vista interna do sótão.

Cômodo do andar superior com janelões bem danificados servindo de varal.
No piso, marcas circulares feitas com querosene numa tentativa de espantar morcegos.

Cama antiga, em exposição, servindo de varal para panos de chão.

Porta do andar térreo e sua peculiar tranca.
Carta, como outros documentos, danificada por traças.

Fotos, quadros e outros documentos.

Cacos de objetos artesanais guardados em um baú.

Estas são algumas das mais de 150 fotos – e nem são as mais chocantes – que fiz quando estive lá pela primeira vez. Isso foi em dezembro. Dezembro de 2003. Sim, dois mil e três. Naquele dezembro, visitei pelo menos oito museus em Natal e o Guaporé, em Ceará-Mirim. A escala de avaliação começava em “patético”, passava por “abandonado” e terminava em “isso é o que mesmo?!”.

A história começou com uma visita ao Museu Casa Café Filho e a constatação de que o acervo do único potiguar a assumir a presidência da República estava jogado às traças. Levei isso ao conhecimento de um jornal local que não se interessou pelo caso. Acabei publicando a matéria em página inteira, no mês seguinte, no Jornal do Brasil. O caso foi discutido pela Comissão de Memória dos Presidentes da República e o Iphan resolveu constatar, in loco, a gravidade do assunto. Depois disso, outro jornal de Natal demonstrou interesse pela seqüência de matérias relacionadas aos outros museus mas, como eu já esperava, o negócio esfriou e nada saiu. Cidade pequena, todo mundo se conhece, todo mundo é amigo, ninguém quer ferir suscetibilidades nem ser indelicado, sabe como é. Como eu tinha mais o que fazer, fui cuidar das minhas coisas e tocar minha vida em Brasília, onde morava desde 2001.

Passado pouco mais de cinco anos, eis o Guaporé em primeira página numa edição de domingo. Sinceramente, não vai aqui nenhuma crítica ao tempo que o assunto levou para ganhar a atenção de um periódico local. Como jornalista, poderia achar a matéria fria, mas como memorialista, me assusta a enorme possibilidade de vê-la reeditada daqui a cinco ou dez anos sem necessitar de grandes mudanças. Os anos de abandono terão aumentado, portas e paredes terão caído e talvez as traças tenham morrido de fome. De resto, é provável que tudo continue igual. Infelizmente. Espero estar errado, mas não apostaria nisso.

Que o jornalismo se apresse em fazer seu trabalho de registrar e denunciar. Que a História, com sua infinita paciência, possa utilizar as lições do passado para construir um futuro melhor. Pena que poucos saibam que só existe um momento certo para fazer isso: o presente. Até a lição ser aprendida, veremos muita coisa vindo abaixo.

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5 respostas a Queda e queda do Guaporé

  1. Ora, e mais essa agora…!

    Primeiro, o Tognolli alerta-nos que o Jornalismo Investigativo está morto.

    Depois, as sucessivas notícias de falências de jornais e outras publicações aqui desse lado do atlântico (Portugal, líder às avessas).

    Agora, o Sandro dá-me conta do estado lastimável dos museus, como consequência directa da decadência do Jornalismo.

    Em decorrência disso, sofre a História. Se costuma ser contada pelos vencedores, quem contará a dos abandonados? Ainda que tenham sido vencedores em outra altura!

    Concluo que, assim como o Sandro, mais vale ser repórter por conta própria (e assumir o ônu$ da escolha), mas contar verdadeiras histórias.

    Leitores? Há de aparecer sempre ao menos um interessado. Já “paga” o trabalho investigativo.

  2. Há um poema de Diógenes da Cunha Lima sobre o velho solar do Guaporé. E enquanto eu via as fotos da destruição, e ouvia mentalmente o poema, lembrei-me de todo o imenso acervo de memória que está sendo destruído, não pelas traças e cupins, mas pela ignorancia e insensibilidade de quem deveria tomar conta dele. Aqui na Parahyba, a situação é parecida em muitos lugares. Uma amiga que pesquisou no arquivo público estadual me disse que é lastimável o estado de conservação dos documentos, usados sem o menor cuidado por quem quer que chegue lá, e que fazem até anotações de esferográfica na margem dos documentos. É isso.

  3. Dinor Guinzani disse:

    Seria bom lembrar que essa questão de não comprometimento por ” não querer ferir sentimentos de compadres”, não existe só em cidades pequenas e de médio porte. Infelizmente, é um fato que podemos constatar tmbém nas grandes metropolis brasileiras, pelo menos aqui no Rio de Janeiro…sempre tem alguém que depende de outro ou deve favor a um terceiro que é amigo do fulano de tal e essa bola de neve parece crescer conforme o tamanho da cidade (rsrsrs)

    Bom, mas como já dizem, o nosso país é sem memória e parece não fazer nada para mudar este quadro.

  4. Sandro Fortunato disse:

    Morto, enterrado e já me fazendo descrer de reencarnação, MARCELO. É claro que ainda existe alguma resistência. Pequena em quantidade; grande em qualidade. Em 2008, vi memoráveis matérias de capa do Caderno 2, do Estadão, sobre temas que eu havia tratado no Memória Viva anos antes. Uma delas, um vespeiro no qual preferi não mexer, falava dos desdobramentos de uma história que eu conhecia desde 2003! O “jornalismo tradicional” parece ter aberto franca concorrência com a Justiça para descobrir quem é mais lento. Quanto a ser um repórter independente, o preço é mesmo alto (inclusive literalmente, porque você paga por seus custos de produção), porém, o retorno dado por um único leitor paga tudo. Nunca recebi salário que valesse isso.

    CLÔ, você tocou em pontos-chaves: ignorância e insensibilidade. Acredito que todos os males sejam filhos da ignorância. Inclusive a improbidade. Enquanto não matarmos a mãe, teremos que lutar com seus filhos. E ela é uma parideira medonha!

    DINOR, o rabo preso não é exclusividade de um lugar. Assim como essa cultura provinciana de cooperativismo sem vergonha. Quanto menor o grupo, mais evidente tal prática. Se cada um fizer sua parte, conseguiremos mudar esse quadro. Aí está o Memória Viva, há 11 anos, às vezes não tão firme, outras não tão forte, mas sempre presente, provando que esse é um sonho possível.

  5. Wilson Natal disse:

    Isso é um escândalo! E dos mais descarados que eu já vi! Onde estão as “lesmas” rastejantes do Patrimônio Histórico do Rio Grande do Norte? O que faz o Arquivo Público Estadual (Se é que aí existe um DE DIREITO e não de fato), que não está zelando pelo acervo do Estado? Que ainda não recolheu todo o acervo desse ex-museu? Que gente é essa que vê a sua própria história virando pó? Que municipalidade é essa que não cuida de um patrimônio que não é só deles, mas de todos? Será que as pessoas de Ceará-Mirim são tão covardes ou orgulhosas demais para pedir socorro, ou botar a boca no mundo? Que jornalismo é esse que, talvez “para não ferir sensibilidades” deixa de ser jornalismo e finge, “faz-de-conta” que é jornal. Mata-se a Hitória do Rio Grande do Norte, em pleno dia, diante do olhar indiferente da população. Que povo é esse que vê o seu passado desaparecer? Talvez seja um povo que, como a História do Estado, logo deaparecerá, perderá a própria identidade e não mais será lembrado. Matar a História é cometer genocídio. Desaparece a também a memoria de um Estado inteiro. Pena, pena mesmo. E espero que a História tenha por todas essa pessoas indiferentes a mesma desconsideração. Que sejam esquecidos, como se nunca tivessem vivido.
    Abração,
    Wilson.

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