A escandalosa e insuportável voz do silêncio

Admirados com a resposta de Jesus, ficaram em silêncio.
Lucas 20:26

Esperei passar um, dois, três dias. Resolvi não registrar, em foto, o evento a respeito do qual falarei. Preferi ilustrar este texto com a imagem acima, com o momento de uma missa na Igreja Matriz, em Natal.

Antes ainda, algumas observações para não ser mal interpretado. Nunca professei ou fui crente de qualquer religião. E, sim, desde muito jovem sempre me interessei pelo estudo delas. Nunca me atrevi a torcer por uma, da mesma forma que não tenho time de futebol ou partido político. Se há um tema com o qual costumo ser diplomático, este é a religião. Não tenho qualquer preferência. Costumo me chamar de Homem-Bule por me julgar de pouca fé. Adoro templos, principalmente os católicos e os budistas. Adoro rituais, mas não sou disciplinado o suficiente para praticar qualquer um. Não discuto com quem não sabe diferenciar alguém que possui sentimento de religiosidade de um crente seguidor de uma instituição religiosa. Aliás, não discuto qualquer coisa com quem quer que seja. É perda de tempo, de energia e quase sempre termina por fortalecer as opiniões que cada um já tem.

Independente do tema, não gosto de barulho e acho que reunião com mais de três pessoas já é tumulto.

Tudo posto, vou ao muro das lamentações.

Sou admirador das cidades que ficam vazias durante feriadões, principalmente nos barulhentos. Natal é assim no carnaval. Estando nela, pensei que fosse ter paz durante esses dias. Como de costume, programei livros e filmes e fui para “Olinda”… ó, linda, minha cama! E não consegui cumprir os rituais de leitura e assistência graças a um encontro “religioso” que acontecia no ginásio de esportes de um colégio próximo. Foi barulho, de sábado à terça, das 8h30 às 21h. Nem os vários prédios que formam um paredão ao redor daquele em que moro conseguiram me livrar da algazarra. Tratava-se de um encontro de uma ala da Igreja Católica Apostólica Romana. E foi um inferno.

Quatro dias de pandemônio para diabo nenhum botar defeito. Vá lá que ninguém estava enchendo a cara, se drogando, querendo comer todo mundo, mas, de resto, a barafunda era igual a qualquer aglomeração carnavalesca. Muito barulho e chateação para quem não estava disposto a participar da baderna.

Porém, o incômodo causado pelo barulho ainda era o de menos. As elucubrações a respeito dos aspectos do encontro é que tiraram meu descanso. Será que o respeito ao próximo, base comum a todas as religiões, foi banido por alguma encíclica papal e eu não fiquei sabendo?! Tudo bem. Continuo exercitando a paciência e a tolerância, além do que nem o papa nem o arcebispo estavam escutando aquela algazarra e não podem ser culpados por isso. Somos mesmo um bando de botocudos que carnavaliza qualquer coisa, mas… mas até a religião? E não estou falando das psicodélicas reuniões das chamadas igrejas neopentecostais, fabriquetas de loucos espalhadas a cada meio quarteirão. Falo de uma religião com mais de dois mil anos e com importância histórica em todo o mundo ocidental. Até ela se deixou levar pela histeria?

Reconheço que a contemplação não seja das mais fortes características dos ocidentais – muito menos dos brasileiros! –, mas não consigo admitir que pessoas se acreditem religiosas e pretendam ter contato com algo divino através de práticas tão confusas, tão dispersivas. Ou ainda que isso só seja possível (certamente com algo não muito puro ou elevado) pela histeria coletiva, magnetizadas pelos gritos de alguém ou por uma desordenada coleção de notas brutalmente arrancadas de instrumentos dos quais deveria sair alguma música.

Verdade seja dita, apesar do conhecimento e da prática do clero, o poder de concentração e a contemplação parecem não chegar aos leigos. E, para o Cristianismo, o silêncio parece não ter a mesma importância e funcionalidade que em outras religiões mais antigas. A palavra silêncio é encontrada muito pouco na Bíblia. No Antigo Testamento, quase sempre está relacionada à morte (ao silêncio que deve ser guardado em respeito ao falecido ou em sentido figurado, de algo que está morto e deve ser revivido pela fé). No Novo Testamento, aparece quase sempre ligada a sentimentos de temor ou de vergonha. É provável que estejam aí as raízes dessa necessidade de fazer barulho para tentar espantar o medo, a vergonha e a morte. Fazendo barulho, a pessoa não ouve sua voz interior, sua consciência, seus fantasmas. Esse tipo de encontro durante o carnaval talvez mereça mesmo o nome de retiro espiritual. Retira-se tudo o que há de espiritual e sobra apenas o profano.

Se eu fosse um seguidor da Igreja Católica Apostólica Romana e estivesse buscando uma conexão com algo divino, optaria por momentos mais calmos, como o da missa que fotografei. Escolheria um sábio e ético sacerdote, ouviria seus ensinamentos e provavelmente seguiria as palavras encontradas no livro das Lamentações (3:26): Bom é esperar em silêncio o socorro do Senhor.

Quisera fosse bom assim.

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7 respostas a A escandalosa e insuportável voz do silêncio

  1. dita disse:

    Concordo inteiramente com você,vale dizer que sou catòlica, não praticante,mas fico pasma de ver como està a igreja hoje.moro quase vizinha a uma casa do saloon e perco completamente a calma quando chega o fim de semana enão se pode ter um minuto de tranquilidade, pois a musica e os gritos comecam cedo e vai atè altas horas.acho que eles pensam que os santos são surdos.
    resultados da histeria: me afastei mais ainda.

  2. joão disse:

    Sandro.
    Eu graças a “Deus” tenho um botão interior que eu desligo quanto tem barulho por perto. Ouço mas faço de conta que não “ouvo”. E segue o baile.
    Mas sou solidário a você, barulho é barulho,venha do carnaval venha de culto religioso.
    a
    segue o baile
    j

  3. Meire disse:

    Sandro,
    Eu também tenho sofrido isso perto de casa. A gritaria é tanta, que um dia eu pensei que era briga e ia chamando a polícia achando que a mulher estava sendo agredida, tamanha era a afobação. Falta de educação, falta de respeito …

  4. alderico disse:

    ola sandro. bom dia..eu nem ouvi falar nessa algazarra.E julguei que tivesse nem carnaval em Natal. Moro em Mãe Luiza e só escuto barulho de carro quando eles passam aqui. Mas não duvido do que vc diz. Quando eu trabalhava no Rádio, deligava tudo o que era de rádios que o tecnico colocava na sala. E se ligasse, denovo, eu arrancava a fiação. Queria paz. Eu fazia redação de jornal. Gostava dos dias de domingo, quando não havia ninguem para chacoalhar. Agora, vc diz que nem em casa vc pode ter paz. Isso é verdadeiramente falando: Um Inferno. Nem precisa de Dante

  5. não gosta de barulho?!
    e o rock and roll? e o “gargarejo”?

    tu deverias mais é procurar no código civil sobre poluição sonora, níveis de decibéis e processá-los.

    demora uns anos mas ainda ganha§ algum.

    já o sossego…

  6. Ana disse:

    Adorei, Sandro! Vou botar link no meu blog, depois, posso?

  7. Sandro Fortunato disse:

    Pode não, ANA. DEVE. Aproveito para dizer que por falta de atenção não citei seu blog nesse texto. Faço-o agora: visitem o Psiulândia – http://psiulandia.blogspot.com. O link também já está aí ao lado, no meunu, na seção Blogs.

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