Os nossos dias serão para sempre

Fez sua última viagem, o vô Moacyr. Cumpriu seus mais de 32 mil dias sobre a terra até que seu corpo não tivesse mais forças Nas últimas semanas, o velhinho que via tevê ou dormia quase todo o tempo começou a sofrer. Foi um processo acelerado que o transformou. Uma prisão que, a meu ver, anunciava a liberdade que se aproximava. E foi mesmo assim.

Ele nasceu em um Rio de Janeiro ainda sem o Cristo Redentor.  Televisão, só surgiria quando ele já tinha 35 anos. Ele trabalharia nela por pelo menos duas décadas. “Olha o seu Moacyr!”, gritava alguém. À ordem, todos corriam para a frente da tevê. Como se transportado para um universo mágico, lá estava o vovô fantasiado de garçom, padre, fotógrafo, parente em casamento, membro da ABL, etc.

Viveu oito décadas e meia sem tirar o pé do Rio de Janeiro. No máximo, uma ida aqui ou acolá, de carro ou de ônibus, para alguma cidade dentro do estado. Até que finalmente voou, pela primeira e única vez, em direção a Natal, onde finalmente conheceu os três bisnetos e passou seus dois últimos anos. Não viu nada da cidade. Ficava em casa quietinho, incomodado com o vento que parecia entrar por qualquer mínima fresta da janela.

No final do ano passado, às vezes levantava no meio da noite e me dizia: “Você me chamou? Eu estava dormindo, mas alguém me chamou”. Eu sorria, respondia que não e sugeria que voltasse a dormir. Sabia que ele estava mesmo sendo chamado.

Em sua última noite próximo a alguém da família, foi de um hospital a outro, de madrugada. No primeiro, teve minha companhia. No segundo, já não pude ficar, pois ele daria entrada em uma UTI. Voltei no dia seguinte, quinta, para vê-lo sedado, já sem o sofrimento dos últimos dias. Sussurrei em seu ouvido que descansasse, ficasse bem, pois estávamos cuidando dele. Parece ter apenas esperado a última visita de meu irmão e minha mãe, hoje. Nem bem saíram do hospital, vô Moacyr se foi.

Junto com o sol, neste sábado de carnaval, baixou serenamente, silenciosamente, em paz. Colocou o último ponto no livro de seus dias.

Descanse, vô.

Mais:
Vô Moacyr – 85 anos
Vô Moacyr versão 8.8

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5 respostas a Os nossos dias serão para sempre

  1. Wilson Natal disse:

    Chega um momento em que a gente se despe do egoísmo e deixamos a quem amamos partir. Então, vamos nos acalmando e percebemos que a morte é um renascer às avessas. O momento é triste. E choramos quando alguém parte. Sofremos. Mas sempre fica a esperança do reencontro. Enganam-se aqueles que pensam que somos pó, que do pó viemos e a ele retornamos. Somos Eternidade.
    Sandro, muita paz e tranquilidade. Uma vida cumpre a sua trajetória, a nossa continua. Vidas se cruzam, vidas se afastam, vidas se unem. Nada é por acaso, nada continua sem as diretrizes da sabedoria divina. Deixe o teu avô partir, que não fique no meio do caminho por causa dos egoísmos de amor. Dê a ele a liberdade de amor para que entre em grande estilo na Eternidade.
    Abrabeijos,
    Wilson
    Tô contigo e naõ abro!

  2. Márcia disse:

    Sei que você deixou, mas ‘tamos, contigo, sim.
    Beijo,

  3. Daliana disse:

    Sandro:
    Acima da dor da ausência existe a felicidade de você ter convivido com uma pessoa maravilhosa como seu avô.
    Um grande abraço
    Daliana Cascudo

  4. Dinor Guinzani disse:

    Sandro,
    Lembro com muito carinho do seu avô, o seu Moacyr. Sempre foi muito gente boa. Talvez, depois do Lima Barreto, tenha sido o morador mais conhecido da nossa antiga rua, pelo menos de forma positiva (rsrs). Afinal, era comum ouvir aquele comentário: ” ele aparece na televisão”, ou algo parecido.
    Você registrou uma frase que lembro ter ouvido várias vezes em casa, quando ainda criança, e com certeza esta frase ficará na memória de todos aqueles que o conheceram:
    “Olha o seu Moacyr!”,

    Ele deixou de aparecer em nosso mundo e agora passa a aparecer em um “mundo” (lugar, algo ou dimensão) muito melhor que o nosso!

    Talvez, lá eles estejam dizendo:
    “Olha o seu Moacyr!”,

    Um grande abraço!!!

  5. vitoria lima disse:

    Bonita despedida do seu avô.
    Com certeza ele gostou dessa carinhosa conversa. Última conversa?
    Que nada!
    Você ainda vai conversar muito com ele! Cada qual do seu lugar, do seu plano, dimensão.
    Vitória Lima

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