Às vezes famosos, quase sempre esquecidos

A primeira estátua e o primeiro busto dos quais tenho lembrança… na verdade, acho que não tenho muita lembrança. Sei que os vi em alguma praça no bairro carioca do Méier. Provavelmente foi um busto do Barão do Rio Branco ou de Aristides Caire. O primeiro, todos sabem quem é; o segundo, a maioria nunca deve ter ouvido falar. Pois é. Esta é a dura vida dos homenageados com bustos ou estátuas. Às vezes famosos, quase sempre esquecidos.

De forma desorganizada e sem qualquer método, coleciono estátuas e igrejas há mais de vinte anos. Por onde passo, vou fotografando e guardando. Isso começou bem antes de eu saber que um dia me assumiria memorialista. Apenas tinha a intuição de que, um dia, aquilo serviria para alguma coisa.

De volta a Natal, começo a pagar uma dívida que sentia ter com a cidade. Uma das formas de pagamento está sendo feita por um trabalho em parceria com Canindé Soares. Juntos, estamos conhecendo todas as personalidades que, em algum momento, mereceram uma homenagem em forma de efígie, busto ou estátua e que hoje, quase em sua totalidade, são ilustres desconhecidos.

Apesar de ser uma cidade quatrocentona e de ser a terra de Câmara Cascudo, grande estudioso de cultura brasileira, Natal não é conhecida exatamente por ser cuidadosa com sua História e sua memória. Como disse o próprio Cascudo: “Natal não consagra nem desconsagra ninguém”.

É verdade. Estátua mesmo, de corpo inteiro e em local aberto, por enquanto, só encontramos três em toda cidade: de Augusto Severo, de Câmara Cascudo e de Dinarte Mariz. Esta, a caçula, tem pouco mais de seis anos e eu nem conhecia. Aliás, pouca gente conhece. Está em uma junção de avenidas de alta velocidade. Um dos piores locais para se colocar uma estátua. Há ainda pelo menos outras duas, no Cemitério do Alecrim, mas falarei a respeito delas em outro texto sobre arte tumular.

Se há mais bustos, estes também não são tantos. Algumas vezes, o trabalho artístico e de fundição deixam muito a desejar. A conservação nem se fala. Placas, letras, pedestais em mármore e outros detalhes são roubados todo o tempo. Assim, os bustos já escondidos e pouco vistos acabam sem identificação.

Outra triste constatação é que nem as praças são identificadas. Só as maiores, mais centrais e que tenham recebido alguma atenção recentemente têm placas como a Praça Cívica Pedro Velho e a Praça Augusto Severo. Muitas vezes, moradores dos arredores não conhecem a denominação desses logradouros e começam a dar outros nomes. Na Praia do Meio, a antiga Praça dos Heróis, atual Miguel Carrilho, é mais conhecida como Praça dos Pescadores. No bairro de Areia Preta, uma outra é conhecida por Praça Nossa Senhora de Lourdes, por ficar ao lado da igreja que tem essa denominação. Na verdade, se chama Praça Padre João Maria. O busto em homenagem ao religioso que existia nela foi depredado e arrancado há pelo menos dez anos. Outra curiosidade é que, no centro da cidade, existe outra Praça Padre João Maria, esta bem conhecida e com um busto do padre em local menos acessível. Bem próximo, outro tributo curioso. Uma personalidade estrangeira sem qualquer ligação histórica com a cidade tem busto e praça com seu nome: John Kennedy.

Em escolas públicas e particulares, autarquias e outras instituições, encontram-se outros bustos e efígies. Todos mais ou menos esquecidos, com seus olhares perdidos no tempo, testemunhando mudanças, lembrando de seus tempos gloriosos e dos motivos que os tornaram imortalizados em pedra ou metal. Calados, olhando mais do que são olhados, acabaram chamando nossa atenção e logo estarão reunidos em livro e também em uma exposição. Será uma reunião de políticos, militares, empresários, religiosos e intelectuais, de várias épocas, como colunista social nenhum jamais sonhou. Desde já, estejam todos convidados.

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5 respostas a Às vezes famosos, quase sempre esquecidos

  1. Ana disse:

    Grande projeto, Sandro! Deveria ter uma desses em cada cidade do Brasil!

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  5. Evandro disse:

    Gostei de seu artigo. Devo acrescentar apenas que a busto que vc se lembra é realmente do Dr. Aristides Ferreira Caire que também dá seu nome a uma das mais importantes ruas do bairro do Meyer.
    O doutor Aristides foi médico famosíssimo no Rio de Janeiro nos idos do início do século 20. Faleceu em 1924 vitimado por uma enfermidade consumptiva que nunca foi diagnosticada.
    Por ocasião desta funesta data TODOS os jornais do rio estamparam em 1° pagina editais como: Morreu o pai da pobreza.
    Conta-se que o estimado médico foi levado a pé desde sua casa no Meyer até o Cemitério do Caju por enorme multidão.

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