Quando a maré encher

Na terça, tive dois encontros com o Potengi. O primeiro foi logo pela manhã e começou por volta de 9h, no cais do Iate Clube de Natal. Dali partiria o barco-escola Chama-Maré levando uma turma do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente – Idema, na qual eu estava a convite de Kalina, que ganhou pontos comigo pela feliz ideia.

Enquanto aguardávamos o barco chegar do primeiro passeio, fiquei fotografando as imediações. Maré baixa, jangadas e pequenas embarcações descansando na areia, esperando a maré subir. Pouco adiante, as embarcações do Iate Clube pairando placidamente nas águas do Potengi. Retrato fiel a mostrar que para o mais abastado há sempre a possibilidade do mar aberto, da liberdade de ir aonde quiser, na hora em que achar melhor.

O passeio, de aproximadamente hora e meia, é uma grande aula. O catamarã vai em direção à Fortaleza dos Reis Magos, passa sob a Ponte de Todos, faz a volta, ladeia a praia da Redinha e segue até a ponte de Igapó, de onde retorna ao ponto de partida. Monitores de diversas áreas se revezam em explicações sobre o ecossistema e a História da cidade. Poesia, literatura e música dão um tom mais leve à exposição. Linda Baby, o indefectível hino a Natal, de autoria de Pedrinho Mendes, é tocado várias vezes: Essa é uma terra de um deus-mar/ De um deus-mar que vive para o sol/ E esse sol está muito perto daqui.

Era outra a música de Pedrinho em minha cabeça: Esquina do Continente, na qual ele canta belezas que hoje já não podem ser vistas. Senti-me em missão de reconhecimento. Duzentas fotos para pensar em como captar melhores imagens na próxima vez. Memorialista, estava mais interessado no crescimento da cidade, nas mudanças e, principalmente, no que ainda pode ser visto da antiga Natal. Construções centenárias que, pela primeira vez, via daquele ângulo, estando no rio que, eu adolescente, sonhava atravessar a nado. Já naquele tempo, os esgotos da cidade ali despejados faziam disso uma péssima idéia. Sobrou-me juízo para não tentar a aventura.

O segundo encontro com o Potengi, no dia de ontem, se deu no final da tarde. De certa forma, ele veio a mim. Estávamos, eu e Canindé, mais uma vez na comunidade do Maruim, quando fomos alertados sobre a cheia do rio. Isso acontece com freqüência, não precisando da ajuda das chuvas. A água sobe e invade as vielas e casas do Maruim. Em determinado ponto, é formado um pequeno lago de esgoto. As crianças, inocentes e sem opção, transformam o local em piscina. Com direito a  biquínis, saltos, gritaria e todas as doenças possíveis de serem contraídas em uma situação dessas.

A cidade que pretende gastar um bilhão e meio de reais para construir um bairro que dê suporte a, no máximo, cinco jogos da Copa de 2014 é a mesma que não consegue retirar algumas poucas famílias de uma área como o Maruim e dar a elas um mínimo de infraestrutura para viverem em condições que possam ser chamadas de humanas.

Quando recebem a visita do Potengi, as crianças não precisam pegar a água que brota em um buraco para se banharem como cavalos. Elas ganham uma pequena Veneza de esgoto e o banho vira festa. Nessa hora, a música muda. Entra aquela, nada romântica, lembrando que essas mazelas fazem parte do dia-a-dia. Banheiro, cama, cozinha no chão/ Esperança, fé em Deus, ilusão/… Tomar banho de canal/ Quando a maré encher. Esse é um pedaço da Linda Baby que ninguém quer ver.

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2 respostas a Quando a maré encher

  1. Wilson Natal disse:

    Volto a repetir: Sair de Sampa para ver prédios, fico por aqui mesmo. Prédios temos aos montões!
    Não sou contra o crescimento de uma cidade. Mas sou contra cidades que crescem desordenadamente sem um planejamento de saneamento básico.Coisa que hoje não mais deveria acontecer e acontece.
    Natal tem a chance de crescer usufruindo esses planejamentos, ter uma verticalização harmônica que não afete o meio ambiente.
    Sabemos também que a tendência de toda cidade é crescer e que é necessário ter programas antecipados que dêem força positiva a esse crescimento.
    Uma boa administração corrige os erros do passado e planeja o futuro da cidade.
    Que Natal cresça, prospere. Mas que não perca as belezas naturais. E que essas belezas não sejam apenas privilégio de uma minoria.
    Morre o Potengi, morre a cidade. Ela vira um esgoto a matar a população ribeirinha.
    Uma cidade é passado, é o agora e é futuro. Não se desmembra a História.
    Mas, parece, neste país é tradição fazer tudo pela metade; resolver problemas no momento em que aparecem e nunca prevenir…
    E o povo aceita passivo os desmandos, sem sequer espressar indignação, deixando as soluções a cargo da Providência Divina.
    Eu ainda sou otimista. Quem sabe um dia a gota que faltava transborde o copo…
    Abração.

  2. Marcia disse:

    Tenho acompanhado os seus textos e achei interessante a cadência que eles tomaram… O tema ver/não ver está implícito desde a sua última crônica (estou sentindo falta delas). Fiquei pensando na questão do ver como a leitura de mundo que cada um de nós faz diante da vida; as pessoas leem o mundo do modo como interagem com ele, seja de forma superficial seja de forma perversa , seja de forma intensa… Penso que muitas vezes as pessoas leem o mundo como se vissem os fatos ou situações de acordo com suas emoções, sentimentos ou experiências de vida. Na última crônica, por exemplo, o que distorce a realidade é o uso da cola; a visão é distorcida pelo efeito alucinógeno. No entanto, por razões várias, não precisamos recorrer à cola para ter essa visão distorcida da realidade. O último texto refere-se a dois momentos da maré, palavra que, segundo o dicionário tem como um de seus significados “fluxo e refluxo de acontecimentos”. Pergunto-me, se no caso dos moradores do Maruim, eles esperam algo com a chegada da maré alta, além de água podre; o que acontece é que, surpreendentemente, eles transformam aquele momento em diversão, com direito a biquine, pulos, banhos…acostumaram-se a ter uma visão distorcida da dura realidade para não sofrerem? Defesa, talvez? Que outras comunidades acostumaram-se com tal visão distorcida? É difícil não pensar nas autoridades, que não querem ver propositadamente. Negam simplesmente a realidade, talvez nem a enxerguem. Penso também, como exemplo da questão do não ver, o sistema de aprovação automática adotado no Rio de Janeiro. Muitos alunos foram aprovados sem ao menos saberem ler, literalmente, como se esse processo de limitação de leitura de mundo fosse alimentado pelo próprio sistema de ensino, que se ocupa com as estatísticas. Para ampliar a leitura de mundo e ver – não apenas com os olhos – torna-se necessário tempo (sempre ele), dedicação, aprendizagem e muita disposição.

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