Do Vietnã ao Maruim

Nem é preciso apresentar esta que é uma das imagens mais conhecidas da História e uma das fotos mais importantes já feitas. Mesmo sabendo do que se trata, procure fazer um simples exercício de leitura. Apenas olhe para ela e diga o que vê. Acho impossível que alguém imagine qualquer conotação sexual pelo fato de ter um ser humano nu aparecendo nela. Impossível, não. Uma mente doentia – muito doentia! – poderia ver isso.

O horror no rosto da menina de 9 anos, a situação de estar correndo nua e em desespero, com o corpo queimando, o pedido de ajuda, tudo isso captado em um instante. A foto da menina Phan Thi Kim Phuc feita por Nick Ut, em 8 de junho de 1972, logo após um bombardeio com napalm durante a Guerra do Vietnã, se transformou imediatamente em um ícone antiguerra. Contra aquela e contra todas.

Ainda que haja alguém que não conheça os detalhes da história desta foto, a leitura é imediata: guerra, horror, caos, desespero. Todos os elementos que aparecem na foto mostram isso: a fumaça ao longe, tomando todo o fundo, os soldados, as crianças chorando e correndo em busca de um local seguro.

Mas não é esta a imagem sobre a qual quero falar. A foto em questão é outra, feita por Canindé Soares, em 2005, na comunidade do Maruim, em Natal (RN). É esta, logo abaixo.

Ela foi colocada em seu fotolog no dia 19 de novembro de 2005 sob o título “Fotografia pelo social” e convidava outros fotógrafos para uma visita ao Maruim com o objetivo de denunciar as condições subumanas em que as pessoas de lá vivem.

Assim como na foto de Nick Ut, a foto de Canindé mostra tudo o que é preciso para contar uma história inteira sem precisar de uma única palavra ou qualquer explicação. A grande semelhança entre as duas é o fato de haver uma menina nua correndo. Já o cenário e outros detalhes mostram que a guerra é outra. Nesta, feita por Canindé, é contra a fome, contra a total falta de oportunidades e as demais mazelas que advém da miséria.

É uma foto única, dessas que o fotógrafo não fez porque quis, mas sim porque estava no lugar certo, na hora certa e com a câmera na mão. Estava preparado quando a oportunidade surgiu. Fato é que a imagem da menina do Maruim também pode ser vista como ícone antimiséria. A criança sem roupa, descalça, correndo no meio do esgoto que passa na porta das casas da comunidade. Há ainda um componente fortíssimo, que pode sugerir outras comparações com a da garota vietnamita: enquanto esta aparece de frente, saindo da escuridão provocada pela fumaça das bombas e correndo em direção à claridade, para onde a estrada parece mais larga, oferecendo outras possibilidades, a menina do Maruim está de costas, indo para onde a viela se estreita e em direção a um beco onde se vê lixo e nada mais. O que acontecerá quando ela dobrar e sumir da viela? Isso mesmo. Ninguém sabe. Mas provavelmente é isso que realmente acontecerá: ela vai sumir, não vai ser ninguém, vai estar eternamente escondida em um local sujo, escuro, onde ser humano algum gostaria de ir.

Como já informado, a foto foi postada em um fotolog em novembro de 2005. Quase quatro meses depois, Canindé começou a ser ameaçado por alguém que julgou a publicação da foto como uma ação de pedofilia. As ameaças, claro, eram sempre anônimas. Qualquer pessoa séria, decente e convicta do que diz mostra a cara. Uma semana depois do início das ameaças, Canindé republicou a foto sob o título “Pedofilia!?” e deixou que o público fizesse seu julgamento. Fui um dos primeiros a comentar e, dentre outras coisas, disse que uma pessoa tem que ser muito doente para ver alguma maldade nesta foto, provavelmente deveria ser mesmo ou poderia ser alguém que sofreu abusos durante a infância e, não conseguindo superar esse trauma e tendo seu algoz como referência, acha que o mundo inteiro é assim.

A discussão gerou quase 60 mil visitas e cerca de duzentos comentários, quase todos chocados com a possibilidade de alguém ver a foto como um ato ou incitação à pedofilia. Porém, no meio do bombardeio, apareceram outros do gênero “ouviu o galo cantar, mas não sabe onde” e já começaram a dizer que “é isso mesmo” e a agredir o fotógrafo. Tudo, claro, sob o manto do anonimato, residência preferida dos covardes.

Que exista gente doente e capaz de ter pensamentos tão deturpados, eu admito. O que não entendo é como alguém que toma para si a nobre função de defensor-proprietário da moral não enxergue o óbvio, como, no caso desta foto, as péssimas condições de vida de milhões de pessoas representada pela menina do Maruim. Para mim, não existe nada mais obsceno, nada mais atentatório ao pudor do que isso.

Logo abaixo em  COMMENTS
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10 respostas a Do Vietnã ao Maruim

  1. Henderson disse:

    A mente humana é realmente surpreendente. O animal que imaginou ou viu algo que não o flagelo de uma criança e a imoral condição em que ela vive, deveria procurar tratamento psiquiátrico. Já disse e repito, a imbecilidade pode ser encontrada em toda parte, e independe de classe social, cor, sexo ou religião. O anônimo ameaçador deve ser um individuo com sérios transtornos e digno de repúdio.

  2. Jandiro Adriano Koch disse:

    Adorei o texto. Nem sei se utilizo o termo “doentio”, visto que remete em demasia a uma pessoa com alguma perturbação mental, portanto necessitada de cuidados e tratamento. Os “doentios”, em geral, não arcam com a responsabilidade por atos e palavras.
    Penso, e penso, e penso. Serão pessoas desprovidas de qualquer inteligência? Algumas, talvez. A maioria, penso eu, concentra uma maldade em proporções que não conseguimos mensurar. As tolas acusações que fazem refletem sua própria podridão.
    Fico estarrecido quando vejo demagogos pregando, por exemplo, o retorno dos “valores da família” de antigamente. Esbravejam sobre imagens e relatos amplamente divulgados pelo meios de comunicação de hoje afirmando que a humanidade está corrompida… A solução, para eles, é retomar os ditos “valores da família”.
    Questiono-me constantemente sobre quais desses valores pretendem resgatar? Serão tão insipientes a ponto de acreditarem que tudo era flores naqueles tempos? Pretendem mesmo voltar a uma época em que o silêncio preponderava, em que as crianças eram violentadas, as mulheres espancadas e não havia Conselho Tutelar ou Delegacia da Mulher?
    Pessoas que fazem esse tipo de discurso ou que enxergam alguma maldade em fotos como a feita por Canindé são o que chamo de “falsos moralistas”, essencialmente hipócritas, perversos.
    Se alguém quer ver qual o processo vil adotado para conspurcar algo imaculado (ou que não fere a ninguém), é só assistir ao programa Superpop (Rede TV). Nessa “atração” sensacionalista as entrevistas são feitas para desconstruir a imagem do entrevistado. Um burlesco tribunal da Inquisição assinala o pecado onde você jamais imaginou que ele pudesse estar.
    Não assista se tiver um revólver em casa, é dinheiro jogado fora atirar em televisores, ainda mais se for Plasma…
    Adelaide Carraro iria gostar de uma foto de uma família feliz, pai, mãe e filhos (quem sabe até um cachorro…). O título da foto: Podridão!

  3. Esta é uma das minhas fotos que mais gosto. Principalmente porque acho que ela um dia ou quem sabe ja esteja fazendo seu papel social, por denunciar uma situaçao lastimavel que nenhum ser vivo merecia vivenciar. Valeu mais uma vez Sandro, fico muito feliz ter minhas fotos ilustrando textos tao sabidamente escritos e melhor ainda com propositos tao importantes.

  4. Carol Kyze disse:

    O abismo social não precisava ser tão grande, não mesmo.
    Muito triste já nascer tão sem perspectiva. Praticamente condenada ao ciclo viciosa da vida miserável. Belo texto, Sandro.

  5. Diego Viana disse:

    Sandro, a Internet é a casa ideal para o anônimo, o agressivo, o doentio, o escondido. É onde essas pessoas se sentem mais livres para fazer ataques e ameaças, porque é ainda mais seguro do que o telefone, por exemplo, onde há pelo menos o contato da voz, que é qualquer coisa de realmente humano e pessoal, nada parecido com o simples teclado e tela que tudo aceitam. A foto é magnífica e, posta ao lado da imagem do Vietnã, se revela ainda mais trágica. É como você disse: o horror é de outra natureza, mas também é um horror.

  6. Meire disse:

    Parece que a impermeabilidade estética faz parte de um kit que vem de fábrica em gente que transfere a maldade que tem dentro de si para os outros. Os incapazes de enxergar singularidades são aqueles que não olham diante de si: o mundo deles é muito, mas muito pequeno.

  7. Amanda B. Massaro disse:

    O pior, acredito eu, não é nem verem na foto alguma conotação pedófila (o que já é, sem dúvida alguma, terrivelmente ruim), e sim manterem-se no anonimato. A foto é muito boa, o fotógrafo estava de verdade no lugar certo, na hora certa, e tem todo um significado quando olhada apenas rapidamente, o que dirá então quando verdadeiramente observada. Conta não só a história da menina em questão, mas a história de milhares de meninas, meninos, mulheres e homens de todo mundo. Se uma pessoa, por algum motivo que vá lá entender, não gostou, que pelo menos tenha a dignidade de dizê-lo, e não de fazer isso sem colocar nem ao menos o primeiro nome. Pessoas sem nenhum tipo de noção sempre irão existir, é uma realidade dolorosa. Pessoas que não sabem o que falam ou DO QUE falam então, nem se fala! Mas a partir do momento em que elas não tem a capacitade de se mostrarem e assumirem suas opiniões (por mais idiotas que sejam), aí podemos ter a certeza de a coisa toda está mais podre do que podemos imaginar.

  8. Wilson Natal disse:

    Comentei sobre isso, no teu texto “Tudo é uma questão de ponto de vista”. E aqui vai o que eu escrevi, comentando sobre a foto da Pitty e, principalmente a foto do Canindé:

    …É o caso da foto da Pitty: Um momento, uma pausa de um ser humano como qualquer outro. O mesmo se dá com a polêmica foto do Canindé. Polêmica porque em vez do todo – miséria, condições de vida, sociais, falta de creches, saúde, etc. Alguém fixou-se no simples detalhe de uma menina nua, como se não houvesse tantas, ao vivo e a cores por este Brasil… Simples detalhe, pois na foto a nudez é o que menos importa. Não pela visão de quem viu na foto um caso de pedofilia. Alí ví a nudez chamando a atenção. É nada mais que a miséria nua e crua…
    E como você pode ver, eu não mudei a minha opinião até hoje sobre a foto. O tal anônimo, como te disse no MSN, continua entalado na minha garganta.
    É ainda tudo o que escrevi no Flog do Canindé:
    Obs. – Veja que até aventei a possibilidade de que a pessoa se preocupasse com o mal uso que os pedófilos poderiam fazer dela na Internet.

    wilson – 22/03/2006 00:02
    Talvez as pessoas,ou pessoa, que vem telefonando estejam preocupadas com que essa foto da menina nua vá parar em algum site pedófilo. Daí a preocupação.A foto em si é de um naturalismo puro, sem a mínima conotação sexual. É linda e triste, ao mesmo tempo. Linda porque vejo na menina a mais pura sensação de liberdade. E triste pelo lado social.

    wilson – 22/03/2006 00:08
    Criticar todo mundo critica, mas fazer o trabalho de denunciar, como você com suas fotos, niguém faz. São do tipo que varrem a sujeira para baixo do tapete. Garanto que são do tipo que jamais telefonam ou participam de programas de denuncia contra a prostituição infantil e a prostituição mesmo.

    wilson – 22/03/2006 14:04
    PEDOFILIA,atualmente,significa desvio de personalidade. Mas,a palavra, vinda do grego significa amor pelas crianças. Antes, ser pedófilo, significava ter amor, afinidade, preocupação pelo bem estar das crianças. Hoje, sabemos que os Pedófilos clínicos existem aos milhares. E, quantos Pedófilos existem, no verdadeiro sentido da palavra? Será que são muitos também?

    wilson – 22/03/2006 14:13
    Fique feliz, Canindé! A sua foto cumpriu seu papel! Chamou a atenção para as condições sociais, para a miséria humana, e classificada como pedofilia, despertou o interesse das pessoas para esse assunto. A sua e a função da foto atingiram o objetivo. Parabéns!!! Gente que pensa realiza e modifica tudo.

    E Canindé Soares tem cumprido a sua missão. Basta ver suas fotos no Flog, ou no seu site. Mesmo fotografando e denunciando a miséria, ele expõe as pessoas e os moradores sem privá-los da dignidade. Ele fotografa pessoas, sem agredir o orgulho, a dignidade e o amor próprio de ninguém. São fotos denúncia, não fotos de exploração da miséria.
    Pensei demais, escrevi demais, e enchi o teu comments.
    Abração,

  9. tatiana almeida disse:

    lembro dessa imagen quando eu era crianca;
    nunca mais saiu da minha cabeça, é chocante, chorei muito na época e até hoje me deixa comovida ao vê-la.

  10. Nina Bezerra disse:

    Vendo esta materia, me vem logo à cabeça:
    NADA ESTA TOTALMENTE PERDIDO, AINDA RESTA UMA ESPERANÇA

    Me comoveu não só as fotos em questão, mas os gestos de pessoas com Canindé Soares e muitas outras, que são consciente que só se passa uma vez por esta vida

    Meus parabens !!!!!

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