Tudo é uma questão de ponto de vista

Admito: costumo nadar contra a maré. Sonho com meu nome em robustas lombadas e amo coisas antiquadas e pouco apreciadas como ler e escrever. Confesso também não ser dado a polêmicas, pois as considero um desperdício de energia, exercício dos curtos de intelecto e vagabundos que procuram algo ou alguém para fazer de escada.

Não há quem não tenha percebido que estamos no tempo do não-tempo. Quase ninguém tem tempo para nada. Eu, digo sempre, tenho tempo para tudo. Ninguém rouba o tempo que me foi dado e, todo dia ao acordar, tenho o mesmo tempo que todo mundo. Talvez um pouco mais porque durmo pouco. Como cada um utiliza o seu é que são elas.

Essa “falta de tempo” faz com que as pessoas deem uma olhada nos blogs, nas notícias, em qualquer coisa, mas não LEIAM. É tudo muito rápido. Um passar de vista. Estamos no tempo do ver. Nos lugares mais pobres, pode faltar água; televisor, nunca. Pode faltar comida, mas não uma câmera digital, um celular que fotografe. A fotografia, que era arte ou hobby caro, é hoje algo extremamente popular. É o tempo do ver.

E nessa agonia de ver, não vemos. Ficamos anestesiados em relação à realidade. Nos shows musicais, no teatro, frente a qualquer expressão artística, deixamos de apreciar o real para fotografar ou filmar e “ver depois”, em péssima qualidade, de mentira, o que já não se pode viver, na tela do computador. São registros de uma lembrança que não temos. Registros de que se passou por lá, mas não de algo que se viveu verdadeiramente.

Eu, que já fiz parte de um seletíssimo grupo de pessoas portadoras de uma câmera que podiam registrar um determinado evento para a posteridade, hoje me sinto profundamente incomodado em sacar uma câmera de bolso com o objetivo de fazer um simples registro para ilustrar, digamos, um texto aqui no blog. Dia desses, em uma apresentação teatral de um grupo popular, em Natal, me senti como se estivesse no tapete vermelho do Kodak Theatre durante as duas horas que antecedem o início da cerimônia de entrega do Oscar. Um batalhão de fotógrafos – amadores, na maioria – espocando flashes durante toda a peça. Registros aos montes, mas não pergunte de quê, porque será preciso conferir nas fotos para saber o que realmente aconteceu.

Ler é coisa para antigos, saudosistas e malucos. Mas ver é a primeira forma de leitura e já temos toda uma geração que não sabe interpretar isso, ou seja, não lê, não vê e, claro, não entende. Mas aí vem o pior: adora opinar sobre qualquer coisa. Costumo chamá-la de “A geração que ouve o galo cantar”. Para os que não entenderam, trata-se de uma referência à expressão “ouviu o galo cantar, só não sabe onde”, usada quando uma pessoa ouve algo e já se mete a reproduzir, aumentar, distorcer, sem nem saber de onde veio a informação e o que realmente dizia.

Este já longo texto, que certamente já fez alguns “sem tempo” desistirem da leitura, é apenas para fazer a introdução a uma série na qual pretendo comentar algumas fotos, minhas e de amigos, que, colocadas na Internet, foram mal interpretadas e geraram calorosas discussões (sem que fosse necessária alguma!), totalmente absurdas e sem qualquer relação com o objetivo do fotógrafo ao mostrá-las. Nelas, veremos como a pressa, o despreparo, a incapacidade de interpretação e o desespero em mostrar que “sua opinião é a que está certa” conseguem causar pequenas guerras. De resto, cada um tire sua própria conclusão (pode comentar sem medo) e imagine o que será o mundo quando essa geração estiver no comando dele. Vamos à primeira.

O outro lado de Pitty

Esta foto foi postada em meu antigo flog na Diginet em 6 de maio de 2006. Foi feita por Jonatas Oliveira, que dava seus primeiros passos na fotografia. Ainda tímido para mostrar certos resultados, não quis colocar a foto em seu próprio flog. Eu vi e pedi para publicar no meu. Mostra Pitty, a cantora, agachada, nos bastidores do Mada, festival de música que acontece há mais de uma década em Natal. O flagrante mostra um respeitoso quase cofrinho. Absolutamente nada demais, chocante ou absurdo. Mas é um lado, por assim dizer, que o público não está acostumado a ver. Outro detalhe é o cigarro. Fume quem quiser (de preferência, longe de mim), beba, se pique, faça o diabo. Ninguém tem nada com isso. Mas por questões de preservar a própria imagem, cigarros, copos de bebiba e afins costumam ficar longe das câmeras.

Pois bem. A intenção era só mostrar a musa pagando uma discreta calcinha e que Jonatas estava esperto enquanto fotografava os bastidores do festival. Expliquei isso no pequeno texto que fez as vezes de legenda e ainda me coloquei como admirador de Pitty, dizendo que ela poderia estar na seção Mulheres que amamos, da revista Playboy. Para quem não sabe, uma seção que geralmente mostra mulheres admiradas e desejadas que nunca fizeram e provavelmente nunca fariam um ensaio de nu fotográfico. Ok. Eu mesmo inaugurei os comentários dizendo que achava broxante ela fumar. Fiz questão de colocar isso nos comentários – e não na legenda – para deixar bem claro que se tratava de uma opinião pessoal. Para mim, qualquer mulher fumando é broxante.

Como disse, a foto foi colocada em maio de 2006 e eu fui utilizando o flog como de costume, atualizando quase diariamente. Naquela época, cada foto nele tinha algo entre 250 e mil visitações, chamando mais ou menos atenção dependendo do tema, do tempo que passava como sendo a mais recente, se tinha ou não destaque na página principal do flog. Com a foto de Pitty não foi muito diferente. Ficou ali pelas mil e poucas visitas. Mas o tempo foi passando e, no finalzinho de 2006, perdida entre outras centenas do flog (pelo menos para mim), começou a ser visitada intensamente. Até meados de 2008, quando o flog ainda era mantido, a foto recebeu mais de 150 mil visitas. Eu digitei certo e você também leu certo: mais de cento e cinquenta mil visitas (152.162, para ser preciso). E uns duzentos comentários (que lindo seria ter vinte em um texto aqui no blog!). Principalmente baixaria e discussão estúpida sobre se “a calcinha está aparecendo e daí?”, “se ela fuma o problema é dela, eu pegava de qualquer jeito” e isso é só o que me permito reproduzir. Quem tiver muito tempo livre e a perder, pode conferir toda a estupidez escrita no mais castiço miguxês.

Um ótimo e triste exemplo da forma débil com a qual os adolescentes costumam se expressar, sem se dar o trabalho de pensar um pouco antes de vomitar qualquer bobagem, geralmente cheia de raiva, o que revela muitas outras coisas além do que já foi dito. Vazio existencial e falta de educação são algumas delas. Mas não são atributos somente deles, como veremos em outras fotos que comentarei nos posts seguintes.

E já que você heroicamente chegou até aqui, aproveite para deixar um comentário e saiba que, sem medo de policiamento ou crucificação, acredito que Pitty será a única boa lembrança quando, no futuro, falarem sobre o rock brasileiro da primeira década deste século. É tudo questão de ponto de vista. E de gosto.

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13 respostas a Tudo é uma questão de ponto de vista

  1. Henrique disse:

    Quero ser o primeiro a comentar e dizer que o tempo sempre foi minha obsessão como artista, talvez porque eu sempre faça muitas coisas ao mesmo tempo e de uns tempos pra ca parei de reclamar da minha falta de tempo. Tempo, tempo, tempo… Nossa maior dificuldade não é com a falta, mas o que fazemos enquanto falta (leiam como quiser).
    Abraço Lobão, amo tuas fotos e palavras.

  2. Wilson Natal disse:

    Os filhos pagam pelos pecados do país… Quem sai ao seus, não degenera…A cada árvore, os seus frutos… Tantas frases feitas, de almanaque, de roda-pé, cafonas, mas cheias de verdade.
    Nelas estão a “formação intelectual da nossa juventude”. A mesma juventude que amanhã estará usando “unas cosuchas” indianas por que é chic ser “grobal” e serão instruídas na história da sociedade “indiana” pela “istoriadora” Dona “Grória”.
    Vivem de aculturamento, não de cultura. Assumem o dúbio politicamnte correto do momento e seguem em frente no “ouví falar”, não no vou constatar. E così la nave và…
    Esta é uma época do tudo é descartável e do comentar, protestar de acordo com o detalhe e não de acordo com o todo. É o caso da foto da Pitty: Um momento, uma pausa de um ser humano como qualquer outro. O mesmo se dá com a polêmica foto do Canindé. Polêmica porque em vez do todo – miséria, condições de vida, sociais, falta de creches, saúde, etc. Alguém fixou-se no simples detalhe de uma menina nua, como se não houvesse tantas, ao vivo e a cores por este Brasil… Simples detalhe, pois na foto a nudez é o que menos importa. Não pela visão de quem viu na foto um caso de pedofilia. Alí ví a nudez chamando a atenção. É nada mais que a miséria nua e crua.
    Nada é sagrado, vive-se do “pirateamento” da idéias mais absurdas sem se dar ao trabalho de pesquisar a veracidade.
    Adoro rebeldia, pois ela melhora e faz o mundo evoluir. Destesto a burrice.
    Felizmente entre os adolescentes, existem os rebeldes com causa. E são muitos!
    Eu sou um otimista! E creio que um dia você vai ver comentários brilhantes de adolescentes nete seu site.
    Abração – no todo e não no detalhe.
    Wilson

  3. Sandro Fortunato disse:

    O povo acordou com vontade nesta quarta! E eu, que nem dormi?! O texto foi colocado às 5h30 e antes das 7h já tem comentárioS!

    HENRIQUE, vez ou outra falo sobre o tempo, esse inimigo que as pessoas inventaram e culpam tanto. Sugiro a leitura de um outro texto meu – Ah, essa falta de tempo! – de 10 de outubro de 2005. E no fim de semana, quando se tem mais “tempo livre”, vou navegar A mar aberto.

    WILSON, seu sem-graça, a próxima foto que comentarei será justamente essa polêmica imagem captada por Canindé. Nesta quinta. Aguarde. AguardeM!

  4. Oba, oba, oba! Adoro essa minha foto que vai comentar… modestia a parte ela merece. E tou cada vez mais ficando fa dos teus textos. Pena que nao tenha “tempo” para ler todos. Mas tou tentando ainda me organizar, e quem sabe nesta insistencia de toda vida, um dia eu consigo um tempinho para tudo que desejo fazer, principalmente nao apenas ver.

  5. Nao sou muito diferente da maioria das pessoas, nao tenho muito tempo, principamente para ler. Ao ler “nao ter tempo” leiam preguiça ou falta de organizaçao do tempo. Mas nao chego ao absurdo de so “ver”, quero entender melhor, e costumo na maioria das vezes ler pelo menos os pequenos textos, que parece nao acontecer com a maioria das pessoas. No meu blog quase nao escrevo, mas faço pequenissimos textos quando necessarios para direcionar a informaçao. Tipo assim, amanha, tal hora em tal lugar vai acontecer minha exposiçao. Ai vem os comentarios, com perguntas absurdas, onde vai ser Canindé, que horas? e por ai vai. Isso me extraga o dia.

  6. Renata Silveira disse:

    Lobão,
    Neste tempo do não-pensar, ter (o) sempre algo a dizer é uma benção!
    Beijos,
    Renata

    PS: põe meia duzia de brahma p’ra gelar que chego um dia desses pra trocar ideias com vc e Canidja… Ao vivo! Com as águas de Março… Tudo ariano!
    hehehehe!

  7. Tempo… pois… eu sou considerado o “vida mansa” aqui da agência, justamente porque não abro mão do meu tempo de ler. No trabalho.

    Nunca estou estressado com nada nem com prazos, que cumpro sempre, ainda que pare para ler textos mais ou menos importantes.

    Mas sou, por outro lado, um pessimista. Não creio que as próximas gerações venham algum dia a ler tanto quanto a minha ou as passadas.

    Cabe a cada um de nós, fazer com que nossos descendentes e adjacentes mais próximos mantenham o gosto pela leitura.

    Um acha: para além do ponto de vista, há também a questão do referencial. Se eu nunca vi a cara da Pitty, como vou saber que é ela na foto?

    O “cofrinho” acolheria tantos comentários se não fosse famoso? Não há tempo para cofrinho anónimo?

  8. Tato disse:

    Assim como você, Lobão, eu também tenho tempo pra tudo. Só gostaria de mais tempo ainda, para poder fazer mais do que já faço. Mas, ainda assim, sou satisfeito com cada uma das 24h dos meus dias.

    Agora, teu texto me fez lembrar de algo que eu repito sempre para mim mesmo, de como eu, que sou tão ligado nesta época de Flickrs, Twitters e blogs, sinto falta de quando tudo o que tínhamos para nos expressarmos eram cadernos e filmes 35mm. De quando não havia o imediatismo do “para ontem”, e de quando não sentíamos uma necessidade latente de absorver cada vez mais, uma quantidade maior de informação inútil.

  9. Tato disse:

    OBS off topic: Caraglio! No tempo que escrevi meu comentário e dei o clique no Subimite Cómmente aí embaixo, outros 6 vieram e fizeram antes de mim. Caraglio!

  10. joão antonio disse:

    Sandro.
    Esta foto aí, dessas casas meio Volpianas são defronte da minha casa. Fiquei perplexo. Como´é que ela foi parar no blog do Sandro? Milhares de kms daqui. Só depois de muita perplexidade e rememoração é que lembrei que já estiveste aqui em casa, enaturalmente fotografou-as.
    joão

  11. Sandro Fortunato disse:

    Vejam com o mau relacionamento com o tempo nos toca! E achei muito legal que alguns de vocês tenham arranjado um pouco de tempo para comentar. Continuem assim. 😉

    RENATA, já coloquei sua meia dúzia de Brahmas e minhas três dúzias de Skol na geladeira, mas provavelmente nenhuma delas resistirá até o próximo fim de semana. Não perca tempo. Apresse o passo.

    MARCELO, vagaba, pegue bastante do seu tempo para ensinar a Zoé as velhas artes de ler e apreciar o que é belo.

    TATO, Você percebeu que o tempo não perdoa, não? Bobeou, já foi. 😉

    JOÃO… quase quatro anos. Quanto tempo, hein? Em breve, Baixo por aí de novo.

    CANINDÉ, agoniado, você também tem tempo para tudo, só precisa aprender a relaxar. Não precisa nem fazer como eu, que só pretendo dormir depois de morto.

    TODOS: ainda nesta quinta, histórias e comentários sobre a polêmica foto feita por Canindé.

  12. Meire disse:

    Quando eu tinha menos tempo eu achava mais tempo para ler. Ter muito tempo é emburrecedor, e estou tentando corrigir isso 😉

  13. oivle disse:

    “Alguns preocupam-se com pontos de vista, o pensador vai além do ponto, na busca de nova vista”
    Elanklever

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