A festa do tuim

As luzes dançam todo o tempo. De um lado e de outro da pista. Umas lá em cima, outras mais perto. As amarelas vindo em minha direção, as vermelhas indo embora. Quando vêm e eu consigo ficar em pé, bato no vidro, estendo a mão, peço um trocado. Quase nunca dão. Na outra mão, a garrafa de cola. O dotô sabe que não é pra pão. É pra tuim. Desisto fácil, sento no meio-fio, no canteiro entre as pistas. Encosto e cheiro fundo. Mando direto pra cabeça. As luzes bombando. Motor, buzina, freada fazendo a música. Vez em quando um grito, um xingamento pra outro motorista ou pra mim. Morre, cheirador, feladaputa. Cheiro toda minha dor, dotô. Quero lembrar de nada, não. De amiga, só tenho a cola. Quando o tuim passa, dá uma fome do cão. Aí eu peço mais dinheiro. Mas entre um pão e mais cola, eu pego a cola que dura mais e garante a festa. Viro a noite assim. As luzes vivem e dançam todo o tempo. Eu cheiro e morro o tempo todo.

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4 respostas a A festa do tuim

  1. márcia disse:

    paulada. na moleira.

  2. Wilson Natal disse:

    Quando não se tem mais nada a ganhar, ou a perder, resta ao menos viver como se quer… E na cola, no puxo, no cheiro, a vida vai ficando longe. A vida se esvai… Mas, afinal quem se importa?… Com certeza, muitos daqueles que são pagos para se importar, estão, agora, cheirando um carreirão de Blaca Nieve, puxando uma “bomba” de erva boa, ou então, injetam a “Mulher Maravilha” nas veias e ralaxam sentindo a Heroína correr-lhe pelas veias e explodindo seu cérebro… Mas, afinal, quem se importa?… Quem, realmente, liga? Ninguém liga… Meninos e sua bola, não! Meninos e sua cola viraram ícones das grandes cidades.
    Abração,
    Wilson.

  3. Marcia disse:

    O que me chamou a atenção inicialmente foi a foto. lembrei-me de uma imagem psicodélica, como se fosse a visão distorcida, mais suportável (e por que não dizer bonita) dos meninos diante da realidade: sob o efeito alucinógeno, luzes amarelas e vermelhas dançam ao som de buzinas e roncos de motor. Já sem a cola, o que talvez consigam ver sejam as luzes vermelhas “indo embora”. O que fica sempre é a dor.

  4. Patrício Jr. disse:

    se durasse mais de um parágrafo ia estragar. está perfeito. agora se ferrou. quero mais!

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