Na pele

 A vida dura sempre marca com mais força. Como o adulto aprendendo a escrever, que aperta em demasia a caneta, ferindo várias folhas. A miséria desconhece a leveza, pouco se lhe dá o fino traço. O corpo é o papel onde se contam as histórias. Rugas prematuras em pele ressecada, marfim perdido em briga ou em indesejado encontro com o meio-fio. No braço ou no peito, o nome da amada, capítulo das memórias do cárcere. Em liberdade, muito tempo de sobra. Cabeça disponível às artimanhas do velho companheiro, jardim fértil onde desenhar estradas tortas. Fácil dar consigo de través no primeiro beco estreito sem saída. Capaz de deixar a forçada escravidão ao ar livre, tomar outra vez o caminho para o diminuto espaço de reeducando, olho na graduação hedionda, summa cum laude. Sem direito à defesa, retirada vênia sem que tivesse sido dada. Julgado pela boca, sem dizer palavra. Todas escritas no corpo. Que fala e garante condenação.

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6 respostas a Na pele

  1. márcia disse:

    in dubio, pro reo.
    inocente.

  2. Izilda - Zi disse:

    Soco no estômago.
    Depois de ler, nem há muito o que dizer.
    Dá apenas para sentir “na pele” o dito e o não dito…
    Beijo,

  3. Amanda disse:

    Não tenho o costume de comentar, principalmente porque seus textos geralmente me deixam sem palavras, você já diz tudo o que eu queria dizer, mas não posso deixar de te parabenizar pelo que tem feito. E devo dizer que seu trabalho está melhorando cada vez mais.

  4. Wilson Natal disse:

    Realmente você disse tudo. Lindo!
    Ocorre-me apenas, que a pele traz as marcas da sedução, servidão, paixão. Na pele, as marcas da brutalidade, o arrepio de prazer,Penso na pele suando lágrimas de dor, prazer, orgasmo. E é a pele que procuramos salvar todos do dias. E a pele é a tatuagem da nossa alma.
    Nossa, para quem não tinha o que acrescentar,penso que estrapolei. 🙂
    Abração,
    Wilson The Illustrated Man.

  5. Marcia disse:

    Em consonância com o belo comentário anterior, o corpo “que fala e garante condenação” traz na pele marcas de dor, sofrimento, intensidade, entrega, Amor.
    Lindo texto, permeado de lirismo, como um poema em prosa, um dos que mais me foram significativos.

  6. Meire disse:

    Gosto quando você fala com o útero, Sandro.

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