Tarde frustrada em um puteiro nas Rocas

Não se fazem mais puteiros como antigamente. Nem as músicas são as mesmas. Houve um tempo em que era ao vivo, como lembra Helena Meirelles, no filme de Francisco de Paula. Depois vieram as radiolas de ficha. Uma pecinha metálica, como aquelas dos orelhões antigos, a escolha da faixa que seria buscada em algum compacto e pronto. Era só curtir a cervejinha ou o conhaque em companhia da escolhida.

Odair José, Amado Batista, Márcio Greyck, Raul Seixas e outros cantores populares com alguma variação que agradasse ao gosto nativo. As caixas monstruosas foram aposentadas e vieram as jukeboxes eletrônicas com CDs e, depois, com MP3. Não, eu não consigo acreditar no que aconteceu. Tudo mudou. Morreram os bons tempos dos cabarés populares das áreas portuárias onde a noite na companhia de uma morena custava menos que uma entrada de cinema ou um lanche no shopping.

Morreu até a cordialidade que encontrávamos nesses lugares de culto à luxúria e à perdição. Foi atrás de uma radiola de ficha e nada além, que Canindé e eu desembarcamos em uma rua cheia desses “bares” no bairro das Rocas, em Natal. Antes de descermos, avisei que deixasse no carro sua onipresente e nada discreta câmera fotográfica. A experiência me dizia que ela, a câmera, não seria bem-vinda. Já fui hostilizado quando, lá no início dos 90, no mitológico Arpeje, fotografei as bonecas de Francisquinha, feito exclusivíssimo, no passado e no futuro, jamais repetido por qualquer outro louco.

Registrar o que se passa nos submundos não é algo bem visto. Não é à toa que esses locais vivem em eterna escuridão. Nem que a visão embotada pelo álcool, deixando tudo mais bonito, é incentivada. No primeiro estabelecimento em que entramos, não fizemos uma foto ótima, parecida com algo que procurávamos: uma dessas jukeboxes comuns inseridas no contexto de cabaré. Saímos para procurar outra, das mais antigas, grandonas. Encontramos uma dona Fulana, também grandona, mãos nos quartos, a dizer que “não gosto disso, desconfio dessas coisas” e nada de fotos.

É mesmo necessário tempo, paciência e perseverança para conquistar a confiança desse povo. E nem sempre se consegue. Mas como tudo o que queríamos era uma foto de uma radiola de fichas, não estávamos dispostos a perder dias atrás disso. A idéia inicial era só falar das jukeboxes piratas, que estão na mira da polícia e sendo recolhidas a rodo, principalmente em Rio e São Paulo. “Piratas” por conta de não recolherem uma cota mensal que, diz-se, é repassada a certas associações de gravadoras e artistas. Resumindo: para uma maravilhosa música tocar em um puteiro, precisa ter autorização e pagar direitos autorais. Definitivamente, não foram só as putas de cabaré que mudaram. As putas do mundinho da música também. Querem um trocado por qualquer coisa.

Já que as damas da tarde não facilitaram as coisas para nós, saímos pela velha Ribeira e acabamos por conhecer um antiquário na Rua Dr. Barata, onde Canindé fotografou as radiolas que aparecem na imagem acima. E assim descobrimos outra história, que também vai estar em breve no Memória Viva. Por aqui, ficamos só nos bastidores.

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