Infância roubada

Aqui não tem muita coisa, não. Não, tem bastante. Não tem brinquedo, não tem diversão, não tem comida, não tem carinho, não tem saúde, não tem escola, não tem Papai Noel, não tem Obama. Não tem nem esperança porque desde cedo se aprende que é coisa que prolonga o sofrimento e isso a gente já tem de sobra. Aqui tem muito lixo, bicho doente, uma mosquitada que não acaba e o esgoto, que às vezes fica na rua, outras dentro de casa mesmo. São os nossos brinquedos. Parece que a gente já nasce com uma resistência para viver com os pés o dia todo nessa água podre e pra conviver com os maruins, que eu acho que nem picam a gente porque têm medo de pegar doença. Em dia de foto pra escola, tem banho tomado e até perfume. Em outros dias, tem gente que aparece cheio de máquina fotográfica para fazer safári. Tudo querendo ser Sebastião. Salgado é meu dia. Amargo até, mas sei abrir sorriso com uns dentes ainda bonitos. A gente daqui pede pra fotografar, pergunta quando vão mostrar e eles dizem que vão botar na rede pro mundo inteiro ver. Rede danada de grande é essa!? Que mundo todo? O mundo que eu conheço acaba ali no mangue e ele todo fede à peixe. Direito, a gente tem também não. Nem aqueles de um tal estatuto. Aqui está tudo é caindo. Parede, muro. Cor tem. Umas bem fortes, quando alguém consegue tinta. E aí parece que fica um pouco menos triste. Grade, portão, cadeado também tem. Dentro não tem muita coisa pra roubar, mas quando não se tem quase nada, é bom cuidar pra não levarem o resto. Aqui tem pai e mãe gritando e batendo por coisa nenhuma. Não é culpa deles não. Se eu fosse adulto e tivesse a vida deles, eu também não ia ter carinho pra dar. Castigo também tem. É não ir pra rua. É ficar em casa assustado, engaiolado, brechando quem passa pra ver se olham pra mim. Mas no mundo parece só ter olho fechado e que nem chega aqui. Os meus estão sempre abertos e não precisa botar tarja que eu não sou ladrão nem quero ser. É com eles que eu tento enxergar o futuro. Que futuro? Nem sei se vou ter um. Por mim, já ficava bem feliz se eu tivesse infância.

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8 respostas a Infância roubada

  1. Começou com o pé direito! 😉

  2. Sem palavras. Valeu Sandro! E nao podia deixar de roubar esse texto para colocar no meu blog.

  3. Wilson Natal disse:

    NÃO TEM é o que não falta neste país. E os políticos NÃO TINHAM – agora têm cadeiras, sofás, poltronas novas. E o povo NEM TEM, uma bunda macia e carnuda para servirem-lhes de almofadas quando sentarem no chão duro. E os governantes NÃO TÊM vergonha nenhuma em dizer que NÃO SABEM de nada… E o FUTURO do povo? Oras, usando as palvras de um certo presidente, o FUTURO e o POVO que SIFU! Ou SIFO! Ah! Foda-se!…
    Beijos sabor políticos bem sentados.
    Wilson

  4. Wilson Natal disse:

    E, prá variar, de vez em sempre, as maravilhosas fotos do Canindé, aqui e no Foto Jornalismo. Fotos que sempre encantam e surpreende. Parabéns aos dois.
    Wilson

  5. Sandro Fortunato disse:

    Quem acompanha este blog está sabendo que Canindé e eu estamos fazendo algumas reportagens juntos. Com esse convívio, temos trocado idéias e parido outras. Deixei de fotografar profissionalmente há uns bons anos, mas o olho continua o mesmo, obrigado. Em nossas conversas sobre diferentes olhares, comentei que sempre fotografo pensando em escrever a partir da imagem, já que a minha praia é o texto. Daí pintou a idéia de escrever crônicas a partir de fotos de Canindé, ou seja, de uma foto que NÃO foi feita com esse objetivo. Assim a viagem fica maior e não é só minha. Uma vez por semana, vamos mandar uma dessas. Espero que gostem.

  6. Roberta disse:

    Sandro, há algum tempo venho comentando diretamente com você o quanto gosto dos textos colocados no blog… esse, porém, despertou uma necessidade de expressar opinião de modo mais ‘público’.
    É triste perceber que o egoísmo ainda atinge nossa sociedade de modo tão absurdo. Que alguns poucos repousam suas cansadas nádegas (se alguém souber de fazer o quê, por favor me avise!..) em poltronas que custam milhões, enquanto milhões de pessoas padecem por falta dos itens básicos à uma existência digna – carecem de alimentação, saúde, estudo, segurança…
    Essa realidade difícil de ser compreendida foi trabalhada de modo tão sensível, tão humano que foto e texto conseguiram um equilíbrio bem peculiar: foi extraida beleza de onde não se espera que ela brote… Pena que não seja ficção: pobreza, doenças, grades, cadeados… e o olhar – perdido e fixo! – de uma criança que nem ao menos tem a possibilidade de saber o que isto (ser criança!) realmente significa… (esse olhar ficou gravado em minha memória…).
    Enfim, imagem e palavras associados de modo sensível e belo!
    Meus sinceros parabéns!
    Bjus!

  7. vitoria lima disse:

    Na pele, curto e poético, fala tantas coisas, é tão eleoquente (ai, me dêem meu trema de volta!). Na verdade, é um poema.
    V.

  8. Marcia disse:

    Aprendi que sempre temos tempo para tudo, principalmente para quem ou o que damos valor. Dessa forma tenho lido muito. Tenho relido textos indicados e outros por minha própria conta. Aprendi também que a leitura é um exercício constante; temos que nos dedicar a ela para percebermos o que está além das palavras.
    Tenho “lido” fotos também e descoberto nelas traços que agora me são tão familiares: paisagens distantes, imagens coloridas, poses inusitadas, alguns contornos de boca, uns olhos, mãos e outras marcas que fazem perder-me em detalhes. Descobri que a leitura é uma boa forma de aproximar distâncias, como janelas e frestas em meio a portas fechadas.
    No que se refere a fotos, o belo registro de Canindé Soares pode ser um exemplo concreto de que uma imagem pode ser lida, inclusive gerando um texto irretocável, daqueles que merecem ser lidos várias vezes para que sejam percebidas algumas sutilezas do autor. Nota-se o esmero dado à forma, como um parnasiano dedicado ao ofício de escrever . Nada é casual. O advérbio “não” na 1ª linha, por exemplo, ganha função de substantivo logo no início da segunda frase: os “nãos” resumem todas as privações e negações a que as crianças moradoras do Maruim têm que se submeter. Na 9ª linha, sua sutileza está num sinal de pontuação: o autor usa o adjetivo “salgado” para descrever como é difícil a vida das crianças do Maruim. Retirado o ponto final, o adjetivo transforma-se em sobrenome: Sebastião Salgado, importante fotógrafo brasileiro dedicado a enfocar causas sociais.
    A narrativa em 1ª pessoa dá um tom subjetivo ao texto, aproximando o leitor à triste realidade dos que são marginalizados e diferentes. É a criança do Maruim que fala de sua vida, de seus amargores e sofrimentos. Crianças têm uma forma muito peculiar de falar sobre suas vivências e experiências; dá uma simplicidade ao que é complexo, recurso que infelizmente perdemos na vida adulta. E ela realmente tem muitas razões para que sua vida seja amarga…negações, privações, brigas, falta de amor, nem que se tenha ao menos meias palavras ou insinuações para que sejam explicadas atitudes aparentemente despropositadas, repletas de secura e grosseria (sinônimos de aspereza). Mas, apesar de toda austeridade, o sorriso perdura, e é nesse jeito de sorrir que reconheço o meu Amor, o meu Bem-querer. E em troca de tanta aspereza, surge o desejo, sem reservas, de oferecer o que há em mim de mais puro, doce e terno. O texto desperta esses sentimentos em quem lê.
    O autor, ao dar voz para a criança do Maruim, permite que olhemos para ela e que nos atentemos para aqueles cuja infância está continuamente ameaçada. Talvez o autor peça também que olhemos por ela e para tantas outras crianças que limitam o seu futuro por se condicionarem, desde cedo, a olhar o mundo atrás de portões fechados.

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