Uma aula com mestre Brito

Era para ser só um papo, desses bem informais, coisa de colegas. Isso sendo eu um poço de pretensão para chamar Orlando Brito de colega, afinal ele já era um nome bem conhecido e trabalhava na Veja quando eu ainda estava deslumbrado por ser um universotário de Jornalismo. Assim, o que era para ser um papo virou uma aula.

Quem não é da área, pode não estar ligando o nome à pessoa, ou melhor, o nome às imagens. Orlando Brito é o responsável por várias das fotos mais marcantes da História política brasileira desde a época da ditadura militar. Foram 14 anos de O Globo, 16 de Veja e, nos últimos tempos, em sua própria agência, a Obritonews, para falarmos somente de uma parte dos seus mais de 40 anos de fotojornalismo.

A conversa começou no saguão de um hotel com ares de depoimento para o Memória Viva e terminou numa pizzaria com lembranças e histórias comuns sobre Brasília. Brito tem um jeito manso de falar, bem calmo, como todo bom mineiro. Logo fui percebendo que mais do que registrar a História, ele ajudou a construir a memória do país. Dentre suas fotos mais famosas, está aquela que mostra o perfil de Ulisses Guimarães, desenhado por um contraluz, e que foi uma das 113 capas que fez para Veja. Um único fotograma feito na semana da morte do deputado. “Uma foto premonitória”, como disse ele. Não deve ter ficado entranhada apenas em minha memória pois, passados 16 anos, a própria Veja apresentou uma malfadada versão, em fevereiro do ano passado, para falar da “aposentadoria” de Fidel. Ao ver a capa sobre o ditador cubano, Brito teve a impressão de já conhecê-la.

Pode ter sido uma “homenagem ao mestre”. É realmente impressionante como certas imagens ficam em nosso baú de memórias e podem ser acessadas a qualquer momento. Falando sobre outras capas, ele conta a história de um ensaio com Dante de Oliveira, deputado federal responsável pela emenda constitucional que propunha o restabelecimento das eleições diretas e que acabou inspirando o movimento Diretas Já. Ele seria capa de uma edição de abril de 1984, mas a foto de uma placa de trânsito, na qual se lia “Devagar”, bem em frente ao Congresso, dizia muito mais que um retrato do deputado. A revista circulou uma semana antes de eu completar 12 anos de idade e, naquela época, política ainda não era um assunto que chamava minha atenção. Mais de duas décadas depois, em 2005, em pleno escândalo do mensalão, fiz uma foto de uma placa de trânsito com o congresso ao fundo. Ela sinalizava um declive acentuado e a imagem sugeria, obviamente, que os parlamentares estavam “descendo a ladeira” com a tal venda de votos. Jurava que já tinha visto aquela idéia em algum lugar. No papo com Brito, finalmente veio a lembrança.

Já na pizzaria, na companhia de Canindé Soares e Rodrigo, assistente de Brito, começamos a perceber que tínhamos conhecidos em comum, em Brasília. Mas a maior coincidência foi descobrir que fizemos um trabalho muito parecido, de digitalização de imagens de Juscelino Kubistchek a partir do acervo de revistas O Cruzeiro no Memorial JK. Para encerrar essa (que, espero, tenha sido só a primeira) aula de História do fotojornalismo brasileiro, ganhei um exemplar de Corpo e Alma, seu quinto livro, publicado em 2006, e que você não vai encontrar por aí, pois não foi comercializado em livrarias. Para fomentar ainda mais a inveja, aí está uma imagem das mais de duzentas publicadas nele. O livro “funciona” assim: primeiro você quer engolir todas as imagens de uma só vez; depois quer ver cada uma demoradamente; e depois quer ver cada uma outra vez, perceber os detalhes, imaginar as histórias por trás dela, comungar com o momento do registro. Imagens para outros belos álbuns de Orlando Brito não faltam. Fora tudo que já fez em mais de quatro décadas e que guarda cuidadosamente, ele está trabalhando na produção de pelo menos mais quatro livros: dois em parceria com outros fotógrafos e tendo o futebol como tema, um sobre índios e outro sobre o universo que conhece muito bem, o do Poder. Mais detalhes e muitas outras histórias iremos conferir no material que será colocado no Memória Viva, em fevereiro. Fiquem espertos e não percam.

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3 respostas a Uma aula com mestre Brito

  1. Quando crescer quero escrever assim!:)

  2. Sim, é verdade. Alimentamos-nos de imagens todos os dias. E é sempre bom fazer uma dieta rica e saudável, não é?

  3. Wilson Natal disse:

    Vamolá! Trabiando, omi. Trabaiando. Quero a entrevista no Memória JÁ! 🙂
    Belezura de texto!
    Abração.

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