A TV vai à escola

E a escola é o cinema. Tenho a impressão de que a teledramaturgia brasileira ainda conta histórias para um povo o qual ela desconfia ter acesso a nada além de um aparelho de tevê. É verdade que nunca tivemos salas suficientes para chamar o cinema de popular em todo o Brasil. Mas vieram o VHS, o DVD, a Internet e a pirataria generalizada que garante por um real algum filme no camelô mais próximo. Hoje, muito mais gente em qualquer lugar tem mais acesso à produção cinematográfica mundial.

Ana Paula Arósio apaixonando-se durante uma viagem de navio como em Titanic ou Regina Duarte sendo humilhada em público com um banho de sangue (ou coisa que o valha) como Sissy Spacek em Carrie, a Estranha, são descaramentos, digo, “referências” que já não podem ser tentadas. O jeito é buscar “inspiração” em filmes mais antigos ou não tão populares. Tião, em seu Sopão, cinéfilo desde os tempos do cinema mudo e à lenha, traçou paralelos e indicou referências das boas produções recentemente apresentadas pela Globo. Recomendo a leitura e falo aqui de detalhes mal trabalhados e outras “fontes de inspiração” para A favorita, Maysa e mais alguns programas.

Vi Maysa do primeiro ao último capítulo, comportadinho, tentando não ter um enfisema pulmonar só de vê-la fumando tanto. Todos os cigarros banidos das novelas da Globo na última década foram fumados em Maysa. E aposto que eram Galaxy ou Minister (mentira, nem nicotina tinham). A emburrecenzia geral condenou de cara a fragmentação e total falta de linearidade do roteiro. Vai lá. Concordo em parte. Prefiro nivelar por cima e acreditar que é melhor apresentar às pessoas maneiras menos comuns que o papai-mamãe de início-meio-e-fim, mas concordo que fica meio difícil acompanhar uma história mais longa, dividida em capítulos, dessa forma não cronológica. Em algum momento, mesmo o espectador mais atento acaba se perdendo e já não sabe em que época exatamente determinada ação está acontecendo. Ainda mais pelo fato de que, nos seis momentos de Maysa apresentados na série, a grande e visível diferença da protagonista era o cabelo. A Maysa de Larissa Maciel era invariavelmente linda. A Maysa real, nem sempre. Maysa-Larissa se dizia gorda mas era, no máximo, gostosa. Maysa-Maysa, quando gorda, era gorda mesmo. Mas eu falava da estrutura narrativa que, assim como todo o resto da série, foi uma versão brasileira de Piaf – Um hino ao amor, de 2007, uma das mais impressionantes cinebiografias já produzidas. Se em Piaf, um filme de quase duas horas e meia, o vai-e-vem no tempo incomoda alguns (não a mim; eu adorei), imagine em uma série apresentada durante nove dias. Outro ponto é que a Piaf de Marion Cotillard foi caracterizada de forma magnífica em cada fase e muito merecidamente levou o Oscar de Melhor Atriz e de Melhor Maquiagem. De resto, me pareceu que o projeto de quase uma década de Jaymônico (o que eram aqueles Mentex enfiados nos dentes do menino?!) só foi possível depois de ter surgido Piaf, o filme. Assim fica fácil “ousar”.

E diferente do infeliz gracejo de que “Maysa é a versão brasileira de Amy Winehouse” (como pode uma versão vir antes do original?), título de artigo na Folha de S. Paulo, pode-se, sim, dizer que Maysa é a versão brasileira de Piaf. Menos punk e com menos alcance vocal, mas é uma comparação bem mais realista. Em vários sentidos. Quem não conhece a obra e a história da francesa, corra para a locadora e confira. Maysa – Quando fala o coração não terá conseguido estragar nada de Piaf – Um hino ao amor.

Já sobre A Favorita, também muito se falou da ousadia da narrativa em relação ao comum nas novelas brasileiras. No início, por não definir quem era a mocinha e quem era a bandida (e que bandida! já estou com saudades da Flora. “Tiro dói, hein?”; “Pra que hospital? Não vai ser necessário”; “Não tem problema. Depois você psicografa”); nos últimos meses, pelo ritmo alucinante com grandes dramas e revelações a cada capítulo. Isso também tem inspiração recente. Quem leu O Código da Vinci percebeu logo quando “o truque” começou a ser usado em A Favorita. O interessante é que aqui aconteceu o contrário do caso anterior, Piaf-Maysa. A trama, por ser dividida em capítulos na novela, funcionou muito melhor do que a versão para cinema do livro. No filme, o tempo entre as muitas novidades e revelações é tão próximo que não é possível aproveitá-las. Qualquer um que tenha lido o livro antes e visto o filme sabe bem do que estou falando. O livro tem capítulos curtos, nervosos, cada um apresentando uma novidade que já é esclarecida para que logo seja mostrado outro mistério. Na novela, esse artifício funcionou perfeitamente. Quem não queria sempre assistir ao capítulo seguinte nos últimos dois meses da história?

Mas se o autor da novela ousou na narrativa, não conseguiu – ou muito mais provavelmente não pôde – ousar no desenvolvimento de outras histórias dentro da trama. O eterno medo da Globo em escancarar relacionamentos homossexuais já não se discute. O jovem indeciso sobre sua sexualidade e a quarentona que depois de sofrer horrores nas mãos do marido brutamontes resolve ter outras experiências são histórias comuns no mundo real, mas ainda tabu nas novelas da emissora. Com a delicadeza que só um gay sabe ter, o autor deixou Catarina soltar um “Ai, que medo, essa viagem!”, enquanto embarcava na aventura com Stela. Perde o público, que continua fechado em um moralismo jurássico e é impedido de discutir um tema que finge não existir, mas com o qual é obrigado a conviver. Porém, a história não desenvolvida que mais me tocou foi a da gravidez de Mariana, filha de Catarina e Leo. A garota fugiu para o Rio, não fez nada por lá, quando voltou descobriram que estava grávida e nunca disse quem era o pai da criança. Para quem de alguma forma lida com histórias (escritores, roteiristas, diretores, leitores, cinéfilos, etc), existe alguma facilidade em ler nas entrelinhas. Já o público noveleiro, a grande massa que acompanha uma novela como o grande entretenimento de sua vida, que discute com o vizinho o que aconteceu no capítulo de ontem, acaba não percebendo certos cortes e dribles a censuras internas. Também de forma muito sutil, no último capítulo, quando Leo aparece e encontra a filha Mariana com seu bebê no colo, escuta um “Não toca nela! O senhor não vai fazer com ela o que fez comigo”. Ele diz: “Eu sou o que sou, filha” e “Eu vou sentir muita saudade de você, minha filha”, enquanto o olhar dela foge e demonstra repugnância. Será que todo mundo entendeu que a criança era do Leo? Que ele engravidou a própria filha? Que isso é algo velado, mas infelizmente muito comum em casas onde o macho-bruto-alcoólatra abusa sexualmente das próprias filhas? É a história que foi revelada pouco antes do início da novela e chocou o mundo: a do austríaco que manteve a filha presa por 24 anos e a engravidou seis vezes. É a história que está acontecendo neste instante em muitas casas no Brasil.

Gostaria de ver uma novela, a forma mais poderosa de se contar uma história em nosso país, cumprir suas funções sociais. Dentre outras, a de debater e esclarecer certos temas. Mas parece que ainda não estamos tão preparados para isso. Pelo menos o nível começa a melhorar e a busca por referências na história do cinema faz com que as histórias sejam mostradas de forma menos abobalhada. Ainda sobre as recentes produções, temos outros exemplos como Decameron (que vai virar série e sobre o qual falei há poucos dias) e Aline. Ambas com grande potencial para discutir temas considerados tabus. Aline se mostrou uma grande colcha de retalhos de ícones pop a ponto de reeditar uma cena de Bande à part, de Godard, com uma música de Amy Winehouse.

Tudo isso faz lembrar que o Velho Guerreiro estava certo ao dizer que “na televisão, nada se cria, tudo se copia”. Só espero que em vez de chupações descaradas, prevaleçam a boa escolha e o uso honesto de grandes referências. Subindo o nível, talvez um dia possamos usar de forma positiva um dos bordões de Bolinha, outro grande animador popular: “É disso que o povo gosta!”.

Logo abaixo em  COMMENTS
Esta entrada foi publicada em Cinema, Televisão. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

8 respostas a A TV vai à escola

  1. Patrício Jr. disse:

    Rapaz, novela é novela. Por melhor que seja, não tewm como ser boa. Como disse meu amigo Carlos Fialho, “uma mesma história que se estende por 9 meses não pode dar em boa coisa”. A Favorita está acima da média, sem dúvida. Mas é novela. Não podemos esperar muito delas.

  2. O impossível aconteceu: Sandro falando de novela 🙂

    (A espera do “best seller”)

  3. Impossivel nada Zeck, ele agora nao sai de casa a noite.

  4. Jandiro Adriano Koch disse:

    Não compreendo muitas coisas. Entre essas muitas coisas os que insistem em falar mal de novelas. Uma novela é feita para ser o que é (acredito eu) : uma novela. O noticiário, para ser um noticiário e assim vai…
    Transformar uma novela em algo 100% razão equivale a criar um documentário, não será mais uma obra de ficção.
    Se há brasileiros que pretendem educar-se através de telenovelas, o equívoco não está na novela, mas num momento pregresso da vida desses indivíduos.É miserável ter que aceitar que obras de ficção (apesar de muitos definirem as mesmas como um reflexo da vida em sociedade ou vice-versa) formam valores. É assumir que o sistema educacional no país é uma pilhéria.

    Claro o seu papel de entretenimento, ressalte-se o alcance indireto: a provocação. Não podem pretender revelar verdades, apenas suscitar questionamentos de valores em nós arraigados. Perguntas e discussões surgem através da análise de atitudes e comportamentos adotados pelos personagens. Qual seria o posicionamento de cada um de nós diante de tais situações? A Favorita, por exemplo, incitou a discussão da existência de “cura” para homossexualidade ou Orlandinho era bissexual? Em quantas casas não acontecem violências semelhantes às vividas por Mariana ,estuprada pelo próprio pai, calada (no meu entender) para não ferir a mãe? A loucura de Flora tinha razão de ser ou uma pessoa age daquela maneira impelida pelo mal inerente ao ser humano? Existe recuperação para o criminoso ou a solução é o espancamento (visto com olhar sádico pelos telespectadores) em cadeias superlotadas? É possível uma relação como a de Diva, Zé Augusto e do prefeito (dois é bom, três é demais?) ser de amor – não é sem-vergonhice? As profissionais do sexo e a cafetinagem (Cilene) é tolerada quando acompanhada de humor e simpatia? Quantas questões mais surgiram ao longo da trama?
    Esses questionamentos são mais do que se pode esperar de uma obra de FICÇÃO. A essas alturas já estou aplaudindo o autor.

    Portanto, nada vejo de mal ou vergonhoso em quem acompanha uma telenovela. Ela é arte, ficção, desligamento. Gera discordância, dúvida, reflexão. Provoca.

    Tudo depende da capacidade de quem acompanha a trama em usufruir tudo o que dela pode ser extraído. É o olhar de quem está em frente à televisão que precisa ser lapidado. Aí, voltamos para a educação. Um problema sério, um motivo de real vergonha.

    Deixo meus aplausos para as interpretações de Lilian Cabral e Paula Burlamaqui. Meus aplausos para Patrícia Pillar (eu, como autor, teria matado Donatela no último capítulo, isso sim balançaria com todas as estruturas. Donatela estava insupo! Eu não aguentava mais aquelas lamúrias).
    Minhas vaias para o ridículo papel e a pobre interpretação de Iran Malfitano. Minhas vaias para o fim exdrúxulo da adúltera Dedina (maravilhosa Helena Ranaldi).
    Entre vaias e aplausos, poderia continuar tecendo comentários de apreço ou desapreço. Uma apreçiação muito particular da arte.

    Precisava embaralhar algumas palavras, apesar de não ser noveleiro, cansei de ouvir pessoas acusando outras de serem fúteis por acompanharem uma novela (e ai-ai-ai – aqui vai hífen? – ser for da Globo!).

  5. Wilson Natal disse:

    Chacra tinha, tem e terá sempre razão.
    Quando levaram ao ar aquela novela ” Telefone tal – Ocupado” (não lembro o numero), com certeza, deveria ir ao ar por um canal sempre fora do ar. Assim estariamos livres de “nossas lágrimas de cada dia”. Por melhor que sejam – melhor?… Sempre têm um traço marcante de Gloria Magadan – a raínha do gênero. Sempre têm um quê de dramalhão circense. Nada muda. Monta-se o palco e surgem em cena Pierrot, Colombina e Arlequim. Só isso, nada mais.
    E aparecem miniséries “saltimbanquesas”, às vezes vazias, às vezes romanceadas com pretensões a biografia honesta,como a de Maysa. Dourar a pílula nem sempre é a melhor opção. A realidade da vida de Maysa se fosse à telinha, seria considerada uma obra-prima.
    De novelas, falo no geral, não as assisto. Nem as assisti ao tempo da Tupi e da Excelsior. Vejo cá e lá,acidentalmente, alguns capítulo e ouço os comentários pelas esquinaas da vida. Só.
    Uma coisa interessante aconteceu nesses dias. Acostumado a pesquisar a família e o império Matarazzo, fui alertado por um amigo: “Vai no Google e procura por Matarazzo.” Fui e, só dá a Globo e Maysa. Procuro por imagens e só dá Maysa. Nossa gente! A Maysa éra casada com o André Matarazzo!!! E procuro por André e André não está lá, nem no artigo e nem nas fotos. Mas há fotos de Maysa e farta propaganda da minisérie… Pasmem! A Familia e o império Matarazzo reduziu-se à Maysa Monjardim Matarazzo, aquela Maysa da minisérie da Globo…
    Vocês querem abacaxi?… Alô, dona Raimunda, como vai a sua… coluna? Ó Teresinha! Ó Teresinha! É um barato a discoteca do Chacrinha!
    Ps: Que maldade Sandro! O Jaymito não tem Mentex! É Chiclete ADAM’S!!!:P
    Abração.

  6. Jandiro Adriano Koch disse:

    Também não assisto novelas, acompanho esporadicamente. Minhas leituras me fazem mais a cabeça. O que me deixa em êxtase é a possibilidade de caminhar por outros mundos quando o meu território começa a parecer monótono e repetitivo. Um dia no “caminho das Índias” renova minhas forças e retorno ao meu novo pequeno-enorme mundo literário. O que me fascina é a possibilidade de visitar esses mundos (que não são a minha praia).
    Assim, convivo com eles pacificamente, não preciso dar uma de Bush e “declarar” guerra a torto e a direito. Diversidade, uma palavra que aprendi no universo gay (e que me persegue). Tolerância, um exercício. Tudo é só uma questão de usar o controle remoto.
    No entanto, antes que me resumam à futilidade (um amigo meu revoltou-se com a defesa da novela que leu no site), deixo a observação de que há um limite. A ficção superficial e fútil, inconsistente, é lugar de visitas, não de moradia.
    Vou pedir para meu amigo revisitar o site, se continuar com as acusações… me aposento!
    Abraços.

  7. joao~grando disse:

    Fora o preconceito de dizer “com a delicadeza que só um gay sabe ter” justamente quando se fala no assunto gay/ preconceito, este texto está bem didático, no sentido de abrir alguns olhos (especialmente aqueles mais fechados, desatentos etc.). Por outro lado, parece-me o mesmo que alguns comentaram aqui, novela é novela, acho que este tom que A Favorita alcançou já está bom, mais que isso não é mais novela (até porque quem está acostumado a assistir filmes e ocasionalmente vê uma novela provavelmente não deve estar esperando “exercitar o olhar”, por assim dizer). Eu acho que o pior ocorre nestes casos mesmo de minisséries e afins, em que se busca uma sofisticação e se está em verdade num meio termo. Mas talvez aí seja o mesmo caso da novela. TV (e inda mais aberta) é isso.

  8. Sandro Fortunato disse:

    JOÃO, o preconceito está nos olhos de quem vê, de quem lê, nos ouvidos de quem ouve, enfim, em qualquer lugar dentro de quem o possui e o alimenta. E interpretação errada não é exclusividade sua. Mesmo sem me conhecer, bastaria um rápido passar de olhos em outros escritos meus ou nos comentários feitos por vários amigos gays (beijos, meus queridos!), para perceber o absurdo de tal acusação. Nesse caso específico, não é preconceito: é PÓS-CONCEITO. Não sei os seus, mais os meus conhecidos gays são, em geral, bem mais sensíveis que os não-gays (beijos para vocês também). Ou será que eu não entendi e a acusação era de preconceito contra os que não são gays e eu os estaria chamando de insensíveis? Não sei. Escolha. Não entendo nem me afino com esses papos de preconceito. De qualquer forma, com a sensibilidade que só um escritor sabe ter – e que ninguém ache isso preconceituoso! –, agradeço a levantada de bola, que usarei como tema para um texto que virá por esses dias. Grande abraço e obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *