Os rabos de ouro

Vi um desfile e até tive contato mais pessoal com belas bundas durante o tempo em que trabalhei no Senado. Todas merecedoras de cuidados, bons tratos e benza-as Deus para manterem-se lindas. Mas provavelmente nenhuma delas conhecerá o conforto dos novos sofás e cadeiras que serão comprados pela Casa ao custo estimado de quase 2,5 milhões de reais.

Os móveis estão reservados aos gabinetes dos senadores, diretorias e satélites mais próximos. Segundo a direção do Senado, há muitos anos a Casa não adquire novas cadeiras e a compra se destina à reposição de “material desgastado”. Explicando, a gente entende. Mesmo passando tão pouco tempo em Brasília, os bundões dos nossos senadores estão sempre sentados e acabam com os pobres assentos que precisam suportar seus bem nutridos glúteos.

Em uma das fotos que abre este texto, feita ontem, aparecem os senadores Garibaldi Alves Filho e Tião Viana em um sofazinho dos tempos em que o Senado ainda era no Rio de Janeiro. O desgastado móvel aguenta bravamente as arrobas dos velhos conselheiros e suas preocupações mais urgentes: um tentando se manter na presidência; o outro querendo ser o próximo presidente. Nem o peso de tamanhas inquietações consegue lhes tirar os sorrisos.

Na outra foto, feita por mim no mesmo dia, na Comunidade do Maruim, em Natal, terra de Garibaldi, um casal de irmãos aprecia a atual fartura de caranguejos conseguidos no mangue vizinho ao local onde moram. Sentados no batente da casa – uma pequena obra que impede o esgoto de adentrar o cômodo -, parecem confortáveis e nada preocupados com os problemas que os cercam. Poderiam estar comendo dentro de casa, sentados à mesa se tivessem uma no cubículo que chamam de casa e dividem com pai, mãe, vó e outros irmãos. Poderiam estar sentados à mesa se coubesse uma no lugar que não tem espaço nem para cadeiras, que eles também não têm.

Mais do que apenas mostrar as diferenças entre os eleitos e os que elegem, coloquei a foto das crianças do Maruim para comentar sobre uma conversa que tive, na quarta, com Lars, alemão casado com uma brasileira, que está em Natal e encantado com “as coisas do Brasil”. Ouvindo-me sobre a pequena comunidade que eu havia visitado poucos dias antes e sobre suas subumanas condições de vida, ele perguntou: “Mas por que essas pessoas não saem de lá?”. Eu e Ariane, sua esposa, nos olhamos assombrados com a pergunta. Como explicar a ele que elas não têm escolha? Como explicar que não temos um Estado capaz de prover condições dignas – mínimas que sejam – de moradia, alimentação, educação e saúde? Como explicar que o valor oferecido como indenização para que eles saíssem dali seria suficiente apenas para eles comprarem outro barraco em outra favela? Como explicar a um alemão que essa é a nossa realidade?

No dia seguinte, foi divulgada a notícia da licitação de 2,5 milhões de reais aberta pelo Senado para comprar cadeiras, 85 delas com assento “anatômico e estruturado em concha”, revestimento de couro preto, com base giratória de “movimentos silenciosos”. Como explicar ao alemão um gasto de quase 800 mil euros, uma fortuna, para que nossos políticos possam se sentar confortavelmente? Como explicar que essas mesmas pessoas querem gastar 5,6 milhões para fazer um túnel que liga o Senado ao Palácio do Planalto quando para ir do primeiro ao segundo basta colocar o pé na rua, atravessar uma faixa de pedestres e andar mais uns 30 metros? Mas deve haver um bom motivo para isso. Rebolar suas gordas nádegas por tantos metros sob o sol do cerrado pode causar algum mal. Deve ser isso.

Olha, Lars, assim como vocês sempre cuidaram das cabeças do seu povo e assim tiveram grandes filósofos, nós cuidamos das bundas dos nossos políticos. É com elas que eles pensam. E pensar com a bunda, você sabe, só pode dar em merda. Por isso estamos nessa! Seja sempre bem-vindo ao nosso mas, acima de tudo, tenha um feliz retorno ao seu país. E a respeito da pergunta sobre o que acho que vai acontecer nas próximas eleições, já tenho a resposta: quando você voltar, teremos uma mulher no poder. Pelo andar da carruagem, no próximo ano elegeremos a Mulher Melancia. Aquilo sim é um bundão que vale a pena!

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2 respostas a Os rabos de ouro

  1. Henderson disse:

    O pior é que se lá só tem Bundão, o que tem de gente querendo ser cueca ou papel higiênico para poder ficar bem pertinho…basta observarmos os nossos amados jornalistas, advogados, contadores etc. Olha, o que tem de profissional se sujeitando a ser pano de bunda…

  2. Wilson Natal disse:

    A melhor coisa que ouvi sobre o assunto, aqui em Sampa foi:
    “Putaquepariu! Estão tratando esses cú de chumbo como fossem cú de ouro!”
    Mas por que devemos nos escandalizar? Afinal este é o País do deperdício, dos trambiques e das mumunhas. E, eles não foram chegando, entrando e metendo o rabo nas cadeiras. Nós, enqunto povo, os colocamoslá. E enquanto metemos o nosso rabo na pedra, no pó, eles levantam-se de suas caríssimas poltronas, metem seus cús na nossa cara e exigem poltronas, cadeiras, mais caras e mais confortáveis. E o povo resmunga pelos cantos, mas não age. Eu aqui no meu canto – brinco que sou siberiano, nesses dias de fartura e estabilidade mundial, aplaudo as prostitutas desse bordel chamado república e digo: Agradeçam a Deus! Em nenhum lugar do mundo existe um povo tão capacho como o povo brasileiro. Longa Vida, longo mandato a vocês!
    Abração.
    Ps: Um povo que perdeu os culhões, há sempre de viver como eunuco subserviente.

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