Maysa

Maysa faz parte de minha infância. Lembro de um LP de capa preta com uma foto sua, colorida, loira, olhos pintados, encarando quem pegasse o disco. Lembro principalmente de três músicas: Ouça, Meu mundo caiu e Se todos fossem iguais a você. A voz grave me impressionava, parecia triste, cantando coisas do “mundo dos adultos”. Acharia soturno se soubesse o significado disso naquele tempo.

Era bem diferente do restante que costumávamos ouvir em casa: Roberto Carlos, Benito Di Paula, Sidney Magal, Frenéticas,… E era sempre eu quem colocava o disco. Achava linda aquela mulher que parecia olhar para mim tentando me ensinar algo: Meu mundo caiu/ E me fez ficar assim/ Você conseguiu/ E agora diz que tem pena de mim. Os versos finais eram a verdadeira lição que eu lembraria muitas vezes: Se meu mundo caiu/ Eu que aprenda a levantar.

Maysa foi minha primeira professora.

São lembranças do final dos anos 70, quando ela já havia morrido. Isso dava um tom ainda mais sinistro aos momentos em que eu insistia em ouvir o disco. Minha mãe torcia a cara. Era como se eu estivesse invocando um espírito.

Em 1969, Maysa foi entrevistada por O Pasquim (número 2). Abaixo, alguns trechos nos quais demonstra a personalidade forte e difícil e fala de episódios abordados na microssérie atualmente exibida pela Globo.

Eu, geralmente, jogo o microfone na cabeça de quem atrapalha (enquanto ela estivesse cantando). Uma vez, no Copacabana Palace, havia um senhor que estava fumando charuto na minha frente, eu pedia a ele para parar de fumar, porque a fumaça estava me atrapalhando, ele não parou. Pedi duas, três vezes, para parar de fumar o charuto, ele não parou, eu joguei o cigarro que estava fumando, direto na cara dele. O público inteiro me aplaudiu de pé. Na Argentina, já joguei sapato, microfone etc. Agora, não, agora estou mais calma, só paro de cantar.

Quando perguntada se existia no Brasil uma cantora melhor que ela:

De vez em quando eu gosto da Elis cantando. Quando ela não faz malabarismo como faz atualmente, quando ela canta ela mesma, eu acho que ela canta muito bem.

Na seqüência, respondendo o que achava de Elis Regina como pessoa:

É um mau caráter. Mas um mau caráter no mau sentido. Mais do que isso, nem isso ela é, ela é uma coitada.

Sobre seu casamento :

(…) quando era casada com o Matarazzo, eu nunca comunguei da cartilha dele, não, entende? Na minha casa, sempre recebi quem eu quis, sempre fiz o que quis, quando comecei a cantar recebia em casa todo o mundo que me dava vontade, quer dizer que nunca participei da vida de sociedade.

Sobre ter parado de beber:

(…) Eu só parei de beber pelo seguinte: eu não sei beber um uísque só. E bebendo 80, que é o mínimo que gosto, me faz um mal desgraçado, está entendendo? Então é um negócio de sobrevivência. Por isso é que parei de beber.

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6 respostas a Maysa

  1. Wilson Natal disse:

    Logo, muitos estarão falando maravilhas de Maysa. 🙂 Falarão do que viram na “Grobo” ou no Google. Um conselho: fiquem com o Google. Ele pode ser falho, mas verdadeiro.
    A Maysa. sem fantasia, que eu conheço é linda e louca. Egoísta, bipolar e alcoólatra. Canta “fossa” e “bossa” divinamente. Uma mulher riquíssima, como ela mesmo dizia: “tenho uma mina de ácido-úrico.” Adoro aquela Maysa, cantando no Japão, onde foi confundida com uma “puxadora” de escola de samba e, putíssima da vida marca, estalando os dedos ao cantar o seu número. Se fosse acompanhar a orquestra, estaria frita. Adoro aquela Maysa que toamando todas em Buenos Ayres, era toda “paparicada”. Era um tal de Señora Condesa para cá e señora condesa para lá. E a senhora condessa, só no “mé” e no deboche fez o maior furor na capital portenha.
    Uma Maysa que nasceu para ter alguém e para ser só, nasceu para ser ímpar e não par…
    E,um dia a chama se apagou: Foi triste… Na minha mente ficou para sempre a canção que é a própria Maysa em sua realidade:
    Todos acham que falo demais/ e que ando bebendo demais./ Que esta vida agitada, não serve a nada/ a não ser andar por aí, bar em bar. Ninguém sabe que isso acontece porque/vou passar minha vida esquecendo voce…/E é por isso que eu falo demais/ é por isso que eu rio de mais/E que conto piadas demais…
    E por aí vai a música e a letra da canção.
    Tudo em Maysa era demais…

  2. Henderson disse:

    Que poder tem essa Globo, não? Agora por onde passo só escuto falar em “MAYSA”!!! Que assim seja, mais Maysa e menos “calcinha Molhdada” ou Ferro quente atrás, ou qualquer outra bosta desta! Tomara que passaem a escutar mais Tom, Vinícios,Nara, Chico, e quem sabe até Miles, Coltrane etc.

  3. mayhara disse:

    aiq ue ótimo.. quero ler inteira!

  4. elaine disse:

    ah maysa!

    genio forte…verdadeira…como sofremos por sermos verdadeiros….

  5. Elias disse:

    Maysa era uma cantora apenas correta, que poderia ter tido uma carreira melhor sucedida se não fosse alcoólatra e sofresse de transtorno bipolar e depressão profunda. Quando surgiu eu já era um rapaz feito e pude acompanhar cada episódio da sua vida artística e pessoal. Curiosamente, me lembro mais da sua atuacão nas novelas, principalmente “O Cafona”, do que em especiais de TV e shows; sim, estive no Canecão, no seu show de retorno e gostei muito.

  6. andreza disse:

    adorei a minissere adoraria ter conhecido ela..

    tem um genio forte …

    algo nela mecheu comido achu ele uma pessoa demais…

    que pena a vida dela ter sido interompida por este tragico acidente..

    achu que quem falo mal de maysa é pq nao se enxerga …

    adoro principalmente a musica”MEU MUNDO CAIU” musica impresionante a forma como ela canta me emociona…]

    pena eu ter perdido o ultimo capitulo..

    só quero mesmo dizer que sou uma fâ de maysa …

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