Gente do Maruim

Maruim é um mosquitinho comum em área de mangue e de pesca por conta da matéria orgânica em decomposição. O danado pode deixar alguém de cama por quase duas semanas. No Canto do Mangue, em Natal, há uma favela… favela, não, que isso é invenção de político safado, com perdão da redundância, que não leva infraestrutura e condições básicas de saneamento a certas comunidades… como dizia, em Natal, há uma comunidade que leva o nome do tal mosquito.

São aproximadamente 260 pessoas. A maioria vivendo em pequenos vãos que eles insistem em chamar de casa. Um único cômodo, sem banheiro, “onde dormem dez meninos e três mulheres com o marido”, segundo me explicam. A formação pouca ortodoxa das famílias é denunciada pelos sobrenomes das crianças. Há sempre um sobrenome igual e muitos diferentes. Os pescadores vivem felizes com seus pequenos haréns, com suas creches e assim a vida vai sendo levada.

A criançada vai à escola, mas não tem condição de estudar em casa nem quem as oriente para isso. Nas férias, se não estão correndo pelas pequenas vielas tomadas por esgoto – que às vezes passa dentro da própria casa – e animais doentes, acompanham as mães que catam mariscos para vender. Saem cedo para o mangue e voltam ao final da tarde. Lavam, raspam, cozinham e quando juntam um quilo tentam vendê-lo a cinco reais. Tentam. Porque geralmente fica por quatro, três, quanto derem.

Foi na Comunidade do Maruim que passei parte da tarde desta quinta. Fui acompanhando Canindé Soares e pelo menos outros oito fotógrafos: amadores, profissionais, repórteres fotográficos, curiosos. Já há alguns anos que Canindé empreende ações junto à comunidade. Além das fotos, que mexe com a autoestima dos moradores, já promoveu uma sessão de quase cinema, exibindo o resultado em telão. Platéia cheirosa, banho tomado, a melhor roupa e a garotada gritando, caçoando de cada amiguinho que aparecia. Mangando mesmo, que caçoar é coisa lá de baixo. Pode mangar à vontade!

Macaco velho, eu disparava na frente do grupo para pegar os moradores desprevenidos e, portanto, com naturalidade, ou ficava por último, para quando eles cansavam de posar e, distraídos, voltavam a ser eles mesmos. Gosto de retratos, mas prefiro o fotojornalismo e, nesta última modalidade, não tenho direito de interferir na realidade. Com o pequeno batalhão de fotógrafos apontando suas máquinas, a rotina da comunidade muda e a realidade passa a ser outra: a de um bando de curiosos interferindo na vida alheia.

Se não há como impedir isso, que tal fazer a criançada participar de uma forma diferente e passar para outro lado das câmeras? Saquei um celular e fiz o convite a Júlia, 9 anos: “Você olha por aqui e aperta…”, “Pode deixar que eu sei”, me cortou, já gritando para as coleguinhas se juntarem. Pronto! Fiquei popular na comunidade. De “tira uma foto minha”, o mantra mudou para “deixa eu tirar uma foto?”. Deixo, claro. E assim novos fotógrafos se revelaram no Maruim. Sensação maior só quando passei a anotar os nomes de cada um para posterior identificação. A essa altura, as crianças já tinham a certeza de terem virado celebridades. Novo mantra: “Anota aí o meu nome também”. Anoto, anoto. Cíntia, Maiara, Alice, Gláucia, Mariana, Martinha, Geovana, Alane, Alana, Rafael, Alan, “é com dos ls”, desculpa, Allan, Jackson, Vanessa,… Todos com nome e sobrenome. Tudo gente de verdade! Nenhum deles perguntou como eu me chamava. Ah, tudo bem, eu não sou ninguém mesmo.

Fim do palavrório. Clique aqui e confira o álbum Maruim no Flickr. Aqueles que participaram da caminhada, deixem nos comentários os endereços de seus blogs e flogs. E até a próxima.

Links externos:
Fotos de Canindé Soares no Maruim
Flickr de Leo Carioca

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9 respostas a Gente do Maruim

  1. Fotografar o Maruin, apesar de tudo, da degradaçao em que vive aquelas pessoas, para mim ainda é uma coisa muito gratificante, e é gratificante por ver a alegria das crianças, por elas saberem que alguem olha para elas e tambem por poder mostrar para o povo “la de fora” que ali existe alguem, que ali o sofrimento é grande e seria insuportavel para qualquer ser humano “normal”. Valeu mais uma vez.

  2. Natália Lima Castro disse:

    Apesar do meu pouquíííssimo tempo de experiência na área já consigo observar a minha preferência pelo fotojornalismo. Ainda tenho um pouco de receio em chegar nas pessoas, exercício que estou praticando com a foto. Conhecê-las antes é muito mais gratificante que sair simplesmente invadindo o cotidiano delas. Achei muito legal a idéia de interação com as crianças. O filme “Nascidos em bordéis” aborda a questão de uma forma bem interessante. Enfim, gostaria muito de estar junto nesse projeto.Abraço.

  3. meire disse:

    Ola bom dia adimiro muito o trabalho de vcs estou sempre acompanhando,vcs tem um trabalho maravilhoso sentem na pele o que esta comunidade passa,talvez não tenhão dado muito sorrisos mais pode ter certeza que vcs ficaram na lembraça de todos,beijos abraços e fiquem com deus sempre e que deus ilumine muito esta comunidade

  4. Márcia disse:

    começando na rua da Floresta, que não é rua e nem tem floresta, mas um ‘largo’ com uma única árvore no meio, de onde se desenrola o fio do labirinto…

    bjs

  5. Vai acabar por se transformar em roteiro. Quando eu estiver em Natal outra vez, quero ir também!

  6. Luana Lemos disse:

    Conheço bem essa àrea… Trabalho com os pescadores e marisqueiras do Maruim e litoral norte!! Projetos de qualificação profissional, remanufaturamento do pescado, pesca artesanal, pesca e conserva da lagosta. Gente tão especial à começar por seus nomes com “dois ls”, muitos engraçados, muitos sofridos.

    Abraços sandro. Aqui, realmente sempre algo para ler!!!

  7. DJLEO disse:

    Foi muito gratificante como pessoa estar ali naquele dia. Espero voltar mais vezes.

  8. NATÁLIA, a idéia veio justamente do filme Nascidos em bordéis, do qual falei aqui, em janeiro de 2008. E se o Maruim de Natal está longe, procure um em Londrina e arredores. MARCELO e LUANA, pulem para dentro nas próximas ações no Maruim.

  9. Vladimir Mendes Patrício disse:

    Nossa!! sinto que oramos muito pouco ou quase nada em favor dessa gente.que Deus os abençoe e guarde com Sua potentosa mão.

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