A reportagem como ela é

Veterinário. Era o que eu dizia querer ser quando crescesse. Preferia lidar com animais a lidar com gente. A vida, sábia e sempre disposta a contrariar, resolveu me fazer jornalista. E assim pude realizar minha preferência em lidar mais com animais do que com gente.

A gente que eu conhecia e a que está por aí são mesmo sem graça. Todos com pressa, sem tempo, vivendo uma não-vida, vestindo mil máscaras para tentar mostrar como realmente são. Mas existe gente de verdade, como na escola do poeta Russo, gente interessante, gente que faz descobrir o verdadeiro sentido do termo humanidade.

Essa gente me atrai. Não tenho uma veia jornalística. Tenho uma artéria de grosso calibre sedenta por histórias que me nutram, que me mantenham vivo. Não busco personagens. Busco pessoas. Não desejo cumprir pauta e encher buracos em troca de uns caraminguás. Desejo contar histórias de vida que enriqueçam as de outras pessoas sem que estas precisem passar pelas mesmas experiências, aprendendo em minutos – e sem dores – o que talvez não tivessem oportunidade de aprender em cem anos.

A reportagem me atrai. Não a saída para cumprir pauta, para “fazer matéria”. Falo de reportagem como ela deve ser. A captura da essência, em textos e fotos, que mostre tanto quanto possível a realidade. Eu disse “realidade”? Não é à toa que a melhor revista de reportagens da história do jornalismo brasileiro tivesse esse nome.

Há muito tempo que fazer uma matéria é sentar ao telefone ou trocar mensagens eletrônicas. Tudo rápido e acético, sem abandonar o conforto da cadeira e do ar condicionado. Reportagem é outra coisa. É sair cru e preparado para o que der e vier, pronto para encarar a história real e não apenas com o objetivo de conseguir algumas informações que complementem um texto pré-concebido antes mesmo de se ter contato com a realidade. Olha ela outra vez.

Foi com esse espírito que eu e Canindé Soares partimos, logo cedo, no feriado de Reis, para Sibaúma, uma pequena praia ao lado da internacionalmente conhecida e festejada Pipa. Sabíamos que não iríamos encontrar uma pequena comunidade só de negros descendentes de escravos. E isso era justamente o que não interessava: o que já sabíamos. Pegamos uma estrada desconhecida, que nos levaria a pessoas e suas velhas histórias totalmente novas para nós.

Ali todos conhecem todo mundo, sabem onde moram, se estão em casa ou em outro lugar, e, se são de lá mesmo, quase sempre têm algum grau de parentesco. São simpáticos, educados, falam bem, um ou outro demonstra timidez mais que desconfiança. As casas são simples e pequenas, as famílias são grandes e a cada quinze ou dezesseis anos já surge uma nova geração. Nem todas as casas têm telefone, quase não se vê alguém com celular, mas há acesso à Internet na única escola pública e na praça, onde há uma praga do mundo moderno: uma lan house. Não há livraria, nem banca de jornais. Nem mesmo há um carteiro. Alguém vai aos Correios em Tibau do Sul, município ao qual o distrito de Sibaúma está atrelado, pega as correspondências e faz a distribuição entre os moradores da praia. As notícias chegam mesmo pela tevê. Por mais simples, pobre e pequena que seja, praticamente toda casa tem uma parabólica.

Nem bem chegamos, nos deparamos com uma casa de taipa e, junto a ela, três gerações de uma família enorme como são todas entre os descendentes de negros de Sibaúma. Seu Sebastião veio da Paraíba, mas sua esposa Avani é dali mesmo, assim como todos os filhos e netos do casal. José, o neto de dois anos, é um garoto simpático e que adora posar para fotos. Nos olhos puxados, a certeza de que Sibaúma não é só de negros. Mesmo os mais antigos têm traços indígenas. São cafuzos, mas o termo que vingou foi o de caboclo. Às vezes nos deparamos com alguém que aponte outro como “caboclo”, quase de uma forma depreciativa, como a dizer que não é negro puro.

Mas essas denominações ficam para os livros didáticos. Em Sibaúma, convivem todas as cores em variados tons. Em outra casinha de taipa, minúscula, quente e sem qualquer conforto, encontramos seu João Honorato, um dos mais velhos da comunidade. Sua idade? Segundo ele, 83, mas qualquer pessoa com mais de quarenta tem dificuldade em precisar a idade por ali. Alfabetizados e registrados na própria localidade, só os nascidos da década de 80 para cá. Seu Honorato nos convida para entrar, acomoda-se como pode em sua rede e começa a contar a história da terra como se tivesse acontecido um dia desses. Ele não trabalha, anda com dificuldade apoiado em um pau, tem os olhos amarelados e ainda fuma, mas a memória está lá e a voz é segura e forte para alguém que parece tão frágil. Não tem contato com os filhos, que deixaram Sibaúma, e nem sabe se tem netos. Certamente tem. Procriar é o esporte oficial da comunidade. Na nova geração, a cara do Brasil fica mais presente. Há branquinhas que desafiam os fatores dominantes da hereditariedade e o sol forte como Safira, que freqüenta a única igreja evangélica do local e sonha em ser cantora. E ela é afinada. Mais adiante, na casa de Dona Juvina – 80 e alguns anos, nove filhos, um dos quais, Neusa, não vê ou tem notícias há mais de três décadas –, encontramos Ismael, de apenas 21 dias, também mestiço.

A cada parada, muitas surpresas, muitas histórias e uma vontade de ficar ouvindo tudo, totalmente esquecidos do tempo. Quase ao final, encontramos seu Modesto Caetano. Lembranças, delírios, invenções. Tudo sem perder o foco. Tudo fazendo sentido. São tantas histórias que não caberiam em uma só reportagem. Nem em uma edição inteira de uma revista de reportagens, se isso ainda existisse. Cabem em uma série. Cabem em um livro.

Os desdobramentos dessa e de outras aventuras junto a Canindé serão avisados aqui no blog. Este foi só um aperitivo. Em breve, mais novidades.

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3 respostas a A reportagem como ela é

  1. Renata Silveira disse:

    A fome com a vontade de comer…
    Outro dia eu dizia ao Canidja que o “filtro” de notícias “made in Brazil” ara mim são o Sandro e o canindé! E agora os dois resolvem fazer dupla?! Fantástico!! Obrigadíssima!!
    Baideuei… Adriana Silvira, ex-aluna, grande fotógrafa e amiga, fez a monografia dela orientada pelo Marcelo andrade sobre essa comunidade reminiscente de descendentes de escravos.
    Gente simples, pobre mas nunca miserável! Adorei este outro olhar sobre o mesmo povo!
    Vou mesmo ficar a espera de “novas e emocionantes aventuras jornalísticas” desta super-dupla!!
    Beijos, saudades dos 2!

  2. Parabéns, cumpade. Sempre bom termos notícias desses mundos paralelos que sobrevivem em nosso mundo. Mas não seja tão rígido com as lanráus, elas têm sua utilidade social. E que bom saber de Tibau do Sul!!! Meu romance O Irresistível Charme da Insanidade é ambientado nesse lugar maravilhoso. Faço votos que a parceria com o Canindé nos traga mais notícias dos mundos do mundo. Abração!
    RK – São Paulo-SP

  3. Apesar de ter trabalhado em redaçoes de varios jornais, ter feito trabalhos para varias revistas, pela primeira vez me senti um reporter de verdade. Valeu Sandro, alias esta valendo!!!

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