Decameron

Na falta de adjetivo mais apropriado e evitando falar mal, costumo soltar um insosso e cortês “bacana”. Decamerão – A comédia do sexo, exibido pela Globo, foi bacaninha. Na contramão de Capitu, que certamente levou muita gente a procurar Machado pela primeira vez, Decamerão não inspira maiores curiosidades e, caso o faça, deverá trazer decepção.

Repito: achei bacaninha. Praticamente nada tinha de Decameron. Para quem não sabe, Decameron, de Giovanni Bocaccio, é uma série dividida em dez capítulos, dias ou jornadas (giornata) cada um com dez contos (novella) totalizando, pois, cem histórias. Nelas estão presentes a sátira à mentalidade da época (Idade Média), aos costumes, ao poderio da Igreja e, sim, há sexo em muitos contos. Há seleções de alguns destes, em português, em pequenos livretos, mas edições com a obra completa é algo mais difícil.

Deixando o papo cabeçudo, literário e sebístico para outras ocasiões, vou me concentrar no pouco do Decameron que conheço em adaptações cinematográficas. São inúmeras. Versões, aversões (muitas), mutilações (várias) e outras ignóbeis ações. Mas há duas, creio, as mais conhecidas, que são referências: Boccaccio 70 e Il Decameron.

A primeira, de 1962, é a junção de quatro histórias, ambientadas no século XX, cada uma dirigida por um diretor italiano: Renzo e Luciana, de Mario Monicelli; As tentações do Dr. Antônio, de Fellini; O trabalho, de Visconti; e A rifa, de Vittorio De Sica. Preferência a parte, cada ato é muito bem dirigido. Mas são apenas quatro histórias, contadas de forma moderna, unidas para uma homenagem a Boccaccio. Trabalho tão honesto que não levou o título da obra na qual foi inspirado.

Não que Il Decameron (1971), de Pasolini, também não o seja. Mas são apenas nove das cem histórias, quase todas com sexo no meio. Bem escolhidas, por sinal, representando situações passadas ao imaginário coletivo como o fantasma que volta para informar ao amigo que fornicar não é pecado, o amado morto que aparece em sonho à namorada para dizer onde foi enterrado, o jovem casal que é pego em flagrante e se alegra com a obrigação de casar, etc.

Sem algum conhecimento a respeito da obra de Boccaccio ou pelo menos da de Pasolini, creio que o filme pareceria meio sem sentido para as plateias de hoje (entenda como quiser… sim, foi isso mesmo que eu quis dizer). Não há uma ligação nem uma divisão evidente entre cada história. E a que Pasolini participa – uma sátira a ele mesmo – parece totalmente fora de contexto até ser dado o veredito final que, evidentemente, não vou contar.

Quando vi anunciarem Decamerão e ainda com esse subtítulo de A comédia do sexo, me perguntei se teria a história do padre e da égua e quem faria esta. Depois de visto, fiquei com a impressão de que confundiram Boccaccio com Bocage. Acho ainda que deveria ter se passado na Bahia e que Gregório de Matos deveria ter sido plenamente assumido. Assim, a historieta teria mais sentido. Com a permissão do Boca do Inferno, digo que de dous ff se comporia esse episódio a meu ver: um furtar, outro foder. Queria ter visto a versão global ter posto para. Na falta, io preferisco quelli italiani.

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2 respostas a Decameron

  1. Clotilde Tavares disse:

    ô Wolf, qual é o filme que tem o episódio do padre “fabricando” a égua? Para mim, é esta a melhor das cem histórias do Decamenron. Tenho o Decameron de Pasolini, que veio numa caixa com Os Contos de Cantuária e As Mil e Uma Noites.
    Outra coisa. Vi o Decameron global, achei engraçadinho, mas me pareceu mais com Maquiavel do que com Boccacio, nem sei porque. Atores maravilhosos, texto em versos – muito bom! -, um figurino legal, mas nada que eu classificasse assim como imperdível.

  2. CLÔ, a história do padre e da égua, que aparece na imagem no começo deste texto, é uma das últimas mostradas no Decameron, de Pasolini.

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