A rinoplastia do portuga

Mutanças na ortographia. Diphtongos perdem accentos, o trema some, o hyphen tem novos preceytos. Cousas communs desde muytos annos sofrem modificaçoens. Estudiosos da lingoage examinão attentamente os particulares do portuguez e, sob pao e pedra, saem a mexer na escrita. Nem Deos segura.

Sahe isso, entra aquillo, acendem paixoens, crião facçoens, allegão milhoens de vantajes. Não gosto, he peccado, fica feo, dizem huns. As vogaes continuão lâ, a pronunciação he a mesma, expressoens e fallares seguem firmes.

Então qual é a preocupação? Principalmente aqui no Brasil, onde a reforma ortográfica causa pouquíssima mudança. Menos ainda se falarmos somente daqueles que escrevem corretamente por conhecerem as regras gramaticais, grupo no qual, obviamente, não me incluo. Nunca vi um caga-regras – e certamente não verei um cagarregras a partir do dia 1º de janeiro de 2009 – que fosse profundo conhecedor do idioma. Se fosse, nada temeria. Os dois primeiros parágrafos deste texto foram escritos em português e todos entenderam. E não há nada de errado nele, só está escrito como se no século XVII. De lá para cá, muita coisa mudou. Por evolução natural do idioma ou por convenção acadêmica. Deixemos, pois, o vanilóquio de lado e nos concentremos em questões mais importantes.

Teremos quatro anos para ensinar aos que estão no ensino fundamental, aos do ensino médio, ao do ensino superior e até aos doutores que não sabem escrever corretamente. Este é o ponto: aproveitar a mudança e a discussão em torno dela para melhorar o ensino e, consequentemente, o nível educacional, já que hoje nos limitamos a outorgar graus sem nos importarmos com o que realmente foi aprendido.

A língua é viva e, aos que têm amor a e fazem bom uso dela, pouco valem regras impostas. Mas é necessário que existam. Lá nos idos de 1688, Padre Manoel Fernandes, já alertava que (Desta maneyra, em Portugal,) para o modo de escrever não ha moda, nem regra certa; quasi todos escrevem como querem; e com a continuação dessa diversidade, só cada hum poderá entender a sua escritura. Deve estar em cólicas em sua cova, hoje, no pré-império do miguxês, quando as vogais já se fazem quase totalmente inúteis, vc tb n axa?

Viu algum escritor importar-se com a mudança? Provavelmente não, tanto do tipo que vai morrer desconhecendo uma ou outra forma ortográfica quanto daquele que está mais preocupado em subverter a sintaxe.

Essa pequena cirurgia estética que começa a valer em 2009 – e é para valer a partir de 2012 – é como uma pequena correção no nariz de quem se ama: não precisava, mas se melhora, ótimo. O português agradece e fica com melhor auto-estima. Com ou sem hífen.

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5 respostas a A rinoplastia do portuga

  1. Marcelo Andrade disse:

    “hoje nos limitamos a outorgar graus sem nos importarmos com o que realmente foi aprendido”.

    Esta é a verdadeira questão. Nem sequer aos sindicatos interessa falar nisto a sério.

    Agora que na economia o tal neopalavrão “neoliberalismo” já deu provas de que foi à bancarrota, falta agora questionar o modelo de educação que herdamos na américa latina.

    Quando digo herdamos refiro-me às doutrinas do FMI (sim, elas são reais e acredite, concretas!) e não a Portugal, país este que vem aplicando sistematicamente boa parte das mesmas diretrizes que deixaram a educação do Brasil neste estado.

  2. Diego Viana disse:

    Brilhante, como de hábito.

  3. Wilson Natal disse:

    Couzas e Louzas da Língua Portugueza.

    Quando achamos que estamos promptos para graphar correctamente esta dicta “Flos Latium”, mudam as regras. Muda-se a graphya da língua como quem trocca, troca de facto.
    Não vou perder meu somno, ou sonno, ou sono, por cauza, causa disso. Por que sei que outras mudanças absurdas virão e serão accrescentadas à Synopse das tantas mudanças. Passei por só – sòmente; saüde – saúde; objecto – objeto e vou, obbivio,óbvio (Ou será obvio?) superar mais essa.
    E, depois de tantos annos, anos eu continuo escrevendo muito bem em francez, Francês, Frances…
    Mudanças Orthographycas, ortographycas são como as muitas fothographyas, fotographyas, fotografias de uma velha senhora, revelando as innumeras, inúmeras plásticas que fez.
    E, para evitar os dissabores dessa actual mudança tomo um copo de Sal de Fructa ENNO e fico a recitar:
    Nel mundo non me sey parelha. Tanto me foy como me vay. Mia senhor branca e vermelha, queredes que vos retaya, quando vus vi em saya?…
    Abração.

  4. Izilda - Zi disse:

    É isso, Sandro.
    A língua é um fenômeno vivo e precisa de uns acertos de vez em quando. Seria mais cômodo deixar como estava, certamente. Mas que mal há em dar um trato de vez em quando? As pessoas resistem às mudanças. Essa é só mais uma. Bora lá que tem coisa mais importante pra se pensar…
    Beijo de Ano Novo…o primeiro.

  5. Márcia disse:

    Quero continuar escrevendo errado até aprender a escrever ‘certo’. O que pode ser em 2009, até 2012 ou nunca. Pelo sim, pelo não, continuo vindo aqui, onde sempre aprendo.
    Beijo.
    Feliz Ano Novo!!!

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