Minhas exéquias

 

Dentre meus erros mais comuns, está o de descer a andares do inferno aos quais não fui convidado. Sem credencial, vou me esgueirando, me fazendo invisível a pobres diabos bêbados que, em vez de zelar pelos portões, transitam por toda aquela zona como se em uma repartição pública qualquer.

Tendo estado várias vezes por lá, já me canso. As mesmas tristes almas arrastando velhas correntes, mendigando atenção, um pouco de carinho, um consolo qualquer. Todas lembrando que só as mães, santas e protegidas em suas camas, são felizes.

Procurei uma luz qualquer que indicasse a saída daquele lugar onde todos os cantos são escuros. Era tarde. Não que fosse ficar para sempre. Saí, mas já ouvia as carpideiras. Estavam em andamento minhas exéquias.

A luz vinha da voz do vigário, que tentava me garantir passaporte e absolvição. Não quis me ver defunto. Devia estar bem ali, ao centro, na sala onde acontecia a vigília. As incelências já iam bem no quinto apóstolo. Aqui e ali, um latim para dar tom mais airoso e sagrado à encomenda, impressionar a quem viesse me estender a mão e me fazer subir à derradeira barca. “É homem de letras esse que aí vai. Cuide no trato. Aproveite a prosa durante a travessia”. E seguia com o Ordo Exsequiarum, a mostrar que também era, lembrasse e bem cuidasse quando também chegasse sua hora, officium defunctorum e benzeções mil de toda a assistência, que assim seja, amém.

Não vi ataúde nem rede. Estaria o que me abrigou ainda a ser vestido, alguém pedindo para que amolecesse os braços, resquícios de minha teimosia dando trabalho a alguma alma caridosa e temente? Eu ainda meio cá, meio sem querer ir, vela na mão, rezando um ofício qualquer de agonia, pedindo a caridade de Todos os Santos? Se errei, foi por ignorância, mal nenhum quis causar, perdoai e outros ais no imperativo, mas sempre com humildade, lembrai-me imperfeito, transformai este miserável em algo que preste para que mereça um lugar bom, ao menos um que não seja quente, que não gosto de suar.

O filme já começando a passar num atropelo, Natal, Alban Arthuan, Luz na Terra, qualquer coisa que explique as acontecências, pelo amor de! Sim, são para mim os sacramentos. Mistérios revelados a lembrar que é preciso morrer para nascer verdadeiramente. Sant’Anna aí a dizer-me por onde o novo velho caminho. Eu, distraído, tantas vezes o perdi. Era mesmo para ter arriscado mais e complicado menos.

Suspendam o choro que o afortunado morto já é vivo. Levanta o Te Deum laudamus, que eu quero achar graças nessa ação. Não serei confundido eternamente.

Esta entrada foi publicada em Livre pensar. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

5 respostas a Minhas exéquias

  1. Wilson Natal disse:

    E assim, a “incelença” atravessou o Jordão e entrou no Paraíso e deixou como testamento um contículo.
    “Laudamus te Domine”, pela assustadora experiência de viver e renascer a cada dia, pela capacidade de nos reinventarmos.
    Adeus, velho Sandro! Até o Dia do Juízo (se é que haverá juízo nesse dia…).
    Viva o NOVO Sandro! 😉
    Abra/beijos.

  2. karla disse:

    vc ta morrendo como o ano velho e renascendo como a phenix??
    sem brincadeira…esse texto eh o que eu mais gostei esse ano…
    bjao

  3. Marcia disse:

    Belíssimo texto.

  4. Rita Falcão disse:

    A fronteira entre o físico e o ficcional, entre o sentido e o – mais que – imaginado e reflectido. Era mesmo isto que eu queria dizer.

  5. márcia pinheiro disse:

    Faço coro com a minha xará acima. mas vim mesmo, à propósito do que li, foi reiterar que, sempre, ‘como la cigarra’, “na hora da escuridão, alguém te resgatará para seguir cantando”.
    Descemos todos às profundas. Voltamos só às vezes. Voltamos sós, às vezes – fênix, rabo de lagartixa.

    beijos, não demore.

    (e põe aquela foto lá no flick!!!)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *