Bento e Capitolina de todos os tempos

 

Tudo que pensava sobre adaptações me foi testado com Capitu. Não quis dizer nada até o final e, quando lá chegamos, havia tanto a ser dito que poderia escrever um livro. Como de costume, sem ares de crítico, falo apenas sobre algumas impressões que me causou.

O que esperar de uma história escrita por um gênio há mais de cem anos adaptada por alguém que em seu primeiro longa fez aquele que, para mim, é o melhor filme brasileiro de todos os tempos? E também era a adaptação de um grande livro. Houve ainda Hoje é Dia de Maria no meio do caminho, além de uma Pedra que não cheguei a ver. Estava, portanto, de muito boa vontade com Luiz Fernando Carvalho. E ele não só não me decepcionou como ganhou ainda outro título: diretor da melhor mini-série já feita no Brasil.

Sim, gostei e muito de Capitu. Mesmo com as ressalvas e reservas a seguir.

A primeira cena disse tudo. A história ganharia ares pop e atuais. Rock, o trem cortando a cidade como é hoje, os personagens de época misturados aos trabalhadores no vagão. Meu primeiro estranhamento foi para a reestruturação dos primeiros capítulos do livro. Algo que passou rápido, pois o motivo era justo. O discurso se tornou mais direto, sem o vai-e-vem da apresentação dos personagens que encontramos no original. A primeira prova de fogo veio mesmo ao ouvir Cheek to cheek. Foi algo como a ação inesperada de uma amante muito desejada. Um movimento brusco. Preconceito abalado, logo posto de lado, percebi que aquilo não era exatamente ruim. O que me incomodou, na verdade, foi o som de outro idioma. E logo o inglês! Para mim, bastariam as notas iniciais e a lembrança imediata do que elas sugeriam: Heaven… I’m heaven. A mesma impressão se confirmaria mais adiante e ainda nos capítulos seguintes como na longa introdução de Money, de Pink Floyd, que poderia ter sido cortada antes da primeira e inútil palavra, e na exagerada, longa e ruidosa execução de Mercedes Benz, com minha sempre amada mas aí deslocada Janis Joplin.

E a música tema de Bentinho e Capitu? Virou a paixão da semana. A garotada adora essa linguagem videoclíptica e um inglês moendo no pé do ouvido. A música é uma delícia, obrigo-me a concordar. Mas poderia também ter sido usado só o instrumental. Mesmo que nova (em comparação às outras) e ainda não habitando o inconsciente coletivo, daria o mesmo gosto sem precisar dizer If I was young, I’d flee this town/ I’d bury my dreams underground. Fiquei me perguntando se a turma iletrada, nascida e crescida de mal com Machado já anda a saber mais inglês que português! Não que me assombre com isso. Vivemos na ex-colônia portuguesa, atual colônia americana, quiçá logo estaremos a falar mandarim! Mas mesmo para a parcela teen que entendeu a letra, haveria mesmo a necessidade desses versos para “explicar” o que Machado demonstra com mestria a cada palavra dita por Dom Casmurro? A música, como o Amor, é uma linguagem universal. Dispensa palavras. Qualquer vocalização faria o mesmo efeito, diria a mesma coisa, não modificaria o que diz aquela percussão, sopros e acordeão que nos são tão familiares. Esqueça a letra, ouça a música e diga que gosto ela tem. Quais sentimentos ela provoca?

A redenção disso veio ao final do quarto capítulo com Desabafo, com Marcelo D2. Suburbano, carioca, utilizando e fazendo uma leitura modernizada do que já foi dito. Foi a reiteração da reiteração. Como o próprio autor faz em todo o livro. Deixa, deixa eu dizer o que penso do final mesmo, aquele que foi ainda melhor, com Nelson Cavaquinho pontuando Machado. É o Juízo final, a história do bem e do mal/ Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer. Bela escolha!

E por falar em redenção e bela escolha, vamos a Capitu, a duplamente Capitu, já que Maria Fernanda Cândido havia encarnado antes uma triste e malfadada versão da personagem em um filmeco do qual é melhor nem falar. Quem precisa saber atuar, tendo nascida linda daquele jeito? Ela precisa é de um bom diretor. Tirou a prova dos nove e redimiu-se da experiência anterior. Mas escolha perfeita foi mesmo a de Michel Melamed. Não há o que dizer além disso. Ponto.

Em compensação, a versão jovem de Bentinho estava muitos tons acima da maior parte do elenco, principalmente no que diz respeito à voz. Aquele moleque já tem dezoito anos (pode acreditar!), foi o Pedrinho por algum tempo na versão mais recente do Sítio do Picapau Amarelo e passou pela fábrica de desconstrução de atores chamada Malhação, onde se aprende a dar a mesma entonação à descoberta da morte da mãe e ao pedido de uma água de coco. E que Escobar biba era aquele? Eu jurava que iria rolar o tão esperado beijo gay na Globo durante as primeiras cenas no seminário. E aquela referência (uma das piores a meu ver) a Hair, com Escobar sobre a mesa… melhor não comentar.

Também não me chocou Dom Casmurro ao celular ou com Ipod, aliás, uma metáfora bem interessante para a tendência de cada um a ter um mundo só seu, com sua própria trilha sonora e sem interatividade com as pessoas e coisas ao redor. Estranhei mesmo quando ele bateu à máquina. Por que não digitar em Times New Roman e com o dedilhar insosso dos teclados em vez dos tec-tecs das antigas máquinas de escrever? Também cheguei a pensar que rolaria uma troca de e-mails entre os personagens no último capítulo. Não sei se estava já totalmente despido de preconceitos ou se havia perdido de todo a esperança.

O diálogo de Machado com o leitor pregou peças à versão televisiva. Talvez percebidas por quem fez o trabalho, dificilmente percebida por quem não tenha alguma familiaridade com seu texto; ao menos este. Logo no início, quando o personagem principal explica o porquê de seu apelido e de como este vem dar nome à história, ele diz (com mínima variação – fim por final – do original): Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o final do livro, vai este mesmo. E o que tivemos – e não se falou em outra coisa – é mesmo outro título. Capitu e toda a fanática discussão sobre suas ações pareceu menos casmurro. Pouco adiante, ainda apresentando a obra, diz: É o que vais entender, lendo. E o que se faz é mostrar, claro! A propósito, isto é muito bem feito quando, modificando-se a narrativa original, mostra-se o tema de amor dos personagens principais e, em seguida, faz-se a apresentação dos outros personagens na discussão sobre Bentinho ser mandado ou não ao seminário.

É neste momento em que a jovem Capitu contracena com o Casmurro velho e narrador que mora um dos pontos mais sensíveis do livro. Pelo menos um dos pontos que mais gosto. É o da busca do personagem em reviver o que passou de bom quando jovem. Isso é mostrado claramente em pelo menos dois instantes da narrativa, preservados na versão televisiva:

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.

e, em outro capítulo, uma das minhas sentenças preferidas (no livro, na obra de Machado, na vida)…

Donde concluo que um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos, e ver se continua pela noite velha o sonho truncado na noite moça.

Fiquei a pensar em uma versão mais enxuta, que tirasse as modernidades e as músicas – pelo menos as letras – em inglês. Não precisaria muito. Outras adaptações poderiam ser mantidas. Não posso dizer que não gostei de Otelo ter se transformado em filme (o de Orson Welles). Quando Dom Casmurro foi escrito, o cinema era uma novidade. Filmes já haviam sido rodados mesmo no Brasil, mas a precariedade do fornecimento de energia nem permitia que se pudesse pensar em um “circuito de exibição”, algo que só aconteceria no final da primeira década do século XX. A referência a Otelo não poderia faltar, pois o romance de Machado tem bases nele.

E para não fazer disso o tal livro citado lá no alto, uma lembrança de início e fim de Dom Casmurro que, espero, seja também uma promessa de Luiz Fernando Carvalho. Se não por outro livro de Machado, que agora está definitivamente provado não ter nada de chato (só quem nunca o leu poderia usar tal falácia), algum de Lima Barreto: “Vamos à História dos Subúrbios”.

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4 respostas a Bento e Capitolina de todos os tempos

  1. Tato disse:

    Se eu te disser que fiquei sabendo dessa mini-série agora, depois que li teu blog, tu acredita? Tô me sentindo péssimo, agora.

  2. Rita Falcão disse:

    Dentro do desconhecimento da obra de Machado de Assis, a história – um episódio da mini-série passado – parece-me rica e docemente contada, ou então o Luiz Fernando Carvalho é tão apaixonado por Dom Casmurro que a história foi naturalmente bem contada pelos seus olhos. Do que vi, gostei do trabalho de actor, da estética de re-criação e realização, da fotografia, do grafismo – e até da banda sonora! lol 🙂 Delícia para os olhos e a mente. Faz-me lembrar vagamentente Amélie – sou suspeita – com uma dinâmica de rodopio entre o teatro, a dança, o canto, o sentimento, as emoções bem acondicionadas e um travo doce de algo de que tanto gosto: histórias bem construídas. Bela crítica, já agora. (a coragem chegou para este! ahaha)

  3. Wilson Natal disse:

    Como já havia dito a você: DETESTEI! Quando alguém coloca uma trilha em inglês, detona o Machado. Machado que já foi acusado de Riodejaneirismo, regionalismo e outros “ismos”.
    Rock brasileiro, por melhor que seja, parece não ter vez…
    Ainda bem que isso foi apresentado em um horário “cu da noite”.
    Com isso meus ouvidos serão poupados daquela absurda e irritante conversa de adolescentes:
    – Preciso fazer um resumo de Dom Casmurro. Você já leu o livro?
    _ Li não! Mas vi na “Grobo”…
    Não perdí as esperanças. Um dia hei de ver uma produção televisiva dos clássicos brasileiros, como fazem os inglêses, franceses, itlaianos e alemães. Com respeito e fidelidade à obra do autor.
    Até lá, vamos continuar “engolindo” os Bentão e as Capi da vida, de um Dom Casma, que foi Casmurro.
    Abração,
    Wilson.

  4. mayhara disse:

    acho que o wilson não pegou o espírito da coisa..

    relaxa… livro é livro… não chega aos pés do que um dia imaginamos enquanto folhávamos aquelas pgs amareladas… deitados debaixo de alguma árvore.. na escola… fugidos de alguma aula chata de matemática.

    o negócio que a série foi estéticamente perfeita. eu senti.. particularmente que se todos todos os personagens dissessem “blá blá blá” a série inteira, p mim, não faria diferença…

    sou muito ligada nisso… nesse tipo de linguagem… não que não valorize o conteúdo.

    a mágica estava em toda aquela aura lúdica..

    pessimo dizer isso depois desse texto detalhadinho…

    mas eu senti que a atuação, o cenário, as cores e a música foi a linguagem principal dessa série..

    até porque seria babaquice querer competir com o machado… naquelas coisa “o que é melhor, o livro ou a série”

    o diretor reescreveu a história a partir de sua visão de mundo… respeitando o que acontece com a nossa época…. algo pop mesmo, e p q não?

    isso faz dele um cara foda p caralho… sair do óbvio.

    não tem graça dizer o que já foi dito antes… ou o que o machado já construiu..

    beijo fortunas.

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