Eu vou tirar você desse lugar

Disse Marcelo Andrade, há muitos anos, que eu tinha um “programa de recuperação de putas”. O projeto não seria aprovado pela Lei Rouanet e, se chegou a existir, não foi adiante. Mas há duas histórias e algumas considerações que deixarei aqui registradas.

Tenho poucas e já bem distantes experiências na modalidade “sexo pago”. No entanto, tive o prazer quase antropológico – e raramente carnal – de freqüentar cabarés e que tais como a famosa Casa de Maria Boa e o Nira Drinks, ambos em Natal, além de inferninhos em Rio, São Paulo e Brasília. Adorava ouvir as histórias das meninas e falar sobre qualquer tema sem pudores. Acabava ficando amigo das meninas, o que inviabilizava qualquer transação profissional.

Uma das histórias aconteceu há quase vinte anos, em Copacabana. Sozinho durante um fim de semana em um apartamentão na Barata Ribeiro, passava o dia sem fazer nada. Certa vez, voltando de um lanche ali perto, o porteiro me abordou para ter certeza se era mesmo eu quem estava no andar tal. Confirmei e ele disse que umas meninas do prédio em frente tinham perguntado por mim. “Se voltarem, pode mandar subir”. Cheguei ao apartamento e abri o janelão para apreciar a paisagem. Elas já estavam lá. Por gestos, dei o número do telefone e logo me inteirei que estava a dois passos do paraíso. Eram quatro garotas: duas faziam programas e duas ensaiavam para uma peça erótica. Queriam me conhecer, mas não poderiam ir todas juntas (que pena!). O “dono do apartamento” – eufemismo para cafetão – poderia chegar e daria bronca. “Ok. Que venha uma de cada vez”.

A primeira, que acabou sendo a única, passou mais tempo do que mandava o bom senso. Acabou voltando outras vezes. E ainda outra, quando eu já nem estava em Copa. Pensando sobre o que conversávamos, decidiu deixar aquela vida antes mesmo de entrar nela. Era uma das que sonhava ser atriz e acreditava que a tal peça erótica, ainda por estrear, seria a porta para a fama. Eu não estava em um momento para romance e algum tempo depois voltei a Natal. Chegamos a nos falar por quase um ano, mas depois perdemos contato. Ficaram as lembranças e os votos de que ela não tenha cedido novamente às tentações da dificílima vida fácil.

A segunda história foi em Brasília. As noites terminam cedo por lá. Ainda não acostumado com isso, estava em uma animação que não deveria acabar na cama. Pelo menos, não dormindo. Quase chegando em casa, vi uma loirinha linda, digamos, disposta a fazer companhia por alguns trocados. “Vamintão!”. Logo ela percebeu que se eu quisesse comer algo teria andado mais duas quadras, até o supermercado 24 horas. O lance era mesmo continuar a noite, rir, jogar conversa fora. Mas o dificilmente evitável aconteceu e acabamos dormindo no que, para mim, seria a hora certa, que é pouco antes do dia clarear. Quando acordamos, já no início da tarde, preparei um café rápido e fui providenciar o valor acertado pelo serviço. Ela se recusou a receber, disse que havia se divertido também e perguntou se poderia voltar outras vezes. Respondi: “Pode, mas nas próximas eu vou cobrar”. Assim, durante algumas semanas, ela passava lá em casa antes de seguir para o ofício noturno. Nunca o contrário. A cada dia, a menina pura vinda de Belém se entregava a mim. Depois mudava o nome, vestia uma máscara, se transformava e ia satisfazer aos necessitados por alguma ilusão. Isso durou pouco e não cheguei a “convertê-la” ou assistir à conclusão de seu plano, que era parar quando conseguisse comprar um apartamento, para ela e sua filha pequena, no Pará. Já se insinuava em minha vida alguém que me mostraria que, diferente do amor, sexo é coisa para amadores. Lição jamais esquecida.

Que belo profissional de alcova este Sandro, hein? Não. Apenas as tratei com respeito, carinho, gentileza e dignidade. Por um instante, elas perceberam que valiam bem mais do que cobravam e acreditaram em uma vida melhor, com um amor, um relacionamento, aquilo que todo mundo deseja e merece. Tudo isso, que vale tanto, pode ser oferecido de graça.

Fico pensando sobre a necessidade em buscar ilusões. Pior que isso: a capacidade de criar ilusões para outros. Quantos “eu te amo” desperdiçados quando a intenção era somente fazer sexo. Assim, ao contrário das histórias contadas, acaba-se por colocar alguém em uma situação ilusória, vexatória, de pouco valor. Então, em vez de tentarmos reencaminhar os que estão trilhando estradas tortuosas ou desencaminhar os que estão indo bem, que tal apenas aprumarmos nosso próprio caminho e agir com os outros como gostaríamos que agissem conosco? Talvez assim, a puta ou o puto em nossa cama seja aquela pessoa que amamos. Vai ser uma delícia, vai ser de verdade e não vai custar nada.

PS: Na foto, Marcinha, psicóloga MESMO e minha amiga de infância, aprontando-se para uma festa à fantasia.

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9 respostas a Eu vou tirar você desse lugar

  1. Wilson Natal disse:

    Dá Ópera do Malandro: “Prá se viver do amor, há que esquecer o Amor…”

    Putas há, que são por opção, por falta de opção, por que gostam. Entre a puta e a mulher há um rio imenso e caudaloso a separá-las.
    Por precaução, sobrevivência, autopreservação, a mulher sai e entra a puta. Coisas estranhas acontecem. É força, descaramento, deboche, risos loucos; obscenidades e loucuras.
    Fim de noite a mulher começa a incomodar. Madrugada, a mulher se impacienta. Com os primeiros ráios do sol, sai a puta. E a mulher ve-se sozinha em sua solidão e fragilidade. Até o anoitecer, quando bebe a amarga realidade da vida e, novamente cede lugar à puta.
    Eita que virei um filósofo, gigolô da psique das “alegres senhorinhas”…

    Da Ópera do Malandro: “Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim…”

    Abraços e beijos à “la putanesca”

    Wilson.

  2. Henrique Fontes disse:

    É.. a busca é de tratar e se tratar com amor. Seu texto é um belo convite para refletirmos sobre nosso preconceito que aniquila as possibilidades de se tratar com amor.
    Abraço

  3. Programa de Reabilitação de Profissionais do Sexo e Similares (PRPS²) seria mais apropriado. Naquela altura não se falava em “rehab”.

    Talvez você precise é de voluntários, sobretudo com o acréscimo exponencial da categoria.

    It’s ALL about love.

  4. mya disse:

    poxa.. você teve uma sensibilidade muito bacana para tratar desse assunto, sandro. e não é mascarado.. e nem clichê. são casos de um aventureiro, um homem, um ser humano – que não é perfeito – com caráter.. legal mesmo.
    beijos

  5. Kassandra disse:

    Na minha opinião, foi o melhor do ano…amei.
    abraço!

  6. Marcia disse:

    Penso que, “a cambio de una ilusión”, as pessoas ofereçam palavras de “Eu te amo” vazias de sentido – ou ofereçam dinheiro por uns momentos de prazer momentâneos e descompromissados. As pessoas aceitam essas ofertas por razões várias… pura carência, baixa auto-estima, menos-valia, necessidade, fetiche…

    Não coloco as putas em um patamar diferente das demais pessoas que aceitam ofertas. Talvez prostitutas sejam vistas de modo preconceituoso porque oferecem momentos de prazer em troca de dinheiro, ou seja, como se concretizassem essa via de mão dupla. E isso ainda choca, embora seja uma relação mais verdadeira do que muitas das que vemos por aí, tão efêmeras quanto. Elas são tão dignas de carinho, respeito e gentileza como muitos de nós que, em algum momento de nossas vidas, aceitamos também ofertas vazias de sentido, e que nos preencheram por um tempo, ou por uma noite apenas.

    Gostei muito do texto, especialmente das últimas linhas: “Talvez assim, a puta ou o puto em nossa cama seja aquela pessoa que amamos. Vai ser uma delícia, vai ser de verdade e não vai custar nada.”

    Enquanto me travestia de puta, ficava pensando que eu, sempre na contramão dos amores rotativos e efêmeros, nunca me preocupei com quantidade. Talvez eu tenha idealizado um pouco, ou me desencontrado nesse caminho… Acho que toda mulher tem uma “puta” dentro de si (leia-se “puta” como sendo o lado mais sensual, ousado, livre de repressões sociais…). A busca desse PP (utilizando um termo seu), porém, é algo que vai além da cama…passa por uma conquista constante e gradual de cumplicidade, companheirismo e paciência. Minha busca está aí e acredito que seja a mesma de muitas (de muitos também?). Não é uma busca fácil essa de “aprumarmos o nosso próprio caminho”, mas quando se começa, não há como voltar atrás. Percebi que a vida nos chama para essa busca pelos modos mais inusitados e surpreendentes.

  7. Tato disse:

    Isso tudo pra dizer que tu é O fodão, né? 😛

  8. A resposta está no início do penúltimo parágrafo, TATO. Mas poderia lhe responder da seguinte maneira: “Não por isso”. 😉

  9. karla disse:

    gostei muito do titulo q vc deu pro post…
    incrivel que pra colocarmos as pessoas em lugar de valor nós precisamos antes de tudo nos dar esse lugar de tanto valor…o lugar do humano…ops!!!!
    parece palavrão em tempos de gente jogando gente pela janela…
    adorei a cutucada q esse post nos deu…
    boas festas!!!
    bjao

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