Todo a cambio de una ilusión

Noite de quinta, um grande evento gratuito acontecendo ali perto e a Casa da Ribeira estava lotada mesmo assim. Muita gente ficou de fora da estréia e por enquanto única apresentação aberta de pq nunca nos trataram com amor, peça do Grupo Beira de Teatro.

O espetáculo acontece em dois ambientes. Começa em uma galeria, como uma exposição, para só depois se transferir para a sala onde as pessoas normalmente acreditam ser o local adequado para se mostrar uma peça teatral. O primeiro e agradável estranhamento acontece durante a primeira parte. Ou não. Parte do público deve ter visto esse momento como um extra ou um aquecimento, sem perceber que a peça já havia começado. Os atores estavam presentes, vestindo seus personagens, e a viagem sensorial, que geralmente se inicia com todos acomodados e com a luz apagada, já se fazia presente.

Quebra. Todos para a sala, procurando seus lugares, sentadinhos, conversas paralelas, aguardando a peça começar. Desculpe. Continuar. Atores no palco, acredita-se que “agora vai”. Não há uma narrativa convencional e aí vem o segundo e, para alguns, incômodo estranhamento. Para mim, o grupo estava marcando seu segundo ponto positivo. Acho ótimo sair da mesmice, da leitura fácil, do roteiro familiar, comum. Uma das funções da arte é provocar. Se o espectador – de teatro, cinema ou o que está em frente a um quadro – mostra-se passivo é sinal de que o artista não fez grande coisa. Se há uma reação, mesmo negativa, já é bom sinal.

Enquanto via o processo obsessivo, de eterna repetição, apresentado pelos personagens, fiquei me perguntando quantos ali, na platéia, se reconheceriam. Quantos perceberiam o que a falta de amor, em qualquer instante de nossas vidas, nos leva a buscar repetir as experiências e tentar acertar aquilo que erroamos nas vezes anteriores. Como ficamos dando voltas, reproduzindo, ecoando padrões dos quais não conseguimos nos livrar, mesmo quando acreditamos ter tomado outras direções.

De repente, a peça acaba. E esse “de repente” me pareceu bem de repente mesmo. Algo assim como um coito interrompido. Pelo outro e não por você mesmo. Sem aviso. Há uma sensação de ter ficado na mão. Acabou mesmo? É para bater palmas? Continua em um terceiro local? Nas conversas imediatamente após o encerramento, entre amigos, havia uma concordância: é preciso assistir outra vez. E acredito que este seja outro ponto positivo. Quando não se gosta de algo, não se pretende repetir a experiência. Ou será que caímos em uma armadilha preparada pelos atores e entraremos em um processo de repetição tentando acertar algo que perdemos, que não percebemos, que não entendemos direito?

pq nunca nos trataram com amor me fez lembrar outras peças. Uma foi A escola de bufões, de Moacyr Góes, que assisti em 1990, no Teatro Villa-Lobos, no Rio. A platéia precisava se acomodar em uma espécie de arquibancada que contornava a frente e as laterais de um palco pequeno. Era desconfortável para o público. E não só a forma de se sentar. Algumas pessoas deixavam a sala em cenas como a que um dos bufões se coça demoradamente entre as nádegas (para não provocar outros constrangimentos aos leitores mais pudicos) e depois leva o dedo ao nariz. Com o decorrer da peça, cada um, na platéia, procura encontrar uma posição melhor. Comecei a olhar e pensei: “estamos agindo como as figuras grotescas que estão no palco”. Logo a luz é jogada na platéia, que se percebe transformada em máscaras ridículas empilhadas em uma estante. Fazíamos parte do espetáculo desde o início, assim como em pq nunca nos trataram com amor. As lembranças de infância dos personagens, apresentadas na primeira parte, são também as nossas. As frustrações, obsessões, repetições e buscas incessantes por sermos amados também.

Lembrei ainda de O enigma Blavatsky, que vi em 2003, no Teatro João Caetano, em São Paulo. Ao final, o fundo do palco se abria e a personagem principal saía do teatro. Era uma visão fantástica, cinematográfica, ver aquele paradão se abrindo, a cidade ao fundo, o vento entrando e a personagem dando continuidade, na imaginação de cada um, ao que, na prática, terminava ali. Havia uma sensação de deslumbre e até a vontade de segui-la. Em pq nunca nos trataram com amor, quando uma das personagens sai do palco, não há esse efeito. Fica uma sensação de não saber para onde olhar e a falta de um ponto final que dê a certeza que a apresentação terminou ali. E tendo sido feita pela personagem que, na minha opinião, é a mais frágil e de menor destaque, não imprime uma força que atraia os olhares da platéia.

Foi a primeira apresentação e qualquer um que freqüente teatro sabe que mudanças virão. A peça é boa e pode ficar ótima. O talento e a atual experiência de alguns atores garantem isso. Creio que funcionaria melhor em outro ambiente que ajudasse a preservar a atenção do espectador. Este também não deve ser preservado de críticas. Deve abandonar a passividade ignara em casa, esperando na frente da tevê, e se envolver com a proposta artística. No caso de pq nunca nos trataram com amor, meu envolvimento começou desde a primeira vez em que ouvi o título da peça e a voz de Lilian passou a morar em minha cabeça. Interessante é que essa música – na verdade, uma versão – é de Lilian e foi lançada depois da separação da dupla que fazia com Leno, que é potiguar e poderia ser visto como referência. A composição original é de Manuel Alejandro. O espanhol, se não o compositor, o idioma, tem uma referência e uma função na peça. Mas isso já é viagem minha e detalhe além da conta. Paro por aqui. E você, se puder, assista a peça de coração aberto, sem lhe dar “tão somente incompreensão”. Vá “como uma criança, cheia de esperança e feliz”. E me chame.

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5 respostas a Todo a cambio de una ilusión

  1. Sandro,Sou diretora da peça 🙂
    Trabalhamos, eu e o Beira em colaboração. Foi grande minha alegria qdo Henrique Fontes me passou este link. Maior ainda ler tudo isso. Você não vai acreditar, mas Escola de Bufões foi a peça que mais vezes eu assisti na vida. Tinha nove anos e os amigos da minha mãe eram atores do Moacyr!! Vi muitas vezes mesmo e fiquei completamente arrepiada com sua referência. Por favor, me escreva, quero saber quem é você e te falar quem eu sou.
    Abraço, e até a próxima! =D

  2. Henrique Fontes disse:

    Grande Sandro,

    Fiquei muito feliz com sua crítica. Aliás ficamos todos no Beira. Você falou com uma propriedade, com conhecimento que só bons apreciadores especializados de teatro têm. Os pontos de possibilidade de crescimento que você indica são exatamente onde estaremos agora na fase dois nos debruçando sobre. A peça voltará dias 4 e 5 de abril de 2009 em sua fase 2. Tudo é muito novo e empolgante para nós. Fico cada vez mais feliz que o público tem sido nosso grande parceiro e financiador. Quero continuar a fazer teatro com este espírito “para que a verdade não nos destrua”. Um abraço forte e aguardo você em abril, hehehe.

  3. Foi um “Momento Barbara Heliodora”, HENRIQUE. “No, no, no”, não mesmo. O “bom apreciador”, eu aceito. O “conhecimento” e o “especializado” a gente corta, ok? Fiz teatro quando pequeno, vi que não dava para a coisa ali pelos 18 anos, quando Stênio Garcia gritou umas três vezes para eu falar mais alto, que ninguém estava me ouvindo, e eu percebi que não estava a fim de trabalhar minha voz grave para além de uma conversa com meia dúzia de pessoas. Frustrado – também como músico – só me restaram as letras e o esconderijo na platéia. O objetivo aqui, você sabe, foi contribuir. Acho uma sacanagem, com vocês artistas, o que se faz em Natal. A falta de crítica e o excesso de corporativismo (“não vou falar mal deles para eles não falarem de mim”) – hábito provinciano dos mais terríveis! – acaba prejudicando vocês. Então a peça volta aos palcos pouco antes do meu aniversário? Espero estar em Natal. E se não, nos vemos em outras salas país afora. MERDA para vocês. Muita e sempre.

  4. Carol Kyze disse:

    Eita! Hoje tem peça do Henrique Fontes. Essa era a grande expectativa da noite, tudo foi convergindo pra mais uma peça “daquelas”. O mistério dos dois ambientes a caracterização impar dos atores, o chamado do Luiz e da Simona tudo o Maximo!! O espetáculo começa o tempo corre junto com a inquietude que já não me deixa em paz.
    E como assim? A peça acabou?? Sim, acabou! Sensação de vazio que não é costumeiro depois das peças do Henrique. Foi isso que ficou pra mim.
    Faço das palavras do Sandro as minhas. Tô na expectativa pra nova montagem da peça.
    Boa sorte procês!
    Abraços. 😉

  5. Henrique Fontes disse:

    Sandro que bom que você o fez. Quero sempre ter uma crítica tão bacana e com referências tão apropriadas. Concordo que aqui ninguém comenta, ninguém critica e fica tudo na mesma mediocridade. Carol, agradeço também o comentário. Voltaremos e tentaremos ampliar esses pontos, não necessariamente esclarecê-los mas formular perguntas para que ajude nas possíveis reflexões. Fico feliz com a companhia de vocês. Beijos

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