Afinal, onde mora a Verdade?

“Toda verdade é simples (unívoca)”. Isto não é duplamente uma mentira?
Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos

Se há algo que se aprende ao investigar a vida de alguém com o objetivo de escrever a seu respeito é que há muitas verdades. Não falo de versões, opiniões, pontos de vista; falo da verdade interior de cada pessoa.

Em determinado momento de minha última temporada de entrevistas sobre Carlos Estevão, no Rio, Dóris, sua filha, me perguntou, já afirmando: Você já sabe mais do meu pai do que qualquer outra pessoa, não? Sim. Porque diferente dos envolvidos nas histórias, além do distanciamento, pude ouvir vários lados, várias versões, várias motivações para a realização de determinados atos e, mais que tudo, as verdades contidas em cada uma dessas motivações.

Foi também nessa mesma conversa em que eu disse a ela que meu único compromisso era com a história de Carlos Estevão e não com as versões ou pontos de vista que eram mostrados a mim. É bem aí que reside um dos maiores dramas do biógrafo, principalmente quando o biografado não pode mais mostrar a sua verdade. O que realmente aconteceu? Como reconstituir uma cena e os muitos sentimentos envolvidos nela?

Mas se há o peso de pensar e decidir sobre isso, há a recompensa de receber tal ensinamento e aplicá-lo em sua própria vida. Confesso que tenho me tornado mais tolerante, mais capaz de ouvir e de entender as motivações alheias, mais leve e humano por não me colocar em posição de juiz. Assim, os atos mais brutais, estúpidos, violentos e insanos passam a ter, se não justificativas, pelo menos motivos que expliquem suas existências.

Há uma história em particular, ocorrida duas décadas antes de meu nascimento, que durante cinco anos não saiu de minha cabeça e, ainda hoje, está entalada em minha garganta e com pouca possibilidade de que um dia esse engasgo passe por completo.

Conhecido como “Crime do Sacopã”, o caso girou em torno da morte de um bancário encontrado em seu carro na ladeira do Sacopã, no Rio de Janeiro. O motivo do assassinato teria sido passional. O Tenente da Aeronáutica Alberto Franco Jorge Bandeira, acusado como autor, teria cometido o crime por ciúmes de um namorada. Passou sete anos preso e teve uma campanha pública de libertação movida pelo então Deputado Tenório Cavalcanti, “o homem da capa preta”, e amplamente divulgada pela revista O Cruzeiro.

Se O Cruzeiro defendia, outros órgãos de imprensa atacavam. A novela começou em 1952 com o crime; foi reavivada em 1959 com a campanha pela soltura do tenente e continuou, em várias épocas, pelo menos até 1972, quando Bandeira ainda tentava provar sua inocência.

Em outubro de 2004, a Rede Globo foi impedida de exibir um programa do Linha Direta a respeito do caso. Ninguém da família da vítima deu depoimento, assim como Bandeira, já com 75 anos. Conseguida a liberação, apresentou o programa algum tempo depois.

Coincidentemente, pouco antes disso, eu havia falado com o tenente Bandeira por telefone. Além de esta ter sido, em minha opinião, a mais rocambolesca história de crime usada e abusada pela imprensa brasileira, um ponto em particular chamava minha atenção: Depois de algo tão escandaloso, de perder a melhor parte de sua juventude na cadeia, de ter pago pelo crime do qual foi acusado, por que alguém passaria mais 15 anos remexendo nessa história para tentar provar sua inocência se não fosse realmente inocente? Em geral, quem passa por uma situação dessas e retoma sua liberdade quer tudo, menos que as pessoas lembrem do que aconteceu. Por outro lado, haveria a remota possibilidade de uma personalidade doentia com fortes motivações psicopatológicas que a fizessem se manter no centro das atenções. Trazido para nossos tempos, seria como Suzane von Richtofen ou os Nardoni, anos depois de cumprirem suas penas, fazerem campanha e ocupar diariamente os telejornais brigando para provar inocência.

O que sei é que a história foi muito mal contada. Em todas as suas versões. Eu tinha esperanças de que o tempo, a distância, a sabedoria que vem com a idade e a proximidade da morte alimentassem em Bandeira o desejo de dizer o que realmente aconteceu. Particularmente, não esperava nada além disso. Para mim, não haveria muita diferença entre ele repetir toda a história que contou ou assumir a autoria do crime. As motivações – para ter servido como bode expiatório ou para ter cometido o crime – me interessavam.

Bandeira morava em Copacabana, a três quarteirões de onde fico sempre que vou ao Rio. Morava. Ele faleceu no ano passado. Nesses dois anos em que tivemos contato (por telefone e uma vez por Internet), ele sempre se mostrou educado, cortês e até algo solícito. Durante esse tempo, fui pelo menos três vezes ao Rio e não o procurei. Sempre deixava para depois. Sempre pensava como abordar um assunto tão delicado com um senhor quase octogenário que teve toda sua vida mudada por algo acontecido quanto ele tinha pouco mais de 20 anos.

Diferente do caso da garota Madeleine, que teve pelo menos um livro a respeito lançado pouco mais de um ano depois do ocorrido, o caso do Sacopã só ganhou livro mais de meio século depois, editado fora do país, praticamente desconhecido e impossível de achar por aqui e com Bandeira já morto.

Resumo da ópera: muito se falou e nada foi dito. Houve uma conclusão legal, mas nunca uma conclusão real, que deixasse a sensação de que a verdade foi estabelecida e a justiça feita.

Sou partidário de uma imprensa compromissada com a verdade. Direta, fria, que se limite a responder as perguntas básicas e não criar ficção em cima dos fatos. Isso me parece uma condição sem a qual é impossível haver respeito. Quando na função de jornalista existe a possibilidade de agir como juiz, carrasco ou novelista, a ética, a probidade e a confiança ficam comprometidas. Em vez de zelar pela transparência, acaba-se obscurecendo ainda mais os fatos. E assim chegamos à triste conclusão de que a História não é nada além da versão que foi mais divulgada e sobreviveu.

Textos relacionados:
Verdade para quê? – 23 de novembro de 2008
Crimes, jornalismo e História – 2 de outubro de 2004

Sugestão de leitura:
Matérias sobre o caso do Sacopã na revista O Cruzeiro

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7 respostas a Afinal, onde mora a Verdade?

  1. A inconclusão de um facto deve ser tão ou mais frustrante para um jornalista em comparação a um historiador.

    É que o historiador, na falta de mais fontes, acaba forçado a registar para a posteridade a versão vencedora (quase sempre a do vencedor). Tem tempo suficiente para isso. E assim é construída a História.

    O jornalista tem a obrigação de ouvir ao menos duas versões (quase sempre antagónicas) e registar sua reportagem (story). Tem exíguo tempo para isso. Mas pode sempre voltar posteriormente a escrever mais sobre o assunto sempre que se descubra novos factos.

    Se não há hipóteses de novos factos, alguns (os bons) jornalistas podem sofrer de frustração. Porque têm consciência do seu labor. Sabem que não foram ouvidas as versões suficientes para contar uma história (por que é que abolimos “estória”?) como deve ser. Assim, o material para deixar ao historiador torna-se débil, e prevalecerá a versão do vencedor.

    Já agora, Sandro, o processo já tornou-se público? É possível ter acesso aos depoimentos oficiais? Queres mesmo remexer nisso?

  2. Henderson disse:

    Dizem que uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade. E uma verdade oculta, cai no esquecimento, quando contada, mais parece uma mentira. Buscamos a verdade real, mas será mesmo que ela existe? Veja o caso destes 3 rapazes acusados de estuprar uma jovem.O que parecia uma verdade infalível, foi ganhando contornos de dúvidas a ponto da condenação ter sido 4×3. Ou seja, alguns enchergaram o mesmo fato de forma bastante distinta…

  3. Marla Bitencourt disse:

    Olá, Sandro. O comportamento da imprensa realmente causa inquietação. Há muito tempo que os veículos de comunicação se transformaram em serial killers dos princípios do bom jornalismo. Ferem de morte o bom-senso, a humanização, a pluralidade, enfim, tornaram-se passionais feitos mulheres traídas. Sim, porque na maior parte das vezes assistimos uma emissora competindo com a outra e transformando o que deveria ser uma cobertura jornalística num deplorável espetáculo. Se uma consegue uma informação ou entrevista exclusiva, a outra, traída, entorpece os sentidos e parte em busca da superação. E olha que vale qualquer coisa para resgatar a “honra” que o inimigo tirou.
    E olha que as balas perdidas dessa guerra pela audiência atingem, em cheio, o cérebro dos telespectadores e mandam tudo pelos ares. Aí fica difícil trabalhar o discernimento em meio a rajadas de metralhadoras.
    Ah, no início do seu texto há uma frase de Nietzche, contribuo com uma reflexão do Schopenhauer: “Toda verdade passa por três estágios. No primeiro, ela é ridicularizada.
    No segundo, é rejeitada com violência. No terceiro, é aceita como evidente por si própria”.

  4. Amanda disse:

    A situação em que se encontra a nossa imprensa, creio eu, mostra um buraco muito mais fundo e escuro: uma crise social de grandes proporções. Acredito que esse tipo de jornalismo sensacionalista não existiria se as pessoas simplesmente não dessem condições pra tal.

    Não sei se é impressão minha e, vai saber, até errada, mas o que venho sentindo já há algum tempo é que as pessoas estão cada vez menos interessadas na verdade. Isso não ocorre apenas com os jornalistas, mas com todos, independente de suas classes sociais ou quaisquer outras rotulações que possamos dar: o importante não é o que de fato ocorreu, mas o quão novelesca uma história pode se tornar. Quanto mais dramas, suspenses e aventuras, melhor. Parece-me que buscam emoções nisso tudo, emoções que talvez lhes faltem no dia-a-dia. O grande mal dos nossos tempos é realmente o tédio.

    Mais uma vez, talvez seja uma impressão errada de minha parte, mas também sinto que essa condição humana a que muitos estão se submetendo vem se acentuando de geração a geração. A alienação e a vontade de assim ser cresce conforme o tempo passa, vai ficando cada vez mais bonita. Ninguém está mais interessado em ajudar ou em lutar por coisas melhores, porque assim está bom, ou porque pra mim está bom, ou, ainda, o que é pior, porque não vai mudar nunca. Isso é triste, ainda mais se levarmos em conta que aqueles que, de fato, tentam mudar alguma coisa, tentam abrir os olhos das pessoas, são ridicularizados.

    Me dei conta de tudo isso outro dia, quando estava passando por entre os canais e me deparei com aquele Balanço Geral. O apresentador, que, sinceramente, não sei nem o nome, estava falando e haviam duas crianças atrás dele. Ele, então, as chamou e começou a conversar com ela. O menino, que não devia ter mais que uns cinco anos, disse que assistia o programa todos os dias e que gostava muito. Até mostrou como o apresentador faz com a camera. Fiquei me perguntando aonde vamos chegar, aonde aquele menino, que nem culpa tem, vai chegar, se isso não vai realmente mudar.

    Por isso tudo digo que o jornalismo nos mostra algo muito mais profundo que só a vontade de aumentar o ibope. E devo dizer também que estou gostando muito dos textos que você tem escrito a esse respeito. Parabéns.

  5. Lembro demais dessa história do tenente Bandeira. Como esse, muitos crimes da época foram explorados pela mídia. Eu já era nascida, embora criança e me lembro do desaparecimento de Dana de Teffé e do sequestro de Carlinhos. E quem tem em torno dos 60 anos de idade se lembra da morte de Aída Curi, ocorrida penso que no início da década de 1960. Ela jogou-se ou foi jogada do alto de um edifício no Rio de Janeiro para escapar a uma “curra”, que é como chamavam estupro. Durante muito tempo, os rapazes pegavam má fama somente por usar óculos escuros do modelo que o envolvido no crime usava. Eram os famosos “óculos Ronaldo”.

  6. Wilson disse:

    Como eu disse no “post” anterior, a Verdade passa a não ter importância nenhuma. O que ficará é o Mito, o Folclore e as mentiras. E a única verdade que ficará é a realidade do fato acontecido.
    Um jornalista ingênuo disse-me certa vez que deveria haver censura. E que essa censura deveria ser feita pela ética, lisura dos jornalistas… Coitado!
    Bandeira foi toda a sua vida “carne de matadouro”. Como o foram Aída, Dana, Cláudia Lessing e tantos outros.
    Todos vítimas das garrafais negras como o luto e, ao mesmo tempo, vermelhas como sangue, estampadas em manchetes chamativas.
    Abração.

  7. Wagner de Oliveira Lima disse:

    A verdade não é absoluta,a verdade é como remédio,tem validade,pois a verdade só é verdade enquanto há algo para se prová-la,prova essa,que o tempo se incumbe em substituí-la por fatos que contradizem a verdade que parecia ser absoluta.O que é a verdade?

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