Verdade para quê?

Depois da óbvia capa com Obama, a Veja (sempre ela… Leu na Veja? Azar o seu.), retoma sua série de capas apelativas, demonstrando que a fofoca e o mundo cão são negócios mais rentáveis que o jornalismo.

Como todo o planeta parece estar em paz, não há catástrofes, problemas ambientais ou sociais acontecendo e falta imaginação para uma boa reportagem, a pedida é requentar algo que provoque a sede de sangue do leitor. Na falta de algo melhor (ou pior), os duzentos dias de férias do casal Nardoni são motivo de capa.

O julgamento público continua e a idéia é mostrar a boa vida dos dois. Não há qualquer novidade sobre o caso ou sobre o andamento do processo. A “reportagem especial” parece querer somente alimentar o ódio e a vontade de linchamento.

O atual jornalismo brasileiro segue a vocação quinto-mundista de escrever com sangue e fazer ferver o do ledor bruto, que se finge leitor com desejo de informação. A capa desta semana de Veja me pareceu ainda mais sem sentido pois, no mesmo dia em que chegou às bancas, finalmente saquei do envelope o livro Maddie – A verdade da mentira, sobre o caso da garotinha inglesa desaparecida em Portugal em maio de 2007.

O livro foi escrito por Gonçalo Amaral, Coordenador Operacional das investigações do caso, desde o início, em 3 de maio de 2007, até 2 de outubro do mesmo ano, quando foi afastado. Aposentou-se em junho deste ano e, no mesmo mês, lançou o livro com o qual pretende apontar a verdade sobre os acontecimentos com a menina.

Um mês depois de lançado, a meu pedido, Marcelo e Renata me mandaram um exemplar. Já era a quinta edição. Há algumas semelhanças entre os casos de Maddie e Isabella. Há inúmeras e gigantescas diferenças na cobertura dos casos, mas em relação ao ocorrido em Portugal, vou falar somente sobre o livro.

Maddie – A verdade da mentira foi escrito por um policial com 26 anos de uma respeitada carreira e lançado pouco mais de um ano depois do desaparecimento, com o caso ainda sem solução. No primeiro mês, vendeu mais de 125 mil exemplares em um país com uma população quase igual a da cidade de São Paulo. Se cada exemplar foi lido por pelo menos três pessoas, quase 5% da população do país fez isso no primeiro mês de existência do livro. Se a mesma proporção fosse aplicada ao Brasil, seria como se quase toda a cidade de São Paulo – ou Portugal quase inteiro, isto é, algo perto de 10 milhões de pessoas – lesse um livro em um mês. Nem Paulo Coelho consegue uma mágica dessas.

Verdade seja dita, uma edição de Veja é lida por algo como meia cidade do Rio de Janeiro, cerca de 3 milhões de pessoas. Verdade continue sendo dita, isto é quase nada em um país com 190 milhões de habitantes. Em compensação, a cobertura dos telejornais só não atinge alguns indígenas, alguns moradores de ruas e alguns bichos-grilos que fazem questão de não ver tevê. Em resumo: somos um país de analfabetos teleguiados.

Oito em cada dez livros mais vendidos no Brasil na última década são de auto-ajuda, sobretudo os que prometem milagres nas áreas de carreira e finanças. Mesmo com toda a procura e todo o marketing, são necessários uns quatro meses para vender 125 mil exemplares. Proporcionalmente… proporcionalmente não se chega lá.

Esse tipo de comparação só reforça o estigma de que não lemos e de que não temos preocupação em nos aprofundarmos nas histórias, em descobrirmos a verdade. Seja como jornalistas ou como leitores, não temos tal compromisso. Tudo é uma novela e o que vem mastigado nas revistas – ou, ainda mais fácil, pelos gritos do apresentador de telejornal estilo mundo cão – basta para alimentar nossos desejos mórbidos. Não vamos além.

Um simples exemplo como este ainda denuncia outras situações suficientes para desenvolver várias teses, mas levanto uma última que é o pouco ou nenhum apreço pela verdade, o que certamente nos leva a cometer grandes injustiças e marcar a ferro e fogo juízos que ficarão para a História como reais, mesmo que pairem sobre eles todas as dúvidas. Mas isso já é assunto para o próximo texto.

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9 respostas a Verdade para quê?

  1. Wilson disse:

    A VERDADE é definitiva. Conclusiva. É o fim do 3º ato. Resta somente fechar as cortinas.
    Com relação à imprensa, a verdade não é tão interessante. O que vende é a especulação da verdade. É como se fosse mais um dos capítulos da novela da vida: Um grande desfecho com um grande suspense para o próximo capítulo.
    Corre-se atrás de novidades, informações passadas e repassadas; busca-se a exclusividade. Um vai-e-vem de informações sobre o caso. Se não há a tal informação, simples, inventa-se.
    E ao fim de cada drama,quando a verdade aparece e dá a notícia por encerrada, ela, a verdade também não terá tanta importância para o público. Na lembrança do fato ocorrido ficara o mito, a lenda, o folclore. E a verdade mesmo fica na realidade do fato: vítimas e agressores.
    E nestes tempos “Calígolantes” honestidade e verdade parecem não fazer bem a ninguém. E o pouco apreço dado a ela pode estar no fato de que a VERDADE não mais liberta. Ao contrário…
    Abração.

  2. Ana disse:

    Sandro, a Veja vai de mal a pior mesmo. Na semana passada, a capa era o playboyzinho que deixa a novela por conta da cocaína. E ainda repetiram, na matéria, a falsa informação de que a Cássia Eller morreu por causa do uso de drogas… Lembra da capa da Veja quando ela morreu? Pois é, tiveram de desmentir depois. E agora repetem a mesma informação falsa num box que se ocupa em listar quem usa drogas – e se dá mal – no Brasil. Um abraço e parabéns de novo pelo blog!

  3. silvio lach disse:

    Sandro,
    isso porque vc não viu a matéria de capa da Veja Rio. Mais oportuna em momentos de crise, impossível. Tudo sobre o mercado de luxo. Enquanto a maioria está na mais profunda M…
    Abs

    silvio lach

  4. karla disse:

    me interessei por esse livro que vc citou..maddie…me da as referencias????
    acho que vc escreveu isadora ao inves de isabella…mas tambem,ateh eu fiquei desnorteada com a capa da veja..
    abração

  5. Sandro Fortunato disse:

    Nada como copydesk voluntário. Adoro! Coisa de quem escreve de madrugada, KARLA. Está corrigido. Quanto ao livro, ele foi editado pela Editora Guerra e Paz, de Portugal, e, que eu saiba, não veio para o Brasil. Você pode conseguir uma cópia em PDF em: http://xgoogle.com.br/blog/2008/10/06/download-maddie-a-verdade-da-mentira-dublado .

  6. Patrício disse:

    seu texto me deu vontade de ler a Veja, cara. mas tenho certeza que passa…

  7. Henderson disse:

    E por falar em pouca leitura, esta reportagem da revista Carta Capital (http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=2689), falando um pouco da vida e obra do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, quase não teve repercução. A revista Carta Capital, inclusive com a capa, traz a notícia do potentado de Gilmar Mendes em Diamantino/MT, foi renegada ao limbo. A propósito da matéria sobre as atuações de Mendes no município, se for verdade o que ali consta, por muito menos o meio jurídico já se revoltou. Se não for verdade, também caberia a revolta do meio jurídico. O que não se explica, nessa hora, é a pusilanimidade.

    Porque será que teve tão pouca repercução???

  8. Algumas notas, ou, para falar em bom brasileiro, vamos engrossar o caldo:

    ! On números expressivos das vendas do livro A Verdade da Mentira são atípicos. Não se lê tanto assim em Portugal. E ainda há que considerar a parcela de britânicos que vivem no sul de Portugal e que, de certeza, também compraram o livro;

    ! Entretanto, sua premissa parece correta, e é inaceitável, proporcionalmente, que se leia tão pouco no Brasil. A tendência é mesmo piorar, sobretudo com os efeitos de uma reforma educativa pensada sob o prisma das estatísticas, e não do futuro da população ativa (cá em Portugal, o governo está seguindo os mesmos passos de FHC…);

    ! Tenho alguma reserva sobre o seu questionamento sobre a nossa falta de “apreço pela verdade”. É que, filosoficamente, a verdade não existe. A verdade não é conclusiva, os factos sim! Sempre existirão várias versões sobre um mesmo facto e, do ponto de vista jurídico, há o incontornável direito de defesa dos réus (mesmo os que são apanhados em flagrante no delito). Se realmente queremos viver numa democracia, temos de “engolir” isso. O investigador Gonçalo Amaral, por exemplo, apesar da extensa carreira, está (mal) implicado em um outro caso onde cometeu vários erros. Por outro lado, no caso da menina Maddie, foi quem chegou às conclusões mais plausíveis.

    ! Agora, de facto há uma verdadeira falta de apreço pelo conhecimento. Contentámo-nos sempre com a versão do telejornal. Ou com a versão pouco ponderada e preconceituosa do senso comum. O que é sempre muito perigoso.

    ! Aqui chega a Veja, mas só os jornalistas tugas e os brasileiros mal formados lêem.

  9. Longe, MUITO LONGE de discutir a aeterna veritas, de aprofundar filosificamente qualquer questão neste espaço ou mesmo de discutir “a verdade de cada um” (tema sobre o qual falarei em breve aqui e que abordo em uma história que estou escrevendo), deixo claro que a expressão “apreço pela verdade” foi usada no sentido de “gosto por conhecer os fatos”. Todos vimos que Ayrton Senna bateu seu carro em um muro e morreu. Fato. Jornalisticamente, uma verdade incontestável: bateu, morreu. Se isso foi causado por imperícia do piloto, por defeito no carro, por falha na pista, porque ele teve um avc segundos antes, porque Deus achou que aquela era sua hora… isso não tem nada a ver com a abordagem factual, simples e indiscutível. Ao dizer que não temos, jornalistas e leitores, apreço pela verdade, quero dizer que pouco nos importamos com o fato em si. Os escândalos que podem derivar deles é mais interessante. As situações, preferencialmente constrangedoras e punitivas, que advém do FATO DESCONHECIDO parecem mais atraentes. E o conhecimento da “verdade”, isto é, do fato puro e simples, é matéria necessária para um bom juízo de valores POR QUEM REPRESENTA a sociedade para isso. Espero que jamais seja esquecido (se bem que pelo que vem sendo mostrado já foi esquecido) o caso da Escola Base, no qual a reputação, a saúde e a vida de um casal (principalmente) foi destruída por essa “falta de apreço pela verdade”. Ouviram um cocoricó ao longe e estamparam a foto do primeiro galo que apareceu pela frente. Já crucificado. Depois de criada UMA verdade é praticamente impossível restabelecer A verdade dos fatos. E isto, como dito ao final, é assunto para o próximo texto.

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