O mestre-inimigo

Por isso, como tesouros que surgem em minha casa,
Sem qualquer esforço de minha parte para obtê-los,
Devo me sentir feliz por ter um inimigo,
Pois ele me ajuda a alcançar o Despertar.

(Shantideva, no Guia para o modo de vida do Bodhisattva, VI: 107)

Primeiro deixei de ver tevê. Depois de ler jornais. De uns tempos para cá, percebi que filmes violentos, que nunca foram exatamente meu gênero preferido, me causavam alguma repulsa. É um processo iniciado há alguns anos, consciente ou não, de afastar-me de energias negativas e de situações que gerem raiva e sentimentos afins.

Esta semana, eu e minha filha mais velha fomos vítimas de uma violência comum e por muitos já banalizada: um assalto com exibição de arma de fogo. Isso a pouco mais de duzentos metros da casa onde meus pais moram há 23 anos, na outrora pacata cidade de Natal. Uma das coisas que costumo contar é sobre a adolescência livre e sem medo que pude ter na capital potiguar. Algo que, obviamente, minha filha não poderá contar a meus netos.

Foi uma ação rápida na qual presenteamos um necessitado com dois celulares velhos e quinze reais, já que ao ter a carteira requisitada, tive a frieza de pedir para ficar com os documentos. Demos meia volta, eu abraçado a minha filha, feliz por aquilo não ter acontecido a ela se estivesse sozinha e sentindo nas costas o peso da mochila com um notebook e uma câmera, que também retornariam sãos e salvos para casa.

Chamei a polícia, que chegou relativamente rápido, e passei quase uma hora circulando em uma viatura sem a mínima ilusão de que iríamos encontrar a pobre alma atormentada. E se encontrasse? Não daria em nada. Se não estivesse com o fruto do roubo, não haveria flagrante, o que significa dizer que ele seria levado à delegacia e responderia em liberdade por uma acusação. Isso se eu fosse junto, o reconhecesse e fizesse um boletim de ocorrência. Se estivesse com um revólver, responderia por porte de arma. Também em liberdade. Resumindo, ele só ficaria preso e esperando julgamento se fosse encontrado com a arma e os objetos roubados. Pelo porte de arma, a pena seria cumprida antes do julgamento. Não existindo outras acusações contra ele, isto é, sendo primário, ele também não ficaria muito tempo preso.

Isso faz pensar no óbvio que não temos: segurança preventiva e policiamento ostensivo. Depois que acontece, há pouco ou quase nada a se fazer. A polícia pode até conseguir concluir seu trabalho, mas a Justiça manda soltar. A certeza da impunidade faz o risco valer a pena. Puxar uns meses de cana é uma espécie de férias ou de curso de extensão que faz parte do ofício. Hoje, no Rio Grande do Norte, há mais mandatos de prisão em aberto do que os números de detentos nos presídios do estado. E nesses mandatos não estão as pequenas almas sebosas que assaltam nas ruas, a não ser que sejam fugitivos e tenham cometidos crimes mais graves.

Essa certeza de que nada vai acontecer estava estampada no sorriso de outro criminoso que apanhava de uma multidão no dia seguinte, na porta do maior shopping da cidade. Parecia uma dessas brincadeiras estúpidas de pancadaria entre colegas, mas havia sido uma tentativa de assalto em plena luz do dia. Pegaram o pobre diabo, lhe desceram o sarrafo e ele rindo, tirando onda com a cara de quem batia. Talvez até estivesse pensando que se a polícia aparecesse o salvaria de apanhar mais e – quem sabe? – seus agressores acabassem presos!

A total inexistência de um sistema eficiente, de um Estado com poderes, faz pensar que seria muito mais fácil prender os honestos e deixar a bandidagem solta. Na prática, isso acontece cada vez mais, quando nos trancamos em nossas casas, com grades, alarmes, cercas elétricas, cães, vigias, armas, segurança particular… A vida acabou. Não temos mais direito a nada. Se o assalto acontece a 200 metros de casa, como ir até a padaria sem correr riscos? Ou à farmácia? Ou à escola? Gostaria de saber se os filhos de Micarla, minha contemporânea no curso de jornalismo e prefeita eleita de Natal, conseguem ir andando até a escola. Gostaria de saber se os netos da governadora Wilma podem ir até a padaria comprar doces. É claro que não. Hoje, a vida se resume à TV, Internet, entrar no carro, descer do carro na garagem do shopping, voltar para casa. Assim fingimos estar felizes e seguros. Andar na rua é atividade para pobre. E pobre, sabemos, não tem direitos.

Percebam que estou falando de Natal, lugar que até pouco tempo, quando eu era adolescente, era uma cidade conhecida por ser pacata, segura, boa para se viver e criar filhos. Agora, você que está aí no Rio, em São Paulo, Porto Alegre, Recife ou Salvador, diga como está a situação. Não há mais lugar seguro. Não há mais liberdade de se escolher onde morar.

É uma triste constatação, que muitos já fizeram há anos. Eu tento ser otimista, ver as coisas por um lado positivo. Minha filha e eu já estávamos com celulares novos no dia seguinte, contratei um serviço 3G para não precisar utilizar a rede WiFi do shopping, aquele que fica logo ali e dá (ou daria) para ir a pé. O que se pode remediar, não causa infelicidade alguma.

E o pobre coitado que trocou o fruto do roubo por dez pedras de crack que devem ter sido consumidas no mesmo dia? O que passa essa alma atormentada e quanto tempo ela ainda habitará aquele corpo subnutrido? De que forma ele pagará por todo o mal que espalha?

Não tenho raiva dele. Procuro até não ter pena, pois isso me remete a uma total impossibilidade de resolver as mazelas sociais. Consequentemente, nós, os bons e honestos, nos trancamos em prisões cada vez mais fechadas. Assim como não podemos deixar que o medo tome conta de nós, não devemos deixar que a raiva nos domine. Se não alimentarmos o ódio, ele acabará se extinguindo. Mas é preciso mais que isso. Temos urgência. Queremos viver, queremos que nossos filhos vivam. A vida não acontece entre muros.

Não espere despertar sob a mira de um revólver. Faça sua parte e ajude a mudar isso agora.

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11 respostas a O mestre-inimigo

  1. Clotilde Tavares disse:

    Curioso é que andei viajando agora e me senti mais segura caminhando na Av Rio Branco no Rio de Janeiro, atravessando o Largo da Carioca em direção ao Amarelinho e me metendo por aqueles bequinhos, do que andando em Campina Grande Paraíba, cidade que me viu nascer. tenho medo de nadar na rua em campina, e de chegar de táxi na casa do meu irmão, que mora em Jardim Paulistano. Em Natal, não vou a pé da minha casa da rua Neuza Farache em Capim Macio para tomar ônibus na Eng. Roberto Freire: morro de medo. Em João Pessoa, toda vez que vou ao espaço Cultural tenho medo de voltar sozinha até o carro. E a muitos lugares vou de táxi, porque não tenho coragem de voltar para o carro quando o evento termina. É osso. Aí tem dias em que me acordo assim corajosa e faço tudo aquilo que tenho medo. Mas sei que me arrisco.

  2. Fausto José disse:

    Por enquanto minha solidariedade amigo. Isso me lembra o trecho de um filme muito amigo e antigo que vi duas sessões seguidas no cinema: Dodeskadem o caminho da Vida de Akira Kurosawa em que um ourives morador em uma favela de Tókio é assaltado e pede pelo amor de Deus que o bandido nao leve seus instrumentos de trabalho. O ladrão acede e logo depois o velho volta a dormir sobre uma pedra enorme e uma lua enorme. Novamente acordado por policiais que traziam o mesmo ladrão pelas algemas perguntava se ele tinha visto o cidadão.
    Ao que o velho disse que nunca o tinha visto.
    e voltou a dormir tranquilo e zen.

  3. Klecius disse:

    Lobão, é lamentável que Natal esteja deste jeito. Infelizmente, estamos assistindo a destruição do sistema de segurança público em nome da privatização do setor, como já ocorreu com a educação, saúde, telefonia. Estamos voltando ao sistema feudal, em que todos viviam entre muros e, o pior, há quem veja nisso uma solução, vide condomínios fechados, cercas elétricas, grades, etc. Torço para que você e sua filha superem logo o trauma e espero que Natal um dia volte a ser aquela que conhecemos há pouco tempo atrás.

  4. Jandiro Adriano Koch disse:

    História de sabor acre. Peço que me desculpe, pois, ao contrário do que deveria inspirar, ri feito a hiena de um de meus últimos comentários.
    Recordei de um assalto de que fui vítima (pensando melhor, acredito que o agressor também tenha sido vítima em certo aspecto)há alguns anos.
    Eu, por infelicidade, consegui identificar o rapazola. Passados alguns meses, em uma audiência, o juiz questiona se eu sabia qual o tipo de arma que fora utilizado. Como eu não entendo nada de futebol, de carro e de armas, acho que apresentei a cara mais aparvalhada possível como resposta.
    Recebi uma explicação nada confortante de que a pergunta era plausível, já que eu poderia ter sido dominado através de uma arma de brinquedo… Resumindo:não houve condenação.
    Passei anos sofrendo limitações dentro de minha própria cidade. Fui constantemente cerceado em minha liberdade de ir e vir pelo mesmo rapazola e alguns comparsas. Solicitei proteção policial em vários momentos (sempre prontamente atendido, escoltavam-me até a porte de casa), mas nunca mais denunciei.
    Passei anos rindo histericamente quando lembrava do juiz questionando sobre o tipo de arma utilizado. Há poucos dias o juiz (ainda novo) faleceu em trágico acidente de trânsito. Não vou relatar minha reação por acreditar que possa chocar aos mais sensíveis.
    O rapazola, hoje casado, pai de uma menina, está em outra fase da vida (transitória?). Temos uma relação amistosa depois de alguns atendimentos que fiz pessoalmente a ele e aos familiares dentro do posto municipal de saúde em que trabalho. Não comentamos o fato passado.
    Esse episódio, analisado em todos os seus pormenores, tornou-me um eterno desconfiado em relação à efetividade dos órgãos da Justiça. Há um paralelo entre o medo que tenho de sofrer alguma violência e o de ter que recorrer a uma instiituição na qual não acredito em plenitude. Um receio automaticamente evoca o outro.
    Descobri, enfim, que ali trabalham humanos!

    Quanto a você, Sandro, percebo que tem acumulado situações desconfortantes nos últimos tempos. Imagino que, a fim de preservar um certo equilíbrio, venha um tempo profícuo e de paz para você. Meu desejo! Abraços.

  5. Diego Viana disse:

    O câncer está metastasiado pelo Brasil. Não tem mais um único canto que seja seguro. Fico aliviado de saber que foi só a exibição da arma, não seu uso, embora já devesse ser suficientemente escandaloso que uma criança seja obrigada a ver um revólver ao vivo…

    Como será que conseguiremos mudar isso e passar a construir um país de verdade para as futuras gerações?

  6. Meire disse:

    É Sandro …

    Só há umas 3 semanas percebi que eu ainda era virgem de violência. Ai caiu a ficha: Natal não é mais a mesma.
    Em plena luz do meio-dia, em frente a uma conveniência, um cara tenta roubar o carro. Mas ele não sabia que o dono era imenso. Presenciei a briga dos dois, e sai tremendo. Cheguei em casa aos prantos, assustada por ser a primeira vez, no alto dos meus 30 e poucos anos, que vejo ao vivo e a cores um homem bater em outro até fazê-lo sangrar, com tanto ódio que não dá pra acreditar…

    Um horror.

    Sorte não ter acontecido nada com você e a Aimée.

    Beijos nos dois.

  7. Eu sou um cara medroso e, como muitos, comecei uma fuga perigosa. Primeiro procuramos uma cidade mais calma. Depois, um bairro mais calmo. Até que um dia a violência começa a rondar a vizinhança ou mesmo a porta ao lado (foi o meu caso).
    E então continua a fuga, para uma vila, depois para uma aldeia, depois o que?… para o mato? Por que você acha que eu preferi ser anônimo num país inexpressivo? Mas ainda há umas aldeias boas de viver aqui perto. Até internet tem. Se ficar o bicho come.

  8. Esse clima de tensão espalhou-se por todas as ruas das capitais brasileiras,hoje se você passa por alguém pela calçada e esse lhe pergunta as horas, você já acha que vai perder o relógio.

  9. CLÔ, eu também sempre falo da segurança que sinto ao andar pelo centro de São Paulo. No Rio é a mesma coisa. Os centros de algumas grandes cidades hoje são muito policiados. Eles já passaram da fase de bandalheira, de abandono total. Por outro lado, cidades como Natal, João Pessoa e Campina Grande ainda não se acostumaram com a nova realidade: de que a violência chegou e está cada vez pior.

    FAUSTO, lembro perfeitamente dessas cenas. Só não lembrava que era do Dodesukaden. Kurosawa, para mim, é a contraparte oriental de Fellini.

    KLECIUS, de forma sempre otimista, digo que pode até ser que um dia melhore mas, pelo descaso histórico das autoridades locais, infelizmente, acho que vai piorar muito antes de melhorar.

    JANDIRO, acredito na possibilidade de ter visto uma arma de mentira, mas minha inteligência não me permitiu tirar isso à prova. Por outro lado, enquanto estava no carro com os policiais, o selvagem mal alimentado que ainda sobrevive em mim chegou a pensar: “Se ele fosse pego, bem que os policiais poderiam me dar uns cinco minutos com ele. Sem algemas”. Mas meu caminho não é esse.

    DIEGO, sempre atento aos detalhes. Sempre em cima do lance. Meu caro, infelizmente acho que o mais certo é fazer como você e MARCELO: buscar um lugar mais civilizado, que já apanhou e aprendeu. A propósito, MARCELO, esse seu medo eu chamo de outra coisa: bom senso.

    MEIRE, a nossa geração, que teve a felicidade de viver uma Natal livre, só se dá conta da mudança quando fica cara a cara com a violência. Espero ao menos que aprendamos da primeira vez e, se possível, pela observação, como foi seu caso.

    Pois é, ARMANDO, é uma pandemia.

    WILSON… Wilson? Cadê o Wilson?! Está em férias gaudérias! Mas logo teremos notícias…

  10. Wilson disse:

    De volta dos pampas, saído do aconchego dos pelegos, eis que me encontro cá e a caminho de Petrópolis.
    O que tem que ser será! E foi aí, en Natal.
    E pensar que tanto falam da violência em Sampa…
    E pensar que nesses anos das suas idas e vindas a S. Paulo, caímos nos dias, noites e madrugadas dessa Cidade e saímos incólumes dos rebuceteios, “y otras cositas más”. Circulamos pelo Centro Histórico com a máquina fotográfica na mão, espoucando “flashes”, sem que alguém nos apontasse a “máquina” e nos levassem até as calças.
    O que tem de ser, será! Será? Por via das dúvidas eu continuo a circular pela transversal da vida, como se fizesse parte dela: Dou cigarro a vagabundo, empresto o isqueiro a drogado; jogo conversa fora com bêbados e prostitutas de 5ª categoria. Talvez seja por isso que “passo batido” pelo caos da Cidade. Talvez seja proque não olho ninguém de cima para baixo, de baixo para cima e, sim, cara a cara, olhos nos olhos. Ou, lá vem outra vez o talvez, talvez não tenha chegado a minha hora.
    E, dando uma de Poeta da Vila: Sei por onde passo, sei tudo o que faço… Vivo a vida.

    Abração.

  11. Chris Angelotti disse:

    Puxa Sandro,que coisa! graças a DEUS você e sua filhota não se machucaram fisicamente,pois a alma fica machucada,né? ficamos desapontados com o ser humano, com toda a violência que nos ronda e modifica nossas vidas, nossas relações.
    Que pena que a nossa bela Natal também está ficando assim, que pena que nossos filhos herdarão um mundo muito mais violento,mais selvagem embora toda a evolução de conhecimento do homem.
    Fiquem com DEUS! que não passem mais por essa experiência triste.

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