O jovem Antonio

Um ano. Exatamente um ano entre aquela tarde em que estávamos vendo centenas de fotos enquanto tomávamos uma cerveja e ontem, quando soube que ele havia saído, assim às pressas e sem aviso, para sua derradeira viagem.

Antonio Estevão, o jovem Antonio, como eu o chamava, foi uma das pessoas mais impressionantes que conheci em toda a vida. Dono de uma energia e de uma vivacidade que só poderiam ser subtraídas pelo coração, esse maldito que bate no peito de cada um e no qual não se pode confiar, foi levado numa manhã de terça sem que tivesse chance de reagir. Porque se tivesse, ele ganhava.

Foi em abril do ano passado que nos falamos pela primeira vez. Eu organizava o material sobre Carlos Estevão, conseguido naquele mês, quando me vi cheio de dúvidas. Eram referentes a datas, quase todas de sua infância e juventude em Recife. Quem poderia esclarecê-las? Liguei para Antonio Estevão, irmão de Carlos. Estranhei um pouco o vozeirão jovial que vinha daquele senhor que eu sabia ser já um octogenário.

Solícito e brincalhão, respondeu minhas perguntas sem qualquer dificuldade. Falamos sobre seus pais, as ruas em que moraram no Recife, as escolas que freqüentaram, e sobre o período em que ele e Carlos serviram o Exército.

Antonio trabalhou muitos anos com Jean Manzon. Rodou o Brasil e o mundo e tem muitas (põe muitas nisso!) histórias para contar. Cinegrafista, parecia fazer com a cabeça o que fez a vida inteira com a câmera: registrava tudo.

Dono de uma vida riquíssima, digna de ser contada, não tive dúvidas e, ainda nesse primeiro contato, eu disse logo: “Já sei de quem será minha próxima biografia”.

Quando nos conhecemos pessoalmente, em seu apartamento em Copacabana, no dia 2 de novembro do ano passado, antes de começarmos a falar sobre seu irmão, eu quis saber: “Qual é o segredo da eterna juventude?”. Estava frente a um menino de 82 anos. Jovem, forte, bonito, de um raciocínio rápido e com uma energia que não encontro em muitos amigos que estão na casa dos trinta. Entenda-se: não era uma pessoa “conservada para 80 anos”. Era alguém que sabia viver e, com isso, parece ter sido poupado ou jamais alcançado pelo tempo.

Tinha certeza que ele seria muito importante em minhas pesquisas sobre Carlos Estevão. Sabia que ele preencheria lacunas, arremataria nós, esclareceria passagens, me daria pecinhas que estavam faltando no quebra-cabeças. Fez tudo isso e muito mais. Mostrou uma memória espantosa sobre fatos acontecidos 70 anos antes. Não teve meias palavras sobre nada nem ninguém. Sabe esse tipo de gente que você não encontra toda hora na vida e que é impossível não admirar? Antonio Estevão era assim.

Em muitos instantes, esqueci o irmão famoso, motivo pelo qual eu havia ido até lá, para ouvir suas histórias. Antonio viajou o Brasil e o mundo inteiro como cinegrafista da companhia de Jean Manzon. Conheceu a inóspita Ilha de Marajó, viu a Transamazônica ser aberta, foi ver a matança dos jacarés no pantanal do Mato Grosso, conheceu os lugares mais pitorescos que se possa imaginar, conviveu com grandes personalidades do mundo cultural e político, com presidentes… Filmava, fotografava, pintava. Era uma força da Natureza.

Alguém que sobrevive à queda de um avião e a quase uma semana esperando socorro, tinha mesmo que ser muito amigo da Vida. E ele era. Aqueles dias em que estivemos juntos me fez entender com mais clareza a necessidade de amar a vida, de vivê-la intensamente, de lembrar constantemente aos que amamos que nós realmente os amamos. Eu programei falar sobre ele aqui no blog no início deste ano. Fui deixando para depois, para depois… e agora ele não vai saber o quanto eu gostava dele.

Mas sei que esse sentimento foi correspondido. Absolutamente nada acontece por acaso. Naqueles poucos dias, há um ano, quando eu olhava para ele e pensava “esse cara poderia ter sido meu pai”, ele certamente percebeu isso. Por qual outro motivo ele se apressaria em escrever mais alguns capítulos de suas memórias e, uma semana depois, dar cópias disso a um quase estranho?

Na última vez em que nos vimos, já existia no ar um sentimento de saudades. Ao nos despedirmos, na porta do elevador, ele me deu um forte abraço, um beijo carinhoso e disse que eu voltasse logo. Ontem, ao saber que seu alegre e enorme coração já não batia, me senti traído. Não por ele, mas pela vida. Por vários motivos, tive que adiar uma nova ida ao Rio e, quando isso se aproxima, já não mais nos encontraremos.

Na semana passada, pensei muito nele e, estupidamente, não dei um telefonema. Eu não havia percebido, mas ele estava fazendo aniversário. Na noite de domingo para segunda, não dormi e fiquei mexendo no material sobre Carlos Estevão. Na manhã de ontem, mesmo muito cansado, quase não consegui dormir. Tive dor de cabeça, estava agitado e durante o pouco tempo de sono tive pesadelos. No início da tarde, quando desisti de tentar descansar, recebi a notícia. Não perguntei maiores detalhes e, no momento, isso não me interessa. A imagem que sempre guardarei do jovem Antonio é aquela com os olhos apertados, o sorriso aberto e a voz cheia de vida contando muitas histórias.

Antonio Estevão viveu com muita sabedoria e energia cada dia dos seus 83 anos. Além de contar sua história, sinto-me devendo a ele pelo menos meio século, a partir de agora, de uma vida muito bem vivida e feliz. Se aprendi algo com ele é que estamos aqui para isso: para fazermos valer a pena cada instante.

Permito-me um instante de tristeza, porque sou egoísta e não poderei mais ter bons momentos junto a você, mas só um instante. Já estou levantando um brinde, meu amigo. E você, onde estiver, continue nesse caminho inspirador e cheio de Luz.

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10 respostas a O jovem Antonio

  1. Mariana Estevão disse:

    Era tanta vitalidade que eu criei a ilusão de que a vida dele seria eterna. Sinceramente, por essa eu não esperava.

  2. Chris Angelotti disse:

    Sandro,

    Olha que bacana mais uma faceta de jornalista, através dos seus olhos,ou melhor, das suas palavras, podemos conhecer pessoas, exemplos, histórias…
    Que bom conhecer um pouco do jovem Antonio, saber que além da sua sabedoria, energia.
    Apesar da saudade que deixará para os que o conheceram, é muito bom saber que alguém que se foi aproveitou a vida intensamente, viveu, aprendeu, lutou, cresceu!
    Espero seguir esse exemplo.
    Beijos

  3. Doris E.Souza disse:

    Mariana tem razão, fomos todos surpreendidos.
    Sandro, vc esta certo em tudo o que diz sobre o jovem Antonio, Tio Toinho, aquele tio cheio de novidades, sempre tão alegre e disposto a felicidade.
    Minhas saudades serão eternas…

  4. Klecius disse:

    Lobão,
    tenha certeza, que o jovem Antonio, dada a beleza e a vivacidade de seu texto, que ele o leu, sentiu e, certamente, se orgulhou do amigo que escreveu e aqui, como tantos, deixou.

  5. Tato disse:

    Bela homenagem, velho lobo.

  6. Caro Sandro, seu artigo é primoroso, você consegui passar toda emoção que sentiu,terminando por nos emocionar também.Um abraço,Armando(lygiaprudente.blogspot.com)

  7. Lucia Cartolano disse:

    Sandro,
    eu tb tive o privilégio de conhecer, conviver e de admirar nosso querido Estevão!! Com uma voz marcante, uma risada contagiante e histórias mirabolantes, ele certamente marcou nossas vidas com seu jeito alegre de “sempre” ser!!
    Um abç
    Lucia Cartolano

  8. Fred Estevão disse:

    Não é facil carregar este nome “ESTEVÃO” de tanta é a responsabilidade , pois temos o exemplo de Tio Antônio e de meu pai Alberto, para quem conheceu Tio Antônio sabe o quê digo; vivaz , carinhoso, atencioso… e por aí vai…homem forte.
    lembranças,simn estas eu tenho e não canso de lembrá-las…Tio Antônio és exemplo de vida para se seguir..te amo eternamente!!!!
    Até breve do outro lado!!!!
    Beijão!!!!

  9. antonio anestor disse:

    Estava solitário no computador qdo.bateu aquela saudade dos amigos antigos.Ai veio recordação do Estevão e fui pesquisar.Fiquei muito triste ao saber de sua morte.
    Nos divertimos e aprendi muito com ele durante os sete anos de convivencia na Jean Manzon.
    Um abraço.

  10. Marina Estevão disse:

    Vovô era demais. Saudades.

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